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Voo 1907- Dez anos após acidente com Boeing da Gol, que matou 154 pessoas na Amazônia

Da redação | 29/10/2016 12:55

Há dez anos, quando um novíssimo jato executivo Legacy decolou de sua fábrica no interior de SP e horas depois se chocou no céu da Amazônia com um Boeing da Gol, a segurança do sistema aéreo brasileiro foi colocada imediatamente em dúvida, além de ter deixado 154 mortos. Logo após a tragédia, soube-se que os radares não eram capazes de cobrir todo o território nacional e que os rádios não alcançavam os pilotos em determinadas áreas do país, naqueles vácuos chamados de “buracos negros” da aviação.

Ainda no calor do acidente e da busca pelos corpos na floresta, controladores de voo denunciavam ter em mãos um sistema ultrapassado de monitoramento das aeronaves e uma carga de trabalho exaustiva. Para pressionar o governo, controladores passaram a aplicar operação-padrão nos voos do país, causando atrasos em cascata na aviação nacional. Era o início de uma crise no setor aéreo sem precedentes no país.

Esse clima culminou, meses depois, em um motim dos controladores que suspendeu praticamente todos os voos do país por uma noite em março de 2007. O “caos aéreo” foi agravado por outros dois acidentes, o da TAM, em julho de 2007 em Congonhas, e o da Air France, em 2009 no Oceano Atlântico.

Reprodução
Cabine de um modelo Legacy, o mesmo que se chocou no ar com um Boeing da Gol, matando 154 pessoas
Cabine de um modelo Legacy, o mesmo que se chocou no ar com um Boeing da Gol, matando 154 pessoas

Agora, no aniversário de dez anos do acidente do voo 1907 (em 29 de setembro), Aeronáutica, pilotos e controladores de voo afirmam que o avanço da estrutura tecnológica no país ajudou a tornar a aviação mais segura. Segundo eles, no entanto, ainda há gargalos a serem superados. Controladores relatam persistência de carga exaustiva e pilotos apontam falhas de comunicação, o que a Aeronáutica nega.

AVANÇOS

Entre os aprimoramentos está a intensificação do treinamento de controladores de voo para agirem em situações de perda de contato com a aeronave, via radar ou via rádio. “Os controladores de voo são treinados em simuladores para situações de perda de radar e de comunicações. Isso tudo foi muito adensado nesses últimos anos, com o avanço de novas tecnologias”, afirma o brigadeiro Carlos de Aquino, chefe do departamento de controle do tráfego aéreo do país.

Segundo investigação da Aeronáutica, a colisão do Legacy com o Boeing da Gol só foi possível graças a uma sequência de erros dos controladores de voo e ao desligamento, pelos pilotos, do sistema de transponder do Legacy, que informa ao radar do controle aéreo a altitude correta do avião e dá o sinal de alerta diante da aproximação perigosa de outra aeronave.

Desde o acidente com o Boeing da Gol, ainda segundo o brigadeiro, o número de controladores de voo cresceu, para que o sistema se “adequasse à necessidade do país”. Em 2006, eram 2.800 controladores civis e militares no país. Em 2016, são 4.200. Enquanto isso, o número de passageiros transportados em aeronaves passou de 35,8 milhões, em 2006, e deve fechar 2016 acima dos 89 milhões.

Mas a formação desses profissionais, na opinião do Sindicato dos Trabalhadores em Controle de Voo, veio acompanhada da demissão dos mais antigos e experientes. Para eles, essa troca implica em aumento do risco. Para a Aeronáutica, no entanto, o avanço tecnológico nos últimos anos diminuiu o peso da experiência do controlador na tomada de decisões no monitoramento do espaço aéreo.

Outro avanço foi a implementação, a partir de 2009, de um novo sistema de leitura das informações enviadas pelos radares brasileiros. O software antigo por vezes enviava às telas dos controladores de voo informações de “aviões fantasmas”, que não existiam na vida real. O novo sistema é, segundo os controladores de voo, mais amigável e confiável.

A renovação do sistema de comunicação via rádio é, segundo a Aeronáutica, o terceiro grande avanço do setor no período. Após o acidente com a aeronave da Gol percebeu-se que, em muitas áreas do país, principalmente na Amazônia, há fraco sinal de rádio entre os controladores e pilotos.

Divulgação
SALA DO CENTRO DE CONTROLE AEREO DO CINDACTA 4, em Manaus, em outubro de 2006
Sala do centro de controle aéreo do Cindacta 4, em Manaus, em outubro de 2006

O próprio relatório da Aeronáutica sobre o acidente mostra que, das cinco frequências previstas no plano de voo dos pilotos do Legacy na área em que houve a colisão, apenas uma estava ativa.

A Aeronáutica informa que todo o sistema de rádio no país está atualizado. Mas, segundo o presidente do Sindicato dos Aeronautas (que representa pilotos e comissários de bordo), Rodrigo Spader, ainda há falhas de comunicação, principalmente na região Norte. “É inegável que houve melhoras, mas, se num dia a frequência está boa, no outro, ela fica inativa por alguns segundos, no outro, por alguns minutos. Não tem um padrão”, conta o piloto.

A informação é reforçada por um controlador de voo de Brasília, que pediu para não ter seu nome divulgado nesta reportagem. “O problema do rádio na área onde houve a colisão ainda não foi 100% sanado”, relata. “O que mais atrapalha para o controlador são as rádios piratas ou telefones rurais. Se ela entra na frequência, eu não consigo falar com o piloto. Há casos de controlador que tenta se comunicar com o piloto e ouve até venda de boi via rádio.”

Para esse controlador ouvido pela Folha, a rotina militar dentro dos centros de controle de tráfego aéreo é um entrave à profissão. Segundo ele, os controladores, em sua maioria militares, têm que obedecer às regras de escala e à carga horária de um militar, sem que seja levado em conta o nível de estresse específico da atividade.

30.mar.2007/A Critica
Controladores de voo da Amazônia fazem greve de fome em protesto contra jornada de trabalho exaustiva e falta de estrutura de trabalho
Controladores de voo da Amazônia fazem greve de fome em protesto contra jornada de trabalho exaustiva e falta de estrutura de trabalho

A desmilitarização do serviço de controle aéreo era um pedido de parte da categoria em 2006. A demanda chegou a ser analisada pelo governo federal, mas nunca avançou. “O controle do tráfego aéreo é especialmente cansativo. O que aconteceu há dez anos, quando o controlador estava cansado, continua até hoje. Nós estamos evitando que aconteça o que aconteceu há dez anos”, relata.

COMO FOI O ACIDENTE
Acidente que deu início à maior crise aérea do país completa uma década

Ilustração Luciano Veronezi/Editoria de Arte/Folhapress

1 – 14h51 O Legacy partiu de São José dos Campos com destino aos EUA com uma parada em Manaus

2 – 15h35 Boeing da Gol partiu de Manaus para o Rio com escala em Brasília e manteve-se o tempo todo a 37 mil pés, como previsto em seu plano de voo

3 – 15h55 Jato passa por Brasília e deveria mudar sua altitude para 36 mil pés,o que não aconteceu

4 – 16h33 Legacy passa pelo ponto a partir do qual deveria passar para a altitude 38 mil pés e se mantém na mesma altitude do Boeing

5 – 16h56 Aviões colidem e Boeing cai na Floresta amazônica. Todos os passageiros do Legacy pousaram em segurança

Matéria e informações da Folha de São Paulo

FABRÍCIO LOBEL http://temas.folha.uol.com.br/voo-1907/apos-10-anos/sistema-aereo-avanca-mas-ainda-tem-gargalos-dez-anos-depois-de-tragedia.shtml
ENVIADO ESPECIAL AO RIO E A BRASÍLIA

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