Incerteza no fim do túnel: os artífices da Linha 4

RIO — Antônio Lustosa, de 46 anos

Cansado de lidar com a enxada na lavoura e amargurado com a falta de perspectivas, Antônio Lustosa decidiu partir para o Sudeste, em 1988. Após três dias a bordo de um caminhão, o jovem de 18 anos viu sua pequena Batalha, no Piauí, ficar para trás. Sozinho, apenas com a mala e a coragem, começou a procurar emprego em São Paulo. Só com o curso primário, conseguiu uma chance num canteiro de obras. No princípio, como ajudante de pedreiro, mas logo achou seu lugar como operador de guindaste. Destacou-se na função, o que lhe rendeu convites para rodar o Brasil de um extremo a outro. Em 2012, chegou ao Rio para trabalhar na expansão do metrô. Faltando três meses para o fim da obra, a empolgação de uma vida dedicada às construções diminuiu. Pela primeira vez em 46 anos, ele não sabe para onde vai quando a obra acabar:

— Minha preocupação é que nunca vi um futuro tão sombrio quanto agora. A obra sempre foi tudo na minha vida. Dela tirei o sustento da minha família e o dinheiro para pagar a faculdade de engenharia do meu filho. Estou de mão atadas.

Wallace Mesquita, de 32 anos

Sentado nas escadas que dão acesso à futura estação Antero de Quental, no Leblon, o carpinteiro Wallace Mesquita conta que está preparando as malas para ir para Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, dias antes das Olimpíadas. Faixa preta de jiu-jítsu, ele tem amigos professores da modalidade no Oriente Médio:

— Não vou ficar aqui esperando aparecer vaga. Preciso pensar na minha família. Se eu ficar no Brasil, vou trabalhar em que obra? Não há nada, o país está parado — diz ele, morador da Rocinha, casado e pai de dois meninos. — Vou para Abu Dhabi mudar minha vida dando aula de jiu-jítsu. Vou ganhar em dólar, fazer algo de que gosto. Só volto para obra se tudo der errado.

Jéssica Oliveira, de 24 anos

Se a crise coloca o futuro em xeque, a cabeça dos operários se tornou um terreno fértil de ideias para sobreviver longe de máquinas e ferramentas. Como sonhar é de graça, fantasia-se com tudo. Jéssica Oliveira é daquelas que se veem com aptidão para muitas atividades profissionais. Levada por uma amiga para o programa Jovem Aprendiz, do Senac, a moradora do Complexo do Alemão aprendeu a montar circuitos elétricos e participou dos trabalhos de modernização do Maracanã. De lá, foi para a obra da Estação Nossa Senhora da Paz do metrô. O que fazer após a conclusão da Linha 4?

— Quero virar empresária para poder ajudar os jovens que têm vontade de estudar. Mas meu sonho é ser atriz. Enquanto isso, preciso ficar empregada. Tenho que sobreviver à crise — diz.

Antônio Pereira, de 56 anos

Se entre os soldadores Antônio Pereira é considerado um dos melhores, como “contador de causos” o piauiense é soberano. Seu currículo, além de obras nas cinco regiões do país, inclui a honra de ter sido escolhido para dar o primeiro chute no jogo inaugural do novo Maracanã, em 2014 — “Saí do município de Capitão de Campos para brilhar pelo mundo”, conta. Para fazê-lo parar de sorrir, basta perguntar sobre o seu futuro:

— As coisas precisam melhorar. Escuto muito falar de vagas que vão ser abertas, mas pode ser que isso não aconteça. Quero continuar soldando e ensinando o ofício aos mais novos. Não quero ficar parado.

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