Comando da Polícia diz que Alessandro Thiers foi afastado em “razão do intenso desgaste”

RIO – A Polícia Civil confirmou nesta quarta-feira que o delegado Alessandro Thiers foi afastado do comando da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) “em razão do intenso desgaste a que foi submetido durante a condução do inquérito policial sobre a investigação do estupro coletivo sofrido por uma jovem de 16 anos”. Quem assumirá será a delegada Daniela Terra, que era titular da 33ª DP (Realengo).

Alessandro Thiers foi o primeiro delegado a assumir o caso de estupro coletivo sofrido por uma adolescente de 16 anos, no Morro do Barão, na Zona Oeste do Rio, no dia 22 de maio. O desgaste do delegado no comando das investigação começou com a demora de a Polícia requerer a prisão dos acusados. No ponto considerado determinante pelo seu afastamento do caso, foi o depoimento da jovem na qual acusava o delegado de tentar criminalizar sua conduta e incriminá-la. Depois disso, o Ministério Público Estadual pediu a abertura de inquérito para investigar Alessandro Thiers.

Na nota divulgada nesta quarta-feira, a Polícia Civil afirma ainda que embora o delegado “tenha demonstrado durante sua administração elevada competência, confirmada pela deflagração de diversas operações policiais e investigações de qualidade”, a Chefia de Polícia “entende necessária a preservação da gestão da delegacia especializada diante do volume e da complexidade das demandas diariamente recebidas”.

Segundo o promotor Bruno Lavorato, que teve acesso ao depoimento da vítima, há indícios de que Thiers praticou o crime de submeter criança ou adolescente sob a sua autoridade a vexame ou constrangimento. O pedido do MP foi feito no plantão judicial do fim de semana, antes do afastamento de Thiers das investigações, e ainda será analisado pela Justiça. Se for comprovado o crime, o delegado pode ser condenado a uma pena de até dois anos de prisão. O caso será apreciado pelo promotor Márcio Nobre.

Em entrevistas, a jovem contou que se sentiu desrespeitada quando o delegado perguntou se ela “gostava de fazer sexo com vários homens”. Ela disse ainda que ficou constrangida ao relatar os detalhes do estupro na presença de outros três homens numa sala envidraçada, de onde se via quem passava do lado de fora, inclusive, um dos acusados do crime.

A adolescente disse a autoridades que a noiva de Thiers também estava na sala no dia em que foi prestar depoimento na sede da DRCI. Segundo a jovem, a mulher fazia carinho no delegado durante o registro da ocorrência. A Polícia Civil informou que só vai se pronunciar quando for notificada sobre esse fato.

Assim que assumiu o caso, Thiers disse que ainda não tinha indícios suficientes para provar o estupro. Diante de sua postura, a defesa da vítima pediu o afastamento do delegado. Ao assumir a investigação, a delegada Cristiana Bento provocou uma reviravolta no caso. Ela foi taxativa ao afirmar que houve estupro coletivo e pediu imediatamente a prisão de seis suspeitos. A delegada busca, agora, provar quantas pessoas estão envolvidas no crime e qual foi a participação de cada uma delas. Na opinião de Cristiana, o vídeo e o depoimento da vítima comprovam o abuso sexual.

Antes da mudança de comando, as investigações apontavam apenas indícios de que a adolescente tinha sido violentada. Nenhum suspeito de participação no estupro também havia sido preso, mesmo após um deles confessar que divulgara o vídeo em que a jovem aparece desacordada e nua.

O chefe da Polícia Civil, Fernando Veloso, informou que Alessandro Thiers foi afastado do caso porque seu nível de estresse estava prejudicando o andamento da investigação. Ele negou, no entanto, que a apuração tenha mudado de direção com a troca de delegacias.

PM BUSCA FORAGIDOS

Também foi divulgada uma conversa no WhatsApp de Thiers em que ele desqualifica o depoimento da jovem de 16 anos. Segundo ele, a vítima teria tido uma relação sexual consentida com apenas uma pessoa e que o “único crime seria a divulgação do vídeo”. Veloso disse, porém, que o delegado negou ter escrito essas mensagens.

A delegada determinou que as buscas pelos quatro foragidos continuem. Policiais militares do 9º BPM (Rocha Miranda), com o apoio do 2º Comando de Policiamento de Área, fizeram novas buscas. Ontem, pelo quarto dia consecutivo, a PM fez uma incursão no Morro da Barão, na Praça Seca, onde ocorreu o estupro.

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