Aos 103 anos, Dona Clotildes Ferreira Jorge desafiou a morte – e ganhou por nocaute. A aproximadamente dua semanas, ela recebeu dois diagnósticos simultâneos: um de dengue, outro de covid-19, combinação perigosa até mesmo para jovens com saúde de atleta. A mineira, no entanto, não só venceu os dois vírus, como o fez longe dos hospitais, e sem a ajuda respiradores.

Quem conta a história é uma das das filhas da aposentada, a médica Sandhi Maria Barreto, de 64 anos, além da neta Carolina Barreto Lemos, advogada de 29. Dona Clotildes, cuja audição já está severamente comprometida por causa da idade avançada, não pôde falar com a reportagem. Recebeu a equipe apenas para uma sessão de fotos. A família avaliou que a entrevista, neste momento, exigiria muito da senhora, que apresenta bom quadro de saúde, mas ainda está convalescendo.

Sandhi conta que chegou a pensar que perderia a mãe, que mora no Bairro Havaí, Região Oeste de Belo Horizonte. “Confesso que fiquei com medo, pois ela é do grupo de altíssimo risco. Para completar, junto com as doenças, ela teve que enfrentar um outro baque: meu irmão, a quem ela era muito ligada, morreu de covid-19. Eles moravam juntos. Ou seja, minha mãe enfrentou dois vírus e um luto”, relata a médica.

Romualdo Jorge Barreto morreu com 67 anos, cinco dias após contrair o novo coronavírus. Portador da Síndrome de Down — fator de risco para a virose —ele chegou a ficar 24 horas internado na UTI, mas não resistiu. Segundo Sandhi, é provável que a idosa e o irmão tenham sido infectados por suas cuidadoras.

“No caso da minha avó, chegamos a descartar essa possibilidade pois, primeiro, ela fez os testes de dengue. Foram três e todos deram positivo. Os sintomas iniciais, a princípio, também indicavam que era só isso. Ocorre que as cuidadoras pegaram covid-19 e nos comunicaram, daí tivemos que fazer um novo exame, que acusou o coronavírus. Nessa hora, a gente começou a se preparar para o pior”, lembra a neta Carolina.

Tratamento em casa

Diante do quadro, a família de dona Clotildes optou por tratá-la em casa, evitando ao máximo os hospitais, onde a centenária teria que ficar sozinha, já que os pacientes de covid-19 não podem ser acompanhados. A rotina de cuidados contou com aparato de assistência domiciliar e monitoramento médico constante. A idosa levou cerca de 20 dias para se recuperar. “Ela nos surpreendeu! Esses dias, inclusive disse que não está pronta para morrer, que ainda quer muito viver”, comemora Carolina.

Professora aposentada, Clotildes já voltou a se dedicar à leitura, seu hobbie favorito. “No momento, ela está lendo a biografia de Juscelino Kubitschek. Mamãe é fã dele!”, conta Sandhi. Mãe de 7, avó de 16, e bisavó de 9, mal sabe a centenária do peso de sua própria biografia, bem-resumida pela neta Carolina em um post do Facebook:

“Quando tudo isso passar, os noticiários e médicos contarão a incrível história de uma velhinha de 103 anos que venceu a covid-19 mesmo tendo um quadro concomitante de dengue. Essa é a história da vovó: a vida segue e o sorriso no rosto é testemunho da sua força vital”.

Com informações do Correio Braziliense