‘Venezuela devia ter tomado medidas contra crise energética há um ano’

Por kayausterlitz em 16 de abril de 2016 às 5:20 | Atualizado 25 de julho de 2016 às 3:03

RIO – Para o consultor do sistema de energia José Aguilar, a crise energética na Venezuela foi causada por falta de manutenção e corrupção no país.

A mudança do fuso horário é uma boa solução?

É uma medida válida e tem sentido. Mas, infelizmente, a situação energética é muito crítica e medidas como essa, ainda que bem-vindas, não têm suficiente poder corretivo. Seu efeito é muito pequeno e está sendo implementado tardiamente. O governo deveria ter feito isso há pelo menos um ano.

O novo horário será implantado em duas semanas. Não deveria ser posto em prática o mais rapidamente possível?

Me surpreende a postura de Maduro, que irá demorar duas semanas para implantar a mudança. É muita parcimônia. Maduro, faça isso já, imediatamente! Decretos do governo são publicados diariamente. Em duas semanas, se as chuvas continuarem atrasando, o país vai estar ainda mais em dificuldade.

Quais as causas da crise?

O governo alega que ela se deve ao El Niño. Tecnicamente, não há nada mais distante da realidade. É verdade que as chuvas vêm sendo desfavoráveis desde maio de 2014, mas a Venezuela tem potência termoelétrica. Se em maio, 50% desta potência estivesse funcionado a todo vapor, a represa de Guri teria hoje 25 metros a mais. Os ciclos de chuvas são perfeitamente previsíveis e, muito especialmente, no caso do país. O governo dispõe de duas ferramentas para prognosticar o comportamento das chuvas, com 32 meses de antecedência. São programas que dizem ao governo quando é provável que chova e quão longo será o período de chuvas, além de quanto se deve produzir todos os dias de energia termoelétrica, em casos em que as hidroelétricas estejam desabastecidas.

Então por que o país chegou a esse ponto de desabastecimento?

Por falta de manutenção, tendão de Aquiles do atual governo, e corrupção. Sobrecarregaram a represa (de Guri), porque as usinas termoelétricas estão sucateadas. Foram cerca de 97 mil megawatts de excesso de produção, um problema que estava escondido quando a maré estava alta. Só agora a Venezuela se dá conta. O pais gastou em seis anos US$ 60 bilhões em novas usinas termoelétricas, em investimentos em hidroelétricas e geradores de energia eólica. Temos potencial termoelétrico para gerar 17 mil megawatts, e produzimos apenas sete mil. Como é possível que um sistema que tenha recebido tanto dinheiro esteja em condições tão ruins? Grande corrupção e falta de manutenção. A economia não pode funcionar sem eletricidade, o aparato produtivo está parado e dependemos cada vez mais de importação.

E como corrigir o problema?

A longo prazo, precisamos de um governo que faça uma gestão diferente, que seja mais transparente e ético. De um governo que não esconda a realidade e assuma suas responsabilidades. A parte técnica pode ser mais simples que a complexa realidade política.

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