Reforço só agora

RIO — O plano de recuperação do trecho da Ciclovia Tim Maia que desabou no dia 21 de abril, na Avenida Niemeyer, provocando a morte de duas pessoas, prevê reforço da estrutura e amarração dos pilares ao tabuleiro (pista) e às rochas nas imediações da Gruta da Imprensa. De acordo com o projeto, a que O GLOBO teve acesso, agora o estudo levará em conta também a ação da chamada onda centenária, ou seja, o maior registro dos últimos cem anos, como deveria ter ocorrido no projeto original. Detalhes da reconstrução deverão ser anunciados hoje pela prefeitura.

Para resistir à ação das ondas, a pista sobre a Gruta da Imprensa — trecho onde houve o desabamento — deverá ser apoiada em três novos pilares, bem mais robustos em comparação aos que existiam (que serão demolidos). Eles também serão cravados na rocha, o que dará mais resistência à estrutura.

O cronograma prevê que as obras terminem em agosto, mas não há certeza se haverá tempo de concluir as intervenções antes da Olimpíada do Rio, que acontecerá de 5 a 21 de agosto, porque o ritmo das obras também dependerá das condições do mar. Por questões de segurança, parte dos trabalhos não poderá ser feita em dias de ressaca.

Segundo o dossiê para a reconstrução da via, o consórcio Contemat-Concrejato será responsável por refazer o trecho acidentado, bem como pelo desenvolvimento dos projetos de recuperação. O consórcio é o mesmo que foi contratado pela prefeitura para a execução das obras. As técnicas de reconstrução a serem empregadas seguirão recomendações feitas pela Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe/UFRJ) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias (INPH), contratados pela prefeitura, depois do acidente, para uma perícia independente.

FISCALIZAÇÃO EXTERNA

Mas qualquer intervenção só será executada com a aprovação do município, num processo que envolverá ainda um terceiro personagem. A prefeitura decidiu contratar uma outra empresa para executar perícias nos projetos desenvolvidos pelo consórcio, para atestar se as soluções técnicas desenvolvidas são de fato as melhores. Essa consultoria especializada executará o que é conhecido no jargão das empreiteiras como CQP (Controle de Qualidade de Projeto).

Em maio, o INPH já havia antecipado alguns detalhes sobre a necessidade de implantar uma estrutura mais resistente no trecho onde houve o acidente. Segundo estimativas da entidade, a ciclovia no trecho que desabou era capaz de suportar um impacto de apenas 0,55 tonelada por metro quadrado. A pressão exercida pela onda que atingiu a ciclovia chegou a 3 toneladas por metro quadrado — quase seis vezes aquela que poderia suportar. Na época, o INPH estimou que a nova pista teria que aguentar uma pressão de pelo menos 6,6 toneladas por metro quadrado. A entidade também avaliou que, com as mudanças, a ciclovia seria segura. Mas recomendou à prefeitura que não permitisse a passagem de ciclistas em dias de ressaca mais forte. Quando a pista for reaberta,a prefeitura adotará um sistema de alerta para interditar a área em caso de ressacas violentas.

A Coppe e o INPH também são responsáveis por revisar o projeto da ciclovia que integra o projeto do novo Joá, entre a Barra e São Conrado. O município aproveitou a construção de duas novas pistas no elevado para também criar uma ligação entre as ciclovias da Zona Oeste e da Zona Sul da cidade. Nesse caso, os estudos — que começaram após o desabamento — ainda não terminaram. Por isso, ainda não há prazo para a ciclovia ser aberta ao público, apesar de as pistas terem sido liberadas ao tráfego no dia 28 de maio.

Os documentos obtidos pelo GLOBO não deixam claro se a estatal Geo-Rio vai continuar a fiscalizar a execução dos serviços no complexo cicloviário após a tragédia. Outra informação que não consta dos relatórios é se haverá necessidade de reforço estrutural em outros trechos da ciclovia. Procurado, o município informou que todos os detalhes sobre a recuperação serão explicados hoje à tarde numa apresentação que será feita pelo prefeito Eduardo Paes e por especialistas da Coppe e do INPH no Centro de Operações.

CICLOVIA CONTINUA INTERDITADA

Enquanto as obras de recuperação não começam, o trecho da ciclovia que contorna o costão do Vidigal permanece interditado aos ciclistas com faixas da Defesa Civil e cavaletes. Apenas um pequeno trecho entre o Leblon e o Vidigal (que já servia para circulação de ciclistas antes do acidente) se encontra aberto aos usuários. Equipes da Guarda Municipal fazem plantões em pontos estratégicos do trecho interditado para impedir que o bloqueio seja desrespeitado. Dias após o acidente, a Justiça chegou a determinar a interdição total da ciclovia, mas, posteriormente, reconsiderou a decisão, permitindo um bloqueio apenas parcial. Há duas semanas, operários do Consórcio Contemat-Concrejato retornaram aos canteiros para retirar estruturas que ficaram danificadas no fim de maio e remover outros materiais. No início da tarde da última sexta-feira, por exemplo, havia pelo menos 30 operários no local. Parte das equipes trabalhava próximo à Gruta da Imprensa.

Acidente provocou a morte de duas pessoas

O acidente na Ciclovia Tim Maia ocorreu no dia 21 de abril, feriado de Tiradentes. Um trecho de quase 20 metros da pista acima da Gruta da Imprensa, no Costão do Vidigal, desabou durante uma ressaca. O engenheiro Eduardo Marinho Albuquerque, de 54 anos, e o gari Ronaldo Severino da Silva, de 60, que caminhavam pelo local, foram arrastados pelas ondas e morreram. O acidente colocou em xeque a qualidade do projeto. Uma sequência de erros contribuiu para a tragédia. O projeto só levou em conta o impacto das ondas nos pilares de sustentação e não no tabuleiro, com força de baixo para cima, como O GLOBO revelou. Em maio, peritos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) divulgaram laudo confirmando a informação divulgada pelo jornal e concluíram que o trecho caiu porque a pista não era fixada aos pilares, ficando apenas apoiada sobre eles. No dia do acidente, uma onda bateu na encosta da Gruta da Imprensa, ganhou força e subiu, levantando e derrubando a pista.

Segundo o laudo, o trecho onde ocorreu o acidente foi atingido por ondas de até quatro metros, com velocidade de até 65 Km/h. O laudo também divulgou informações sobre a quantidade e a qualidade dos materiais empregados no projeto. Cita, por exemplo, que faltavam parafusos sob o tabuleiro.

— Houve um erro primário. Analisamos as memórias de cálculo e só encontramos o estudo das marés em relação aos pilares — declarou o diretor do ICCE, Sérgio William Silva, ao divulgar o laudo.

As causas da tragédia também foram alvo de investigação do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ). A entidade também concluiu que houve falha na elaboração do projeto, devido à ausência de estudos sobre o impacto das ondas no local. Para o Crea, outro problema foi o fato de a Geo-Rio não ter experiência para licitar e fiscalizar a obra. A entidade também decidiu instaurar sindicância para investigar as responsabilidades de pelo menos dez profissionais — os nomes são mantidos em sigilo. Eles podem ser punidos com penas que variam da simples advertência sigilosa à perda do registro.

A obra da ciclovia custou R$ 44,7 milhões e teve financiamento do BNDES.

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