Ataques homofóbicos contra aluno da UFRJ começaram aos 12 anos de idade

RIO — Ainda está em fase inicial a investigação da Divisão de Homicídios a respeito do assassinato de Diego Vieira Machado, de 29 anos, morto no campus da UFRJ. Já foram ouvidas seis testemunhas e a polícia afirma ter quatro suspeitos. Por enquanto, a hipótese principal do delegado Fábio Cardoso é que a motição do crime foi homofóbica. Se isso se confirmar, terá sido o último capítulo de uma vida marcada pela intolerância desde a infância.

Aos 12 anos, quando ainda morava no bairro Terra Firme, uma das regiões mais pobres e violentas de Belém, Diego chegou em casa decidido: queria sair da escola. Pediu à avó, falecida há dois anos, e à tia, Edna Vieira Machado, que o trocassem de colégio. Não aguentava mais as piadas, provocações e agressões de um grupo que o atormentava dentro e fora de sala.

— Ele gostava de cabelos compridos, podia parecer feminino para os outros. Alguns garotos não o deixavam em paz — afirma Edna, de 44 anos.

Mudança de colégio

Avó e tia foram à direção da escola e relataram o problema. Melhorou, mas não o suficiente, e Diego teve que ser transferido no fim daquele ano para o Colégio Estadual Mário Barbosa.

— Ele era apenas um menino na época, mas essas coisas já aconteciam. Tinha poucos amigos, talvez por isso — diz a tia.

Naqueles tempos, Diego não reagia quando era atacado. Ficava com raiva, mas se recolhia. Quem tomava as dores era o irmão, Maycon Machado, um ano mais novo. Como na vez em que, aos 14 anos, cortaram os cabelos compridos de Diego à força. Ele pensava que, no Rio, as coisas seriam diferentes.

— Ele sofria por isso. Tinha um cabelo extravagante, os garotos puxavam sempre. Até o dia em que cortaram — recorda.

Avó pediu empréstimo para pagar viagem

Com o tempo, Diego mudou de atitude em relação às agressões sofridas. Parou de aceitar provocações. Segundo parentes, embora não conversasse sobre sua opção sexual, chegou a apresentar um namorado à família. Quando mudou-se para o Rio, em 2011, sua avó pediu um empréstimo ao banco para pagar viagem e despesas dos primeiros meses. Mas se preocupava com o neto que criou como filho.

— Ela andava triste pelos cantos, sentia muito a falta do Diego. Amava ele de paixão. Acabou tendo três AVCs e faleceu — lembra a tia.

Diego é descrito por amigos como um artista, um cara amoroso que presenteava os mais queridos com cadernos feitos por ele mesmo, quando não com uma nova poesia. Irreverente e provocador — para alguns, “mitológico”. Também lembram dele como uma pessoa de personalidade difícil, magoada com a falta da mãe e do pai — dona Nazareth não teve condições de criá-lo, já o pai nunca o reconheceu, embora Diego o tenha procurado na adolescência. Em seus escritos, dizia-se órfão.

Entre Rio e Florianópolis, ele preferiu o Rio

Fazia graça em sua página pessoa no Facebook. O último dia em que postou alguma coisa foi em 27 de junho, cinco dias antes de ser assassinado.

— Se os opostos se atraem, onde está a pessoa bonita, rica, legal, inteligente, simpática, bem educada e atraída por mim? — indagou.

Quando passou no Enem, em 2011, poderia ter se mudado para Florianópolis, onde havia vaga no curso de letras da Universidade Federal de Santa Catarina. Para sua família, é inevitável pensar que, se tivesse escolhido a outra cidade, tudo seria diferente.

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