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A nobel de literatura Svetlana Aleksiévitch conta como é sua busca por histórias humanas por trás das tragédias

Da redação | 02/07/2016 04:50

PARATY – Aos olhos de Svetlana Aleksiévitch, histórias de guerras, desastres ambientais e outras tragédias se aproximam de mim, de você, de todos nós. É a vida comum que interessa à jornalista e escritora bielorrussa, última vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, notável por obras como “Vozes de Tchernóbil’’ e “A guerra não tem rosto de mulher’’ (ambas pela Companhia das Letras). Aos 68 anos, ela é a grande estrela de hoje da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), numa mesa marcada para as 17h15m. Ontem, em entrevista ao GLOBO, ela explicou como transforma relatos coletados em conversas com vítimas e testemunhas de tragédias numa literatura de descrições extremamente dolorosas.

Como a senhora define sua escrita? Faz tempo que se fala sobre as possibilidades de aproximação entre jornalismo e literatura. Mas, em seu caso, as duas disciplinas parecem coexistir com muita harmonia.

Meu trabalho se aproxima mais da literatura. Quando falo com as pessoas para apurar minhas histórias, eu não faço entrevistas. Eu converso sobre a vida. Não vou atrás de uma única informação, como fazem os jornalistas. Eu falo abertamente sobre tudo, quero saber sobre cotidiano, morte, alegrias, tristezas. Há situações em que volto sete, oito vezes na mesma pessoa, até compreendê-la melhor. Não busco um ponto de vista objetivo como no jornalismo, atuo num campo subjetivo.

Jornalistas não podem fazer isso?

O ponto de vista do jornalista, além de mais objetivo, é um pouco mais simples. Eu procuro o lado subjetivo, e assim tenho um outro olhar sobre a mesma questão. Procuro a complexidade das histórias. Ao falar sobre uma guerra, não pergunto apenas qual o efeito da guerra em si, quero saber como o ser humano reagiu, como a natureza perto dele reagiu, como os animais reagiram. Não estou atrás de uma informação sobre um assunto, quero é englobar o modo de pensar de alguém.

Nessas conversas, a senhora depende muito da memória de seus personagens. Só que o relato da memória contém lacunas, não é uma narrativa ininterrupta. Como preenche as lacunas?

Eu começo a preencher à medida que vou escrevendo. É quando percebo onde preciso me aprofundar mais. Eu jamais uso fatos comuns ou que não sejam daquela pessoa do relato. Prefiro conversar mais uma vez com ela para ir mais a fundo. Volto mais vezes e abordo outros aspectos de sua vida quanto for necessário, até achar o que procuro.

Em “A guerra não tem rosto de mulher’’ (Companhia das Letras), a senhora escreveu: “Aos meus olhos, a história vai ‘se humanizando’, ficando mais parecida com a vida comum’’. Em que momento a História se esqueceu desse tipo de narrativa? Parece existir uma frieza da humanidade em relatar histórias?

Eu trabalho com a História que faltou. Sempre procurei escrever o lado da História que não interessa à História. Busco o que a pessoa sente, como ela estava de saúde, como era o ambiente familiar, o que geralmente não é levado em conta. Procuro a história humana por trás do fato. Para a História, interessa o fato. O fato é, por exemplo, que vencemos uma batalha. Mas eu procuro entender como as pessoas que venceram aquela batalha se sentiram diante dos acontecimentos.

RELATOS DE DOR

Os relatos de seus livros são muito carregados de dor, são histórias tristíssimas. O quanto disso é uma construção literária ou o quanto a senhora realmente se envolve e absorve essa dor das pessoas com quem conversa?

Não sou sádica. Na história do meu país, a pessoa comum sempre sofreu. Nos chamamos de “civilização das lágrimas e do sofrimento’’. Outra expressão é dizer que temos mais sofrimento que petróleo. É normal encontrar histórias baseadas em sangue e sofrimento. São pessoas que ou estavam se preparando para a guerra ou guerreando. Escrevo sobre dores, porque essa é a nossa história. A utopia do regime comunista consumiu vidas e muito sangue.

Em “A guerra não tem rosto de mulher’’, a senhora escolheu narrar histórias de mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial. No Brasil, o machismo é forte, e a luta por um maior protagonismo feminino é muito forte. Como é na Bielorrússia?

A Bielorrússia continua sendo um país patriarcal, e as mulheres ainda lutam para conseguir voz expressiva. Mas estamos distantes de avanços reais. Em muitos campos, como a política, as mulheres não conseguem posição de destaque. Temos uma sociedade essencialmente machista, porque tanto durante a guerra quanto no pós-guerra do militarismo o foco era masculino. Não se permitiu espaço para o feminino. Eu imagino se o governo colocasse uma mulher como ministra da Defesa. Certamente as forças armadas iriam se revoltar.

Alexander Lukashenko é o presidente da Bielorrússia desde 1994, e muitos analistas políticos o consideram um ditador, apesar de haver eleições no país. Ele é um ditador?

Sem dúvida ele é um ditador. É um pouco diferente do Stalin, embora também prenda as pessoas por razões políticas. Certa vez confessou que seu herói é o Hitler. Há vários tipos de ditadura, a dele não é tão autoritária como algumas que vivemos antes, mas é pesada, ele é retrógrado, a mentalidade não muda com ele no poder. Por outro lado, mesmo sendo um ditador, negocia bem com a Europa para conseguir coisas positivas para o país.

INTOLERÂNCIA EM TODO O MUNDO

Teme-se muito hoje, na Europa, que outros governos autoritários cheguem ao poder, aumentando o clima de intolerância. A senhora teve que deixar a Bielorrússia entre 2000 e 2011 por perseguições políticas. Acredita que esse temor tem fundamento?

Os tempos estão mesmo perigosos. Muitos na Europa temem o Putin, mas há uma geração ainda mais jovem que reclama que Putin não é suficientemente firme. Esses pensamentos não acontecem apenas na Rússia, mas em todo o mundo.

Em “Vozes de Tchernóbil’’ (Companhia das Letras), a senhora conta histórias de quem sofreu com a tragédia na usina nuclear. O Brasil acaba de passar por sua própria tragédia ambiental, em Mariana, Minas Gerais. O que fica para as pessoas de eventos como esses?

A diferença de Tchernóbil é que aquela tragédia foi causada pelo desejo do homem em criar uma nova ciência e um novo sentimento. Por querer criar um mundo novo, caminham para a destruição. Se os heróis que contiveram o fogo após a explosão não tivessem sido bem-sucedidos, toda Europa seria tomada pela catástrofe.

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