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Vivos, soldados são dados como mortos e têm que devolver a indenização no Afeganistão

Da redação | 09/05/2016 05:20

BESHUD, AFEGANISTÃO — A primeira vez que Noor ul-Haq morreu foi quando sua base militar foi completamente destruída pelo Talibã, depois de uma batalha violenta no sul. Centenas de insurgentes a invadiram e, ao governo, bastou apenas enviar os cadáveres para suas respectivas cidades. A mulher e os dez filhos enterraram o corpo, fazendo uma pilha de pedras sobre o túmulo em um cemitério que se enchera, de repente, com as outras vítimas da guerra originárias do Distrito de Behsud, no Leste do Afeganistão. Como inúmeras outras, a família recebeu uma indenização do governo, equivalente a um ano de salário do soldado, para pagar o enterro e se sustentar durante um tempo.

Ninguém sabe quem foi colocado naquela vala, mas não foi ul-Haq. Ele e outro membro de sua unidade, Imamuddin Ibrahimkhel, estavam entre os poucos soldados levados como prisioneiros pelo Talibã, em agosto, e libertados pelas forças especiais afegãs algum tempo depois. As famílias passaram pelo trauma da notícia, a tristeza do enterro dos corpos danificados demais para serem reconhecidos e a alegria de saberem que, de alguma forma, os homens sobreviveram.

Aí veio outro golpe: o governo queria o valor da indenização de volta. Os homens contam que receberam a oferta de passar mais um período no exército para ajudar a pagar a dívida.

— Fizeram a vida da gente um inferno. Meu coração está em pedaços por causa do que está acontecendo; tudo o que passamos, onde servimos e só o que interessa para eles é o dinheiro do enterro — lamenta Ibrahimkhel.

DATA DA MORTE: 28 DE AGOSTO DE 2015

As famílias de ul-Haq, 39 anos, que se alistou para cumprir três anos de serviço, e Ibrahimkhel, 31 anos e pai de três filhos, estão entre os milhares de homens que arcaram com as consequências da reviravolta drástica que a guerra afegã sofreu no ano passado. A notícia de que ainda estavam vivos veio pelo canal afegão 1TV.

Segundo as autoridades do país, só na província de Helmand, onde ambos serviam, pelo menos três mil membros do Exército afegão e da Polícia Nacional foram mortos nos últimos onze meses, quase o número total de americanos mortos ao longo de toda a guerra. O filho mais velho de ul-Haq, Zia ul-Haq, 23 anos, estava trabalhando de pedreiro em Jalalabad, no Leste do país, quando recebeu a notícia de que o pai tinha sido morto. Acompanhado de dois parentes mais velhos, o rapaz pegou o ônibus para a capital, Cabul, para recolher o corpo em um hospital militar.

No caixão, os detalhes oficiais de sua vida: Noor ul-Haq, filho de Said Amir Jan. Companhia de Artilharia, Segundo Batalhão, Terceiro Regimento, 215ª Unidade Maiwand.

O corpo foi colocado em uma van paga pelo governo e uma pequena multidão já o aguardava quando chegou à casa de adobe de três cômodos da família, em Behsud, na província de Nangarhar. O caixão ficou apenas alguns minutos no quarto, lotado de mulheres. Já exalava um cheiro forte e, por isso, foi rapidamente levado para o cemitério. Mais de 300 pessoas acompanharam o cortejo e fizeram as orações finais, e o homem foi enterrado.

— Ficamos com medo de perder nossa mãe também. Demorou uma semana para ela voltar a comer — contou Zia.

A família do outro soldado, Ibrahimkhel, não teve tanta sorte. Um dia depois de o corpo ter chegado à cidade onde a família vivia, em Charbolak, na província de Balkh, a mãe do rapaz morreu de infarto. Três de seus quatro filhos tinham sucumbido em batalha, todos na província de Helmand, e agora ela iria se juntar a eles no jazigo familiar.

Dias depois do enterro de ul-Haq, Zia voltou a Cabul para buscar o dinheiro da indenização: 162 mil afeganes, o equivalente a US$ 2.300. Um terço do valor foi parcelado em dez pagamentos. Algumas das notas mais altas estavam tão gastas que o banco se recusou a depositá-las — como também as de menor valor, alegando que já tinha uma quantidade mais que suficiente de troco.

A primeira novidade veio de manhã, três meses depois do enterro. Zia ul-Haq recebeu um telefonema de um homem com sotaque do Sul, perguntando se ele era o filho de Noor ul-Haq. A princípio, o jovem pensou que fosse trote, mas o sujeito lhe deu informações concretas e disse que Noor não estava morto, mas sim em um presídio do Talibã, em Now Zad, na província de Helmand.

— Minha mãe estava fazendo pão quando lhe disse que meu pai tinha sido encontrado. Todo mundo começou a chorar na mesma hora, mas de alegria — relembra.

‘DESGRAÇAS DO CONFLITO’

A jornada de quinze dias de Zia para encontrar o pai o levou aos confins do território talibã, ao cinturão do ópio, no sul. Teve que esperar na porta de um tribunal da facção, dentro de uma mesquita de Now Zad, enquanto um líder insurgente grandalhão resolvia disputas de terras e furtos antes de ter a visita aprovada.

Depois do procedimento, Zia teve permissão de ver o pai rapidamente, no prédio da antiga escola que fora transformada em detenção. Noor estava inclinado e mal podia andar, mas pelo menos se encontrava a centenas de quilômetros de seu túmulo, no cemitério de Behsud, respirando e falando com o filho.

Mas o Talibã não o liberou e Zia voltou para casa sozinho. Ibrahimkhel explicou, em entrevista por telefone, que depois que a base de Musa Qala foi destruída, ele, Noor e outros oito soldados sobreviventes foram levados como prisioneiros. E engrossaram o número de detentos, todos membros das forças de segurança. Eram 87 no total. Todo mês eram transferidos para outro lugar, às vezes em um distrito diferente, por causa do medo que o governo os descobrisse.

Depois de quatro meses de prisão, quando o mundo já os tinha dado como mortos, Ibrahimkhel passou o número do telefone de sua casa a um homem que estava visitando um civil. O homem anotou a informação na perna, por baixo da calça, e avisou a família de que o jovem estava vivo. Um dos irmãos de Ibrahimkhel se dispôs a fazer a viagem e finalmente o encontrou em Now Zad.

— Não deixaram a gente se ver de perto; ele ficou a uns vinte metros, mas mostraram que eu estava vivo — e preso — diz Ibrahimkhel.

Quando as forças especiais afegãs invadiram o centro de detenção, em dezembro, Zia ficou cheio de esperança de ver o pai libertado. Deu vários telefonemas, mas as notícias não eram nada boas: seu pai não estava entre os resgatados. Ouviu que talvez ele tivesse sido morto pelo Talibã antes da operação.

Noor se perdera da família de novo — que dessa vez não teve que esperar muito para receber notícias.

Um mês depois, em outra investida armada, no distrito vizinho, ul-Haq, Ibrahimkhel e 60 outros homens foram libertados. Só mais tarde, porém, os dois ficaram sabendo dos problemas que suas famílias enfrentavam. O Exército exigia que os dois devolvessem o dinheiro da indenização. Eles não só se sentiram insultados como arrasados. Na verdade, os oficiais afirmam que a culpa não era de ninguém. As bases são remotas e muitas vezes se passam meses antes de os corpos serem devolvidos, muito danificados e em adiantado estado de decomposição. Chega a ser impossível reconhecer quem morreu e quem foi resgatado com vida.

O General Dawlat Waziri, porta-voz do Ministério da Defesa afegão, descreve os casos de ul-Haq e Ibrahimkhel como “desgraças do conflito atual”. E insiste que ambos vão se encontrar com o ministro em breve, que faz questão de elogiar a coragem e a inestimável ajuda dos dois.

— Eles não têm que devolver nada — garante Waziri.

Porém agora os dois estão de volta a Helmand para tentar recuperar o salário usado para pagar a indenização. Por telefone, os dois disseram que não há nenhum indício de que suas dívidas tenham sido perdoadas. No terceiro dia em casa, Noor ul-Haq foi ao cemitério, com a ajuda de um dos filhos. O local estava cheio de covas recém-abertas, de soldados e policiais; muitos deles morreram em Helmand, a bandeira afegã hasteada sobre o túmulo. Ele agachou ao lado da lápide do que supostamente seria sua para oferecer uma oração ao homem desconhecido enterrado ali.

Entretanto, dois meses depois, ul-Haq estava de volta a Helmand para tentar recuperar o salário e talvez passar mais três anos no Exército.

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