Associação de cirurgiões publica nota sobre invasão do Souza Aguiar

RIO — O ataque de bandidos ao Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, em que um paciente morreu baleado e um enfermeiro foi gravemente ferido, levou a Associação de Cirurgia Pediátrica do Rio de Janeiro (Aciperj), a publicar uma nota. No texto, a entidade expõe os mesdos e os riscos a que os profissionais de saúde que trabalham em hospitais públicos do Rio de Janeiro ficam constantemente expostos. Em tom de desabafo, a nota, postada no site oficial da Aciperj, ressalta que a falta de segurança atinge outras unidades de saúde de todos os cantos do estado, como o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, na Zona Norte, o Hospital Estadual Azevedo Lima, no Fonseca, em Niterói, e o Hospital Estadual Rocha Faria, em Campo Grande.

Os médicos lembraram, ainda, que estão na mira da violência não apenas dentro dos hospitais, mas a caminho do trabalho ou na volta de um plantão. O texto recorda os casos de profissionais de saúde baleados nas vias expressas da cidade. E faz referências à crise financeira do estado, que deixa a polícia “mal equipada”, colegas de enfermagens “mal pagos”, e “pessoal da limpeza não pago”.

E afirmam que o clima de medo atinge também os familiares dos médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e outros profissionais que trabalham em hospitais.

Leia a íntegra da nota:

“NOTA OFICIAL: Hospital Municipal Souza Aguiar.

Nós, da CIPERJ, somos Souza Aguiar. Com certeza somos. Mas também somos Getúlio Vargas, Antônio Pedro, Azevedo Lima, Albert Schweitzer, Rocha Faria. Todos tem bandidos internados. E todos não têm segurança, nem meios de proteção. Também somos o colega morto a tiros na Avenida Brasil quando voltava no plantão. Também somos a enorme equipe do Hospital dos Servidores do Estado, ouvindo o tiroteio que ocorreu nas imediações na última sexta à tarde, em pleno Porto Maravilha. Nós, telefonando uns para os outros para saber se todos estavam bem, apesar de tudo.

Somos nós, nós também, que temos maridos, mães, pais, filhos usando o WhatsApp para saber de nós quando o caos acontece. Quando a gente demora. Quando o jornal da TV relata o impensável. Quando todo mundo vê que talvez fosse menos perigoso trabalhar no MSF do que no Rio de Janeiro.

Somos nós que dividimos as madrugadas insones com a polícia mal equipada, os colegas da enfermagem mal pagos e extenuados, o pessoal da limpeza não pago. Todos cansados, terrivelmente cansados. Todos tristes, terrivelmente tristes. Somos nós que nos tornamos íntimos sem sermos amigos, porque, afinal, quem pode não ser íntimo sem ter nada, exceto riscos e desafios desproporcionais?

Sim, somos nós que temos medo. E continuamos mesmo assim. Sem saber até quando, sem saber a que preço.

Somos nós que estamos nas histórias dignas de Tarantino nos plantões da cidade partida. Somos nós.

Ameaçados pelos pacientes, sejam bandidos que usam a violência como instrumento, desesperançados que não creem em mais nada ou desesperados que temem perder o que não pode ser substituído. Nós. Assediados por gente que manda mas não assume nem reconhece. Nós, os médicos.

Nós, presos em barricadas feitas com camas velhas na madrugada do Souza Aguiar. Nós, que logo depois trincamos os dentes para operar nosso colega enfermeiro, azarado, dono de uma bala mais do que achada. Nós, que só podemos ter medo depois. Chorar depois. Tranquilizar o pessoal de casa depois.

Nós, na cidade olímpica, na cidade partida, na cidade em desordem, na cidade que não respeita os seus. Cidade Maravilha, território da beleza e do caos.

Até quando?”

DIRETORIA CIPERJ

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