Criança afirma ter visto assassinato da mãe e ela aparece para buscá-la na delegacia no Viver Melhor em Manaus

Moradores do conjunto Viver Melhor, no bairro Santa Etelvina, Zona Norte de Manaus, resgataram uma menina, aparentando entre 3 e 4 anos, na manhã desta terça-feira (1º), que perambulava supostamente há dois dias nas ruas do conjunto. O mais chocante, no entanto, é o relato da menor sobre o motivo de estar em via pública. Ela afirmou que fugiu de casa após presenciar o assassinato da mãe e o sequestro do pai. Entretanto, nesta tarde, a mãe apareceu na delegacia e disse que a criança sofre de transtornos psicológicos.

“Ela afirmava que dois homens teriam entrado na casa dela e matado a mãe, que ficou cheia de sangue. Depois descreveu que arrastaram o pai dela para o mato e que o irmão foi atrás dele para ajudar”, disse o empresário Claudio Santos.

De acordo com a estudante Thays Motta, de 18 anos, que ajudou a cuidar da criança, ela estava apenas de calcinha, descalça e suja, pedindo ajuda e comida em um dos pontos de ônibus do conjunto.

“Um senhor passou hoje de manhã perguntando se algum morador a conhecia. Ele reconheceu a menina, por já ter a visto outros dias no mesmo local. Como era homem, ficou com medo de ser mal interpretado. Ele pediu que minha outra irmã pudesse ajudá-la”.

Com ajuda de um amigo, as irmãs acionaram a Polícia Militar – que conduziu a todos para a Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), no Planalto. No local, a menor passou por atendimento com uma psicóloga.

Segundo a delegada Juliana Tuma, a criança contou que viu a mãe sendo morta, que havia muito sangue e chegou a simular, com um objeto, movimentos semelhantes a facadas, na altura do tórax. Tuma informou que a prioridade, no entanto, é garantir o bem-estar da criança para que ela saia da situação de vulnerabilidade. Desta forma, a pequena será encaminhada para um dos postos de acolhimento públicos destinados às crianças e aos adolescentes.

“Fizemos a requisição dos exames de saúde e de conjunção carnal para verificar se houve alguma consequência à saúde dela devido ao período em que esteve exposta na rua. Também solicitamos conjunção carnal e coito anal para ter certeza que não houve abuso sexual”.

Moradores levaram a criança para a Depca, onde foi encontrada pela mãe
Ainda durante o procedimento na delegacia, uma mulher ligou para o local afirmando ser a mãe da menor encontrada. A delegada confirmou que a pessoa apresentou os documentos correspondentes. Segundo a mãe, uma autônoma de 19 anos, a criança tem problemas psiquiátricos e já teria fugido outras vezes.

Ela alega que a filha tem o hábito de simular histórias violentas e que já teria, inclusive, tentado se atirar da janela da casa onde mora. Ela desmente as testemunhas, afirmando que a criança sumiu na manhã desta terça-feira e não há dois dias. Segundo ela, quando foi procurar a menina, descobriu que ela havia sido levada para a delegacia.

A titular da Depca confirmou que, mesmo diante da comprovação da maternidade, será necessário solicitar o “desacolhimento”, ou seja, requisitar que o Estado devolva, formalmente, a criança aos seus cuidados.

Psicologia pode ajudar

De acordo com a psicóloga e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Cláudia Sampaio, é preciso que uma atuação conjunta possa garantir um atendimento psicossocial à criança. Na visão da profissional, independente da verdade ou não, a história apresentada pela menor, por si só, demonstra uma vivência de exposição a conteúdos violentos.

“Não é possível fazer um diagnóstico sem uma análise cuidadosa, mas, com certeza, essa criança passa por sofrimentos psicológicos, que podem ter diversos motivos. Ela tem o direito de receber atenção dos mecanismos que já existem no Estado, e a família precisa fazer parte disso”.

Coordenadora do Laboratório de Intervenção Social e Desenvolvimento Comunitário da universidade, Cláudia é professora de risco, proteção e vulnerabilidade no programa de mestrado da Universidade. Ela alerta não apenas para a situação da menina, mas também para o contexto familiar em que ela se encontra.

Para ela, a mãe também deve receber atenção especial, para que se possa compreender os motivos pelos quais a criança não tem recebido a devida atenção.

“É preciso cuidado para não condenar a mãe, que precisa de ajuda tanto quanto a filha. Uma criança desta idade estar sozinha é inaceitável, porém é preciso que se descubra que dificuldades a mãe está encontrando para dar a atenção necessária para a filha”, finaliza.

Conteúdo do Portal Emtempo

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