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Pequeno investidor sobrevive à crise da Bolsa com maior seletividade

Da redação | 22/04/2016 06:20

RIO – Os pequenos investidores de Bolsa que sobreviveram à crise global e ao ocaso do grupo “X” resistem frente à recessão brasileira e aos maiores juros da década por meio de seleção mais criteriosa de ações e se preparando antes de encarar o mercado. Se a quantidade de aplicadores pessoas físicas caiu 9,4% desde o pico em 2010, para 553 mil, especialistas afirmam que o investidor que permaneceu na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) está buscando papéis mais líquidos e com histórico mais sólido de resultados. E — por que não? — identificando pechinchas proporcionadas pela alta volatilidade registrada nos últimos anos, como prova a Petrobras, que foi a empresa que mais ganhou investidores pessoas físicas nos dois últimos anos, período marcado pela Lava-Jato e pela crise do petróleo. A lição aprendida é que, após três anos de quedas na Bolsa, comprar ações não é mais sinônimo de ganho fácil como foi em meados da década passada. Hoje, só ganha quem apostar nos poucos papéis com potencial.

A comparação entre a quantidade de investidores “de carne e osso” (que não são fundos, investidores institucionais ou pessoas jurídicas) antes de a crise se instalar, em 2013, e o número de hoje corrobora a interpretação de analistas do mercado financeiro. As companhias do índice de referência Ibovespa que mais ganharam investidores nesse período foram, em sua maior parte, segundo especialistas, aquelas que ganharam liquidez e se tornaram mais conhecidas por causa de seus resultados. O levantamento foi feito com base nos formulários de referência submetidos pelas companhias à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

‘BOLSA NÃO É CASSINO’

Nesse grupo estão papéis de grandes, como o Itaú Unibanco, e pequenas empresas, como Kroton e Estácio, da área de educação. Outro destaque foi a fabricante de motores elétricos Weg, que estreou na carteira do Ibovespa em janeiro e cujo lucro ultrapassou R$ 1 bilhão pela primeira vez em 2015.

— Antes da crise global, não importava o que você comprasse, você ganhava dinheiro. Hoje, não. Desde 2009 tem sido preciso fazer uma escolha muito melhor. Nos últimos anos, a educação financeira cresceu. Ficou estabelecido que a Bolsa não é cassino. Passaram a buscar empresas com bons resultados — afirma Celson Plácido, estrategista-chefe da XP. — As ações que ganharam investidores são também aquelas que demonstram uma resistência forte à crise.

Mas a companhia do Ibovespa que mais ganhou pequenos investidores, em volume, foi a Petrobras. O número de acionistas pessoas físicas da estatal saltou de 293.427 para 323.054 desde 2013, uma alta de 29.627 (10,1%). Alexandre Wolwacz, diretor da Escola de Investimentos Leandro & Stormer, avalia que a queda de 50% na cotação da ação preferencial (PN, sem direito a voto) da Petrobras nesse período enquadrou a companhia na categoria das pechinchas, tornando-a mais acessível à pessoa física.

— O custo do lote integral de cem ações ficou muito mais acessível. Esse lote já chegou a custar mais de R$ 4 mil no auge, em 2008, e há alguns meses ficou perto dos R$ 400. Conhecendo a Petrobras, o investidor começou a ver que ela estava mais barata do que merecia — diz Wolwacz.

O investidor Paulo Roberto Cezar de Andrade, de 57 anos, afirmou que só não aproveitou a chance porque estava vendendo um apartamento naquele momento e não tinha capital:

— Quando eu vi a ação chegando a R$ 4,20, deu vontade de entrar! Bolsa é assim mesmo, essas são as oportunidades. Quando o taxista começa a falar que a Bolsa está maravilhosa, aí já é hora de vender.

O oceanógrafo Aluízio Marcelo Costa Lima, de 47 anos, perdeu o emprego em uma firma de instalações submarinas que prestava serviço para a Petrobras por causa da crise e da Operação Lava-Jato. Decidiu aplicar o dinheiro da rescisão e do FGTS na Bolsa. Como não entendia nada do mercado, matriculou-se em um curso especializado. Ao ganhar confiança, identificou uma oportunidade de investimento… na Petrobras. Colocou R$ 15 mil quando os papéis estavam a R$ 6 este mês e vendeu-os alguns dias depois por R$ 7,50, com base em uma estratégia de curto prazo que aprendeu no curso.

Costa Lima entrou na Bolsa em um momento em que importância da pessoa física no mercado está encolhida. A retração foi de 50% desde 2009. Naquele ano, os pequenos aplicadores movimentaram 30,5% do volume da Bovespa. Em 2013, o número já era de 15,2%. Durante o ano passado, a participação foi ainda menor, de 13,7%.

Mateus Cunha, de 21 anos, que está no 7º período de Contabilidade no Ibmec-Rio, admite que ainda está em período de experiência no mercado financeiro, mas analisou as condições antes de aplicar mil reais na Bolsa.

— Em setembro passado, percebi que estaria perdendo minha chance se não comprasse ações da Petrobras. A Lava-Jato se tornou uma grande oportunidade porque, além de diminuir o valor da ação, vai obrigar a estatal a ter uma governança corporativa melhor para o acionista — conta o estudante, que agora está de olho em papéis da Ambev.

Cunha está confiante de que seu plano de vender as ações a R$ 15 se concretizará a longo prazo — mesmo depois de a companhia ter anunciado prejuízo recorde de R$ 34,8 bilhões em 2015.

— O prejuízo me assustou, sim. Mas primeiro espero ver a reação na Bolsa para depois decidir se saio ou não. Como a reação não foi muito negativa, espero que meu investimento valha a pena a longo prazo — diz Cunha.

TRAUMA ‘X’

Embora os papéis da estatal não tenham disparado como alguns investidores imaginavam após a aprovação da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, o estudante está confiante de que isso acontecerá caso Dilma seja afastada.

— As ações só começarão a subir mesmo se o impeachment for aprovado no Senado, e a longo prazo. Vejo como uma boa possibilidade o investimento na Petrobras agora, pois, com o impeachment, é muito provável que o dólar caia e, consequentemente, a dívida da Petrobras também, cuja maior parte está denominada em moeda estrangeira — acrescentou Cunha.

Flávio Lemos, sócio da Trader Escola de Investimentos, conta ter visto um salto de 40% na busca por seus cursos no último ano. Segundo ele, isso se deve, em parte, às crises agudas do mercado:

— “Eikes Batistas” sempre existiram na Bolsa. Na década de 1970, houve a Paranapanema, e meu pai perdeu um apartamento por causa dela. No caso Eike, muitos entraram sem entender e investiram em empresas que eram só projetos. O pequeno investidor passou a se informar mais.

Para Marcio Cardoso, sócio-diretor da Easynvest, por ser cíclico, o mercado deve experimentar uma mudança de perfil tão logo registre valorização maior:

— Quando a Bolsa começa a subir, o boca a boca se espalha e muita gente que não compreende muito de ações entra. Costuma ser assim.

OI TEVE MAIOR QUEDA

O GLOBO procurou as empresas com as maiores perdas de investidores (veja quadro ao lado). As únicas que mencionaram razões técnicas, além da venda de papéis pelos seus detentores, foram Oi e EDP. A Oi afirmou que um grupamento de ações realizado em 2014 “levou a uma significativa redução do número de seus acionistas pessoas físicas”. Nesse grupamento, quem tinha menos de dez ações deixou de ser acionista, recebendo o valor correspondente em dinheiro.

A Oi registrou a maior queda do Ibovespa no número de investidores, de 49,8%, mas segue sendo uma das companhias com maior número de acionistas, com 877.707 pessoas físicas. Mas, assim como no caso de outras operadoras, os números são distorcidos pelos planos de expansão do setor. Entre 1975 e1995, quem comprava uma linha telefônica ganhava também ações das companhias. Muitos desses investidores sequer sabem que têm ações e, logo, não estão cadastrados na Bovespa.

No caso da Oi, também influenciou na debandada dos acionistas o desempenho dos papéis. Sua ação preferencial acumula perda de mais de 97% desde o fim de 2013, valendo menos de R$ 1. Além disso, a operadora desagradou a maioria dos acionistas minoritários com uma operação de aumento de capital realizada em 2014.

Já a EDP atribuiu a queda a uma alteração nos critérios para contabilizar o número de acionistas. “Estabelecendo-se as mesmas bases e critérios, não há variação significativa.”

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