E a guerra continua: Rússia quer tomar sul da Ucrânia e bloquear acesso do país, diz EUA

Por Sthefane Campos em 11 de maio de 2022 às 7:24 | Atualizado 11 de maio de 2022 às 7:24

Mundo – O presidente da Rússia, Vladimir Putin, se prepara para uma longa guerra na Ucrânia, a qual se tornará “mais imprevisível e crescente” nos próximos meses. As forças russas pretendem capturar todo o sul da ex-república soviética, construir uma ponte terrestre ligando-o à Transnístria — região separatista situada no Moldávia — e impossibilitar o acesso dos ucranianos ao Mar de Azov. A avaliação foi feita por Avril Haines, diretora da Inteligência Nacional dos Estados Unidos. Ela prevê que as tropas de Moscou “não poderão chegar à Transístria e incluir Odessa (cidade portuária situada no sul), sem decretar uma forma de mobilização geral (de reservistas)”.

De acordo com Haines, Putin enfrenta um “descompasso entre suas ambições e as atuais capacidades militares russas”. Ela revelou que a Ucrânia matou pelo menos 10 generais russos. “Ele (Putin) conta possivelmente com um enfraquecimento da determinação dos Estados Unidos e da União Europeia, quando a escassez de alimentos for agravada pelo aumento dos preços da energia”, advertiu. A diretora da Inteligência duvida que Putin lance mão de armamentos nucleares neste momento. “Continuamos acreditando que o presidente Putin só autorizará o uso de armas nucleares se perceber uma ameaça existencial para o Estado ou o regime russo”, afirmou.

Enquanto Haines discursava no Comitê de Serviços Armados do Senado norte-americano, a Rússia intensificava os combates no leste da Ucrânia, principalmente nas regiões de Liman e Severodonetsk, na chamada bacia do Donbass. A intenção do Kremlin é “libertar” os territórios de Donetsk e Luhansk, controlados parcialmente por separatistas pró-Moscou. Isso permitiria aos russos terem acesso total ao Mar de Azov e asseguraria uma continuidade territorial com a Crimeia, península anexada por Moscou en 2014.

Na noite de segunda-feira, Odessa foi alvo de ataques com mísseis hipersônicos que destruíram o shopping center Riviera. A Rússia alega que o local era usado como armazém de armas e munições fornecidas pelo Ocidente. Uma pessoa morreu e cinco ficaram feridas. Morador de Odessa, o estudante Emil Heleta, 19 anos, admitiu ao Correio que a situação é instável na região. “Há rumores sobre o desembarque de tropas russas na costa do Mar Negro e na Transnístria. A Rússia continua tentando isolar Odessa de Ishmael, mais ao sul, ao fazer o quarto bombardeio sobre a ponte do estuário de Dniester. Se a ponte deixar de existir, a Ucrânia sofrerá danos no sistema de defesa, pois ela é a única forma de transferir rapidamente tropas e recursos para a região.”

De acordo com Emil, a explosão de segunda-feira provocou uma forte onda de choque. “A noite se iluminou por um momento. Depois do bombardeio e após o nosso prédio sacudir, o único pensamento era: onde esse míssil caiu dessa vez? Minha reação foi me jogar no chão. As pessoas daqui estão acostumadas com o padrão: uma sirene antiaérea, poucos minutos de silêncio e a explosão”, relatou.

Ceticismo

Analista da Fundação de Iniciativas Democráticas Ilko Kucheriv (em Kiev), Petro Burkovsky não acredita que Putin será bem-sucedido na conquista do sul da Ucrânia. “Esse era um plano viável dois meses atrás. Agora, parece algo improvável. Odessa está fora do alcance do exaurido Exército russo”, disse à reportagem. Ele prevê que, até o fim deste mês, a Rússia tenha perdido mais de 30 mil soldados no front e contabilizado outros 60 mil feridos. “Isso representaria 45% do contingente invasor, o que seria uma clara derrota.”

Em termos práticos, Burkovsky não vê avanços na conquista do sul para Moscou. Ele lembrou que a cidade portuária de Mariupol está totalmente destruída, e os russos não a reconstruirão. Também citou que muitas pessoas fugiram de Kherson (sul) e de Zaporizhzhia. “Com isso os russos não terão força de trabalho para cultivar as lavouras e não haverá colheita. Além disso, os russos não poderão utilizar a usina nuclear de Zaporizhzhia para chantagear a Ucrânia.”

A ONU anunciou que o número de mortos na guerra pode ser bem maior do que as estatísticas oficiais, que contabilizam 3.381. “O que posso dizer é que são milhares de mortos a mais do que os números que temos”, disse Matilda Bogner, chefe da Missão de Monitoramento de Direitos Humanos da ONU.

Quase dois terços dos 3,5 milhões de habitantes de Kiev retornaram à capital ucraniana, que ficou praticamente deserta no início da invasão russa, em 24 de fevereiro, afirmou o prefeito da cidade, Vitali Klitschko. “Antes da guerra, Kiev tinha 3,5 milhões de habitantes, quase dois terços voltaram”, disse.

Apesar do toque de recolher em vigor, dos controles nas estradas, as pessoas “podem efetivamente regressar se essas circunstâncias não as assustam”, disse o prefeito, que até agora havia pedido aos habitantes da capital que fugiram que tivessem paciência antes de retornar. Klitschko destacou que não pode proibir que os moradores de Kiev retornem à capital, mas pediu cautela. “Se você tem a oportunidade de estar em um local mais seguro, onde não há risco para sua vida e sua saúde, por favor fique”, declarou.

Em 10 de março, duas semanas depois do início da invasão russa, o prefeito informou que metade da população da cidade havia fugido e que “permaneceram pouco menos de dois milhões de pessoas”.

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) informou que mais de 8 milhões de pessoas tiveram de deixar suas casas e encontrar abrigo em outros lugares da Ucrânia.

Morre Leonid Kravchuk, primeiro presidente pós-independência

O primeiro presidente da Ucrânia independente, Leonid Kravchuk, morreu em Kiev, aos 88 anos, em plena invasão russa ao seu país, informou o prefeito da capital ucraniana, Vitali Klitschko. “Uma grande perda para a Ucrânia. Hoje (ontem), faleceu Leonid Kravchuk, primeiro presidente da Ucrânia, primeiro presidente da Rada (Parlamento ucraniano) e personalidade na origem do Estado ucraniano moderno”, disse Klitschko. Enquanto líder da Ucrânia soviética, Kravchuk foi um dos três signatários da ata de dissolução da extinta União Soviética (URSS), em dezembro de 1991, com os presidentes de Rússia e Belarus, Boris Yeltsin e Stanislav Shushkevich. No mesmo mês, foi eleito presidente de seu país, que se declarou formalmente independente, e ficou no cargo até 1994.

*Com informações do Correio Braziliense*.