Manaus – O Pronto-Socorro João Lúcio, o “Gigante da Zona Leste”, parece não ser tão gigante para resolver os problemas identificados pelo Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam), durante fiscalização realizada na tarde desta terça-feira (13). Em julho, a unidade teve apenas 20% de abastecimento, entre medicamentos e insumos. No setor interno de regulação, há pacientes aguardando desde junho para realizar algum tipo de procedimento. Um paciente que estava na lista de espera morreu, e cirurgias estão sendo canceladas por falta de material. Nos corredores, outros pacientes estão sofrendo, enquanto médicos, enfermeiras e técnicos de enfermagem estão sobrecarregados com a superlotação e a falta de estrutura adequada.

Atendendo a pedido dos profissionais que trabalham no sistema de saúde pública do Amazonas, o Sindicato dos Médicos do Estado realizou na tarde desta terça-feira (13), visita de inspeção no Pronto-Socorro João Lúcio, Zona Leste de Manaus. A presidente em exercício da entidade, Dra. Patrícia Sicchar percorreu as instalações da unidade e identificou os corredores lotados com pacientes da capital, interior, região metropolitana, de estados vizinhos e até estrangeiros. O diretor da unidade, Sílvio Romano acompanhou a comitiva formada pela diretora do Simeam, Dra. Taysa Abrahim, Dr. Mario Vianna, presidente licenciado do Simeam e cirurgião geral do ICEA, e ainda, o deputado estadual, Dermilson Chagas.

Dentro do politrauma uma área que deveria ter somente entre 7 a 8 leitos separados por divisórias, é ocupado por 24 pacientes, entre homens e mulheres, juntos, no mesmo espaço. Enquanto alguns poucos leitos contam com colchões deteriorados, sendo impróprios para o uso, e outros pacientes são alojados em macas de ferro. “Identificamos 46 pacientes internados nos corredores para somente três técnicos de enfermagem. São pacientes em estado crítico, acolhidos em situação desumana. Cadeiras estão sendo feitas de leitos, falta insumos, medicamentos, a estrutura é precária, o caos está instalado”, avaliou Dra. Patrícia Sicchar.

Em outro setor a fiscalização flagrou um acompanhante deitado num papelão no chão, em baixo de leito de paciente, diante da falta de poltrona ou um assento adequado. O banheiro, além da estrutura precária, serve de depósito com o sistema de instalação elétrica exposto, colocando em risco os usuários. “Pacientes entubados num local impróprio, correndo risco de contaminação. Apesar de algumas enfermarias estarem sendo reformadas, encontramos péssimas condições de estrutura, muita reclamação de profissionais e pacientes”, relatou a presidente do Simeam, destacando que a lotação do local expõe o paciente no momento de fazer a higiene no leito.

Diante da demanda expressiva de pacientes nefropatas no Amazonas, o João Lúcio conta com um setor exclusivo para atender os pacientes com lesão ou doença do rim. “Mas não há leitos disponíveis para hemodiálise nas clínicas que são conveniadas com o Estado. Isso faz com que o paciente chegue em estado crítico aqui”, informou Sicchar.

Durante a visita, a comitiva foi abordada pela mãe de uma paciente internada desde o início do mês com diagnóstico de cardiopatia. A mãe contou que elas são do Km 46 da estrada de Autazes e aguardam por uma cirurgia cardíaca. “Pra ir e voltar para Autazes eu gasto 100 reais. Mas só vou sair daqui depois que minha filha operar, porque eu não vou aceitar ir pra fila do Sisreg, onde vão mandar a gente ir pra casa e esperar por uma ligação que nunca vai acontecer”, declarou a mãe a acompanhante.

Levando em consideração o fato da paciente ter um prognóstico e ser jovem, o presidente licenciado do Simeam, Dr. Mario Vianna, alertou que o caso é mais uma confirmação das diversas denúncias feitas sobre a discordância de que os prontos-socorros de Manaus funcionam como hospitais. “Isso é uma mentira descarada que a Gestão conta para a sociedade e para os pacientes. Se não tem a realização dos exames necessários e o acompanhamento por especialistas, o que deveria ser feito no atendimento ambulatorial, a unidade não pode ser chamada de hospital”, denunciou Mario Vianna.

A falta de antibióticos importantes dentro das UTI’s, o que impossibilita um tratamento de forma adequada, foi outro ponto que chamou a atenção. O Pronto-Socorro teve apenas 20% de abastecimento, entre medicamentos e Produtos Para a Saúde (PPS), no mês de julho. “Na UTI o paciente inicia com um medicamento, depois o tratamento é interrompido pela falta do remédio, e então, o profissional têm que substituir por outro disponível”, informou a presidente do Simeam.

A diretora do Simeam, Dra. Taysa Abrahim observou que no João Lúcio falta remédio para tratar AVC (Acidente Vascular Cerebral). “Considerando que aqui é o único hospital da rede pública do estado capacitado para atender AVC isquêmico em fase aguda, não tem o remédio para tratar o paciente, ou seja, hoje, não está sendo feito o tratamento. Isso vêm desde o ano passado e até hoje não foi regularizado”, denunciou a diretora do Simeam. “Ou seja, o risco de morte e incapacidade, são gigantes, infelizmente”, completou a Dra. Patrícia Sicchar.

Na unidade de UTI Semi-Intensiva, a inspeção encontrou seis leitos sem os aparelhos necessários para o atendimento aos pacientes. “São seis leitos, deveria ter um médico exclusivo para o local, e não tem. É somente um médico para as intercorrências de 46 macas, para as UTI Semi-Intensiva 1, 2 e 3, e as vezes, para os pacientes cirúrgicos. Humanamente é impossível trabalhar”, alertou a presidente do Sindicato dos Médicos. “A enfermeira que atende na reanimação é a mesma responsável por todas as 46 macas. Ou seja, quando ela estiver atendendo paciente na reanimação, quem vai atender os pacientes das 46 macas? ”, questiona a comitiva.

Outro caso que chamou a atenção foi da paciente Núbia da Silva, que segue internada há três meses esperando uma bala de O2. Dependente de oxigênio, a paciente precisa do aparelho para respirar. Uma outra paciente identificada como Andrea Soraya, de 51 anos, conta que pegou bactéria hospitalar no pé esquerdo. Internada desde maio, ela compartilhou que a cirurgia agendada para esta terça-feira, foi cancelada. Ela precisa operar de uma neoplasia maligna. “Eu estava internada, precisei sair para fazer uma ressonância que não estava fazendo no hospital porque a máquina estava quebrada. Fui no banco fazer empréstimo para conseguir dinheiro para fazer o exame. Quando retornei, fui informada que meu nome foi pro final da fila”, disse.

“Pessoas estão morrendo, são meses de espera por um exame, uma transferência para especialidades, embolização uma vaga por semana, para fazer a angioplastia são três vagas por semana, algo inadmissível para uma demanda de 4 milhões de habitantes”, avaliou a Dra. Patrícia Sicchar, informando que os órgãos competentes serão acionados, dentre eles, o Ministério da Saúde, atendendo a própria orientação do ministro Mandetta.