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Assassinato de deputada pode influenciar votação no Reino Unido

Da redação | 17/06/2016 05:20

BIRSTALL, Reino Unido – O assassinato da deputada trabalhista Jo Cox — baleada e esfaqueada na cidade de Birstall, perto de Leeds — pode embaralhar ainda mais a campanha pelo referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, que acontece daqui a uma semana. Imediatamente após o ataque, atos de campanha dos dois lados foram suspensos e o próprio primeiro-ministro David Cameron, defensor da permanência britânica no bloco, cancelou o discurso que faria em Gibraltar. Autoridades ainda não confirmaram, mas testemunhas garantem que o agressor teria gritado repetidamente “Reino Unido primeiro!” no momento do ataque. O suspeito, que foi preso, seria Thomas Mair, de 52 anos, identificado por moradores de Birstall.

— Nós perdemos uma grande estrela — lamentou Cameron, ontem. — Tinha um grande coração, era muito compassiva.

A expressão “Reino Unido primeiro” (Britain First) pode ser uma possível referência ao referendo — trata-se do slogan dos que defendem a saída do Reino Unido da UE — ou a um partido nacionalista de extrema-direita britânico criado em 2011, que defende políticas anti-imigração. Estrela em ascensão no Partido Trabalhista, a deputada defendia a permanência do país no bloco e, recentemente, havia pedido aos britânicos que votassem contra o Brexit — a proposta de saída da UE.

“Todo o Partido Trabalhista e a família dos trabalhistas, e de fato todo o país, guardaremos o choque do assassinato horrendo de Jo Cox”, disse o líder da legenda, Jeremy Corbyn, em comunicado.

A deputada, que iria completar 42 anos na próxima quarta-feira, estava nas escadas da biblioteca da cidade quando foi atingida, após participar de um evento no local. Um homem de 77 anos também ficou ferido no ataque. Golpeada com uma faca de 30 centímetros, Cox foi também atingida por três tiros no corpo e no rosto e já estava em parada cardíaca quando a assistência médica chegou. Foi declarada morta horas depois, já no hospital de Leeds.

— Vi um homem na casa dos 50 com um boné branco, casaco e um tipo de arma antiga na mão — contou à BBC Clarke Rothwell, dono do café no outro lado da rua. — Ele disparou mais de uma vez contra a mulher, caiu no chão sobre ela e disparou outra vez no rosto. Alguém tentou agarrá-lo, e ambos lutaram. Depois ele pegou uma espécie de faca de caça e começou a esfaqueá-la várias vezes.

Outras testemunhas, no entanto, afirmam que a deputada tentou intervir em uma briga entre duas pessoas e acabou sendo atacada.

Suspeito tinha problemas mentais

O irmão do suspeito contou que Mair já teve problemas mentais, mas nunca tinha se mostrado violento ou politicamente engajado. Pelos vizinhos, ele foi descrito como solitário, prestativo e discreto. Embora a polícia ainda não tenha confirmado o nome do detido, sua casa foi revistada. Ele mora sozinho e não costuma receber visitas.

— Ele tem um histórico de doença mental, mas já teve ajuda. Estou lutando para acreditar no que aconteceu. Meu irmão não é violento e nada político. Eu nem sei em quem ele vota — disse Scott Mair ao jornal “Telegraph”.

Até agora, a polícia não falou sobre as possíveis causas do ataque, mas há razões para acreditar que o crime tenha contornos políticos. Jayda Fransen, vice-líder do Britain First, se disse horrorizada e lembrou que, por enquanto, há apenas boatos sobre as motivações do agressor.

— Estamos extremamente chocados de ver estes relatos e estamos empenhados em confirmá-los porque, é claro, por enquanto são apenas boatos. Não é o tipo de comportamento que toleraríamos.

A vítima não podia estar mais distante do eleitorado anti-imigração. Além de ser uma forte apoiadora da permanência do Reino Unido na UE, defendia uma política mais abrangente e, recentemente, discursou na Câmara dos Comuns pedindo o acolhimento das três mil crianças sírias que chegaram sozinhas à Europa. Em sua estreia no Parlamento, em 2015, fez um forte discurso a favor da imigração e da diversidade — e se absteve em uma votação sobre uma polêmica ação militar britânica na Síria. Ela também era copresidente do grupo parlamentar Amigos da Síria, e integrante ativa de conselhos que trabalhavam em temas relacionados com Palestina, Paquistão e Cachemira.

— Nossas comunidades têm sido profundamente reforçadas pela imigração, seja de católicos irlandeses ou de muçulmanos da Índia ou do Paquistão — disse ela, em sua estreia no Parlamento.

A uma semana do referendo, pesquisas mostram que 20% dos britânicos ainda estão indecisos, e especula-se que o crime brutal possa ter alguma interferência entre o eleitorado.

— Até que esteja claro quem foi responsável e qual foi ou pode ter sido a motivação, isso só serve para interromper a campanha, embora o lado do “fica” provavelmente não quisesse que ela fosse interrompida — disse John Curtice, professor de Política da Universidade de Strathclyde.

Ativista a favor da imigração

Mãe de duas filhas de 3 e 5 anos e casada com Brendan Cox, Jo Cox dividia seu tempo entre o barco atracado no Rio Tâmisa, onde vivia em Londres, e sua casa em Batley e Spen, distrito do Norte do país. Ontem, centenas de pessoas lotaram a igreja de Birstall para prestar homenagens à deputada.

— Ela cresceu nesta comunidade, vivia para esta comunidade e, no fim, deu sua vida para esta comunidade — afirmou o reverendo Jonathan Gibbs.

“Jo acreditava em um mundo melhor e lutou por isso com uma energia e zelo que teria esgotado a maioria das pessoas”, disse Brendan em nota.

A deputada vinha do mundo do ativismo. Seu vínculo com a Europa aumentou nos anos em que viveu em Bruxelas, a serviço de Glenys Kinnock — eurodeputada e secretária de Estado para a Europa do governo de Gordon Brown. Também passou uma década trabalhando para a ONG Oxfam. Em 2008, colaborou na campanha do presidente Barack Obama.

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