Uma das capitais mais atingidas pela Covid-19 no país, Manaus (AM) pode ser também a primeira cidade brasileira a vencer o novo coronavírus, segundo estudo da Universidade Federal do Amazonas. Várias iniciativas contribuíram para uma redução, neste mês, de 89% no número de leitos ocupados pela doença em Manaus. Uma delas é engenhosa, de baixo custo e criada pela equipe de fisioterapeutas do grupo amazonense de saúde Samel.

Batizado de Cápsula Vanessa, em homenagem a uma paciente que foi intubada e se recuperou da Covid-19, o dispositivo é uma espécie de cabine construída com canos de PVC e coberta com plástico transparente. Colocada sobre o paciente, a cápsula tem duas funções principais: servir de barreira de proteção para os profissionais de saúde e permitir a chamada Ventilação Não Invasiva (VNI), com o uso de uma máscara convencional de oxigênio.

Em muitos casos, a VNI pode substituir a intubação orotraqueal precoce, protocolo para o tratamento da doença quando o paciente chega ao hospital com falta de ar. Os efeitos colaterais desse tipo de intubação são o alto uso de respiradores e a demora na recuperação do doente, além de possíveis infecções.

Desenvolvida em parceria com o Instituto Transire, no distrito industrial de Manaus, a cápsula começou a ser usada em março nos hospitais da rede Samel e no hospital de campanha da Prefeitura de Manaus, administrado pelo grupo. Em maio, a OMS (Organização Mundial da Saúde) reconheceu a VNI como opção eficaz para o tratamento de Covid-19. “Fomos pioneiros porque sempre entendemos que a intubação orotraqueal não era necessária na maioria dos casos”, afirma Luis Alberto Nicolau, presidente do Grupo Samel.

Embora eficiente e já utilizada em UTIs, a Ventilação Não Invasiva permite que aerossóis, minúsculas gotículas de saliva resultantes de tosses, espirros e até da fala, fiquem no ar, podendo assim contaminar médicos e enfermeiros. E é aí que entra a Cápsula Vanessa.

Sua estrutura conta com um sistema de exaustor e filtros antivirais e antibacterianos que renovam o ar e criam um ambiente de pressão negativa no interior da cabine. Isso faz com que os aerossóis não escapem quando o zíper é aberto para a realização dos procedimentos médicos e alimentação do paciente.

“Nossa equipe de fisioterapia teve a ideia de fazer a cápsula, que era bem simples no início e depois foi ganhando novas versões”, afirma o médico Daniel Fonseca, diretor técnico do Grupo Samel. “Passamos a usá-la no momento que o paciente chega ao hospital e os resultados foram ótimos, com redução média do período de internação de 15 para 5,7 dias e uma taxa de intubação de menos de 5%”, afirma Fonseca. A redução dessas taxas é chave para desocupar leitos e, assim, evitar um colapso do sistema de saúde.

A Cápsula Vanessa está sendo usada em cerca de 40 cidadesdo interior do Amazonas e em estados como Pará, Acre e Roraima, além da Bolívia. Foram produzidas 2.200 unidades, a maioria doada pelo Grupo Samel aos serviços públicos. As especificações estão abertas na internet, para quem quiser produzir, e seu custo é de R$ 450. A cápsula gera uma proteção extra para os profissionais, mas não elimina a necessidade de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual).

“Iniciativas como essa nos ajudaram a dar alta para mais de 1.400 pacientes, sendo 600 só no hospital de campanha”, afirma Luis Alberto Nicolau.

TECNOLOGIA CONTRA O VÍRUS

Além da Cápsula Vanessa, o Grupo Samel investiu em várias iniciativas para enfrentar a pandemia no Amazonas. Em parceria com o Instituto Transire e com a empresa TNH Health, lançou um chatbot gratuito para a triagem virtual de pacientes com suspeita do novo coronavírus.

O sistema orienta se é o momento de procurar uma unidade de saúde baseado nos sintomas descritos. Se há suspeita de infecção, a pessoa recebe uma chamada em vídeo do serviço de telemedicina com orientações.

Com a telemedicina, a rede Samel realizou cerca de 180 atendimentos por dia de diversas especialidades, com requisição de exames e o envio de receitas por e-mail. O serviço permitiu dar assistência aos clientes durante o período de isolamento social.

Formado por três hospitais e um quarto em construção, centros médicos e operadora de planos de saúde, o Grupo Samel tem mais de 90 mil clientes em Manaus. Durante a pandemia de Covid-19, fez a gestão do Hospital Municipal de Campanha Gilberto Novaes, em parceria com a Prefeitura de Manaus, e criou um Pronto Socorro de Doenças Respiratórias, no Hospital Matriz, ambos já desativados em função da redução de casos da doença na cidade. A rede arrendou ainda um antigo hospital, elevando em 90% o número de leitos de internação para pacientes com Covid-19.

“Não foi fácil passar por tudo isso. Chegamos a receber 50 pacientes em um único dia e trabalhamos muito”, afirma Nicolau. “Mas vimos também uma paciente de 105 anos, a mais idosa do país a contrair a doença, se curar. Isso é incrível.”

Fonte: Folha de São Paulo 

Tags: , ,