Brasil – A técnica da equipe de futebol feminino do Rio Branco (AC), Rose Costa, de 50 anos, comunicou nesta quarta-feira (29) seu desligamento do clube por meio de um texto em suas redes sociais. A decisão veio dois dias após o anúncio da contratação do goleiro Bruno Fernandes, condenado pelo assassinato de Eliza Samúdio. E ela pode não ser a única a sair: suas jogadoras sinalizaram que querem acompanhar a treinadora se ela fechar com outro time.

“Foi uma revolta geral. As meninas estão aterrorizadas. Elas estão esperando eu decidir para onde eu vou porque elas querem ir comigo”, afirmou Costa em entrevista a ÉPOCA. “Tinha três anos que o Rio Branco não participava do campeonato feminino, que não prestigiava. Já estávamos treinando a todo vapor, quando fomos pegas de surpresa por essa notícia. É muito contraditório”.

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Informo que à partir desta data ME DESLIGO da função de técnica/treinadora do RIO BRANCO Futebol Clube FEMININO, motivo: a contratação do Goleiro Bruno para compor o elenco da equipe masculina do nosso ESTRELÃO. Quero aqui esclarecer que entendo o momento por qual passa o Rio Branco e a grande maioria dos clubes de futebol acreanos, as dificuldades financeiras como também a oportunidade da contratação do Goleiro Bruno, bem como, ainda, a sua “boa” intenção, no sentido de tornar a equipe competitiva e forte. Deixo minha gratidão pela oportunidade, mas preciso esclarecer também que minha história de vida como mulher e profissional me impendem de permanecer no Rio Branco. Como disse, não questiono e nem tampouco julgo suas decisões, mas preciso respeitar a minha história e minhas crenças de que educamos pelo exemplo, e no esporte de rendimento, atletas são figuras públicas, e socializam e influenciam comportamentos, e meu humilde entendimento é que essa oportunidade dada ao Goleiro Bruno, em nossa amada equipe, legitima a ineficiência das leis em nosso país, socializa ainda mais a impunidade aos feminicidas e por fim, macula a imagem da nossa equipe, pois o crime orquestrado por ele é reconhecidamente hediondo, e isso não deve ser personificado na função de atleta de rendimento do nosso clube que tem uma história linda na construção de grandes atletas que são espelhos para toda a nossa juventude e sociedade. Entendam: NUNCA FOI E NUNCA SERÁ SÓ FUTEBOL!!!

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Em vídeo publicado no Instagram do Rio Branco-AC, na última segunda (27), o presidente Neto Alencar revelou o acordo com Bruno e classificou a negociação como uma das “maiores da história” do clube. A repercussão negativa culminou na suspensão do único patrocínio pela rede de supermercados Arasuper. Depois, coletivos femininos assinaram o um manifesto repudiando a contratação.

A demissão de Rose, segundo ela, está atrelada à justiça moral e a seus valores. Embora seja a favor da ressocialização do goleiro, a treinadora acredita que ela deva ser feita em outra função, e não como atleta profissional, já que o esporte de rendimento serve de exemplo para muitos jovens.

“Eu não quero fazer parte disso. O meu entendimento é de que, sim, ele deveria ter uma oportunidade de se ressocializar, mas em uma outra situação, em que não tivesse essa visibilidade, essa conotação de exemplo. O esporte de rendimento hoje, seja em qualquer categoria, é reflexo para a sociedade, é espetáculo”, disse.

Professora de Educação Física, Rose Costa tem 30 anos de experiência com esporte Foto: Arquivo pessoal

De acordo com a treinadora, a diretoria não conversou com ela sobre o acordo com Bruno, do qual ficou sabendo pela imprensa. A contratação não era unanimidade no clube, mesmo assim o presidente bancou a negociação. Outros diretores tentaram demovê-lo da ideia, mas sem sucesso. Foi o estopim para que Rose levasse adiante sua decisão, mesmo perdendo uma fonte de renda em meio à pandemia no país.

“Acredito muito na justiça moral. Quando você tem um Estado que não cumpre seu papel, tem que fazer valer o seu caráter. Tem que entender que você é coadjuvante dessa busca por igualdade e justiça social, por uma geração futura melhor. Não posso me pautar na omissão ou na ineficiência das leis”, afirmou. “Não é uma questão única e exclusivamente legal. Aos meus olhos, é uma questão ética em relação à minha profissão”.

Depois do anúncio de sua saída, Rose recebeu vários telefonemas e mensagens – a maioria de apoio. Também professora de Educação Física da rede estadual de ensino, Rose está cética quanto a um convite imediato para trabalhar em outro clube. A baixa expectativa se deve ao fato de o futebol ser dominado por homens, que ocupam quase todos os altos cargos. Por isso, ela traça um plano B: estuda inclusive a possibilidade de uma parceria para começar uma nova equipe.

Em suas redes sociais, horas depois de comunicar seu desligamento, a treinadora publicou um texto sobre o espaço da mulher no esporte. Nele, ela pede o combate ao machismo e expõe que ela e outras profissionais só receberam convite de trabalho devido à exigência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de que os clubes tenham equipes femininas em conformidade com as regras de Licenciamento de Clubes, referendada por entidades internacionais.

“Demorei horas para compreender, em que se pese que estamos no século XXI, que para grande maioria da sociedade; sociedade esta composta por 51,6% de mulheres, ser mulher e ser profissional, em qualquer área, aqui especificamente no futebol tem conotação de “menos”. Menos capacidade, menos experiência, menos qualidade, menos liderança. Quando na verdade o que se têm é menos oportunidade, menos remuneração, menos reconhecimento, menos estrutura, menos VALORIZAÇÃO e infelizmente MAIS DISCRIMINAÇÃO”, escreveu.

Rose fechou com o Rio Branco-AC no início do ano passado para comandar o time feminino em sua volta às competições. A última participação do clube na modalidade havia sido em 2016. A treinadora foi a escolhida após boa campanha com a equipe de futsal do Colégio Acreano em torneios estaduais e nacionais. Ela é formada em Educação Física e tem 30 anos de experiência com esporte – inclusive como ex-atleta de futsal -, quase todo esse tempo no futebol amador.

 

Com informações da Revista Época