Projeto ‘Paginário’ leva trechos de livros para as ruas e contagia pedestres

RIO — “Eu sou livro (ou um livre pensador) para ser devorado num fim de semana”. O trecho da poesia de Armando Freitas Filho está grifado, numa página colada a uma parede do Centro. Em volta, há pedaços de clássicos como “Madame Bovary” e “O alienista”. E fragmentos de autores como José Saramago, Irvine Welsh, Guimarães Rosa, Eduardo Galeano. Uma ao lado da outra, as folhas de papel formam um mural na subida da Ladeira do Castro, que liga a Rua Riachuelo ao Largo dos Guimarães, em Santa Teresa.

O título da coleção é Paginário – um painel literário que, desde o mês passado, tem detido os passantes para fazer, por instantes, o que diz a poesia: devorar o livro aberto na esquina. Não é o primeiro mural do tipo no Rio. Mas é o mais novo, numa ladeira que, desde 2015, artistas transformam em galeria a céu aberto.

O Paginário nasceu em 2013, inspirado na Escadaria Selarón, na Lapa: em vez de azulejos, páginas de livros. Seus criadores dizem que a proposta é levar a literatura para a rua e gerar uma experiência de leitura não tradicional, “onde se inserem a geografia, o trajeto diário e a vida comum”. O escritor Leonardo Villa-Forte, um dos idealizadores, diz que quer colar literatura na vida das pessoas:

– É um trabalho de leitura e, ao mesmo tempo, de visualidade. À medida que a pessoa se aproxima, descobre que pode ler.

Colaboradores mandam para o coletivo que produz os murais cópias de páginas de seus livros favoritos. Os painéis também surgem de encontros e oficinas. Depois, é carregar baldes de cola para cobrir algum lugar com literatura.

O painel inaugural nasceu em outro ponto do Centro, na Rua Carlos Sampaio, perto da Praça da Cruz Vermelha. Depois, foi para Laranjeiras, na Rua General Glicério; Copacabana, na Rua Figueiredo Magalhães; e para a Maré. Chegou ainda a cidades do interior, como Petrópolis e Sapucaia, e a capitais, como Brasília e Salvador. Há professores usando o Paginário nas escolas.

Moradora do Centro, a funcionária do Ministério da Cultura Vera Castro se deteve em frente a “Da Morte, odes mínimas”, de Hilda Hilst, na Ladeira do Castro. “Ao invés de Morte/ Te chamo Poesia/ Fogo, Fonte, Palavra viva/ Sorte”, dizia a estrofe.

– Dá vontade de ficar aqui lendo – suspirou Vera.

A leitura é contagiante.

– O que acho sensacional é ver moradores de rua parando para ler. Muitos escrevem seus próprios textos – afirma Rodrigo Lopes, também integrante do coletivo.

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