Percorrer os quase 35 km que separam, em linha reta, Dover (Inglaterra) de Calais (França). Esse era o próximo desafio do ultramaratonista aquático Alan Viana, que poderia ver sua missão aumentar para 50 km de distância em razão da ação das correntes marítimas. A janela para a qual o brasileiro estava inscrito era de 9 a 20 de julho de 2020. Contudo, no início dessa semana ele informou à Agência Brasil que a Channel Swimming Association (entidade que administra as travessias entre Inglaterra e França) confirmou o cancelamento de todas as provas agendadas para junho e julho por conta da pandemia do novo coronavírus (covid-19).

“O desafio, que era só meu no início, passou a ser de várias outras pessoas que embarcaram junto comigo nesse sonho. E eu tinha certeza que estava muito preparado para completar a prova”, lamenta o nadador.

Ele vinha se preparando desde 2017: “É difícil para mim e para todo o pessoal que estava me ajudando. Ainda estou assimilando tudo o que está ocorrendo. Mas sei também que minha dor não é maior do que a de várias outras pessoas ao redor do mundo. O momento é de muitas perdas para milhões de pessoas em diversos países”.

A Channel Swimming Association deu a Alan a opção de entrar em uma lista de reserva ainda para esse ano, uma fila de espera para 2021 ou um reagendamento para 2022: “Não sei qual o propósito disso tudo. Mas o projeto era uma meta de vida. Vai acabar ficando para 2021. As datas que me foram oferecidas para esse ano já estão fora do período ideal para travessias. Ainda não sei também se terei disposição e fôlego para seguir nadando após essa prova. Minha esposa e eu queremos filhos. Temos outros planos. Então, era o encerramento de um ciclo, que agora apenas adiamos para um futuro próximo”.

O foco era tanto que, durante a preparação, o maratonista aquático completou quatro das maiores provas do Brasil, a Travessia da Ilha do Arvoredo (25 km), o Amazon Challenge (30 km), a Travessia do Leme ao Pontal (34 km) e a Travessia da Ilha do Mel (45 km): “Se não tivesse o Canal da Mancha, eu já estaria realizado. Essa nova travessia seria a forma de coroar tudo que venho fazendo”.

O cancelamento chegou apenas nesse mês. Porém, as incertezas começaram ainda em março, com a chegada da pandemia ao Brasil: “Fiquei duas semanas sem nadar. Depois, passei um período treinando na piscina dos meus pais com auxílio de alguns equipamentos. Posteriormente consegui uma piscina em uma academia. Mas era difícil manter o foco. Os organizadores apenas orientavam a seguir treinando, se possível. Depois veio problema do aumento da cotação da libra, que, quando fiz a reserva, estava em quase R$ 5. Depois ficou perto dos R$ 7. Então, normalmente o projeto já teria muitas dificuldades. E o coronavírus ainda veio para potencializá-las. Passava por uma briga mental diária para nadar durante três horas na academia praticamente vazia. Não é uma situação fácil de se lidar. Porém, não vou desistir. Tenho que seguir em frente até tornar realidade esse sonho”.

Com informações da Agência Brasil