Crônica urbana: Largo do Machado ouseria do Boticário?

RIO — Quem mora, trabalha ou passa pelo Largo do Machado com frequência notou: a Bendita Fruta, iogurteria que ficava na esquina, perto da entrada da Galeria São Luiz, fechou no início do ano. Os tapumes deixaram os passantes intrigados. O que abriria no lugar? Uma farmácia, filial da Rio Farma, descobririam há duas semanas. Mas outra?

É. A nona. No próprio Largo do Machado e arredores já tem Drogasil, drogaria Extra, duas lojas da Pacheco e uma City Farma. Na Rua do Catete, há uma Venâncio, mais uma Pacheco e outra Rio Farma. Uma fartura de fazer inveja ao Largo do Boticário, que fica no Cosme Velho – cujo nome faz referência a Joaquim da Silva Souto, dono de uma botica, as antigas farmácias, no século XIX.

– O bairro é de hipocondríacos – diverte-se o advogado Rodrigo Duarte, que mora com a família na região.

Brincadeiras à parte, o fenômeno não tem unanimidade.

– Achei um absurdo. Não poderiam ter aberto uma livraria no lugar da iogurteria? Alguma coisa relacionada à cultura? – questiona a terapeuta, Dulce dos Santos.

Mas muitos fizeram festa – e fila – na chegada do novo inquilino, que liquidou pacotes de fralda, papel higiênico e leite na inauguração.

– Tinha fila para entrar e para sair daqui – conta Ana Paula Araújo, gerente do estabelecimento.

Gerente da Venâncio, Edileuza Cruz diz que algumas pessoas só querem passear:

– Muitos clientes vêm aqui para passear. Alguns conhecemos pelo nome.

O aposentado Ronaldo Schermen vai mesmo por necessidade. Diabético, ele gasta R$ 700 por mês em remédios.

– Infelizmente, a esta altura do campeonato, virei sócio de farmácia, minha filha – brinca, Ronaldo, de 68 anos.

Segundo o Censo de 2010, a população de idosos do Largo do Machado, Catete e adjacências é superior à de jovens: 16,5% do total têm mais de 65 anos. Em 2012, a prefeitura criou regras para o comércio de rua em Ipanema, a exemplo das que existiam no Leblon (que abrigam áreas de proteção do ambiente cultural). A abertura de novos bancos e farmácias tem que passar pelo crivo do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade. O que dificilmente ocorrerá no Largo do Machado:

– Ipanema e Leblon são bairros essencialmente residenciais, e o Largo do Machado é uma área de uso misto. Mas, de fato, precisaríamos analisar a saturação de alguns usos. Vou consultar a Secretaria de Urbanismo – diz Washington Fajardo, presidente do instituto.

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