Suicídio entre policiais federais é seis vezes maior do que a média brasileira

“Cheguei a sacar a arma e apontar para a minha cabeça. O fundo do poço foi quando me peguei pesquisando na internet formas de se matar sem sentir dor. Caiu a ficha e então fui procurar uma ajuda, uma terapia”. Foi essa a revelação feita pelo agente da Policia Federal Alexandre Santana Sally, presidente do Sindicato dos Servidores da Polícia Federal de São Paulo, durante a abertura do Encontro sobre Prevenção ao Suicídio, organizado pelo sindicato e pela Superintendência da Polícia Federal de São Paulo.

Além da experiência pessoal do dirigente sindical, o encontro foi motivado pelo aumento no número de suicídios na categoria. O índice é seis vezes maior do que a do restante do País. Com um salário inicial de R$ 7.500 e um concurso de acesso dificílimo, com provas e testes físicos, a carreira de agente da polícia federal, considerada a elite das forças policiais do País, também possui um lado sombrio.

Entre 1999 e 2015, foram registrados 42 casos de suicídios. Nos últimos cinco anos do levantamento, foram 20 casos, o dobro do período de cinco anos anterior. O último ano em que não ocorreu nenhum suicídio de policial federal foi em 2004.

“São números que estão subestimados. Os casos de suicídios podem ser ainda maior. Por exemplo, há casos em que o agente ‘busca a bala’ durante uma operação. Na estatística, aparece como morte em ação, mas existiu ali o impulso suicida. Alguns agentes já comentaram sobre isso e não se sabe de fato quantos casos foram”, disse o psiquiatra Roberto Tonanni de Campos Mello, da superintendência da Polícia Federal de São Paulo.

Segundo o médico, há sinais, que podem ser observados pelos colegas de trabalho, que indicam uma potencial situação de suicídio. “Fundamentalmente, é alguma mudança de comportamento. O convívio muda e sai do padrão. Alguém que, repentinamente, ficou mais quieto, começou a faltar no serviço. Era mais expansivo e ficou mais calado. Algumas situações são sutis. Mas aí entra a questão da constância. Deixa de ser apenas um dia ruim e passa a ser um comportamento rotineiro”, disse.

Para o presidente do sindicato, os casos de suicídio entre policiais federais têm, em parte, relação com a atividade profissional. “A Polícia Federal é o serviço público onde mais ocorrem suicídios. Se comparar como se fosse um país, a PF seria o sétimo no ranking mundial, enquanto o Brasil é o 111º. É uma atividade muito estressante e cheia de pressão. O agente sofre muito assédio moral e isso gera muita desmotivação. Não houve uma restruturação da carreira. Desde que a Polícia Federal passou a exigir nível superior, a nossas atribuições continuam sendo complexas, porém, não houve uma adequação. A perseguição da chefia também é um fator que abala emocionalmente os agentes”, disse Sally.

Para comprovar o ponto de vista, Sally lembra que as ocorrências de suicídios aumentaram a partir de 2011. “Foi quando começou a reinvindicação pela reestruturação da carreira. E em 2012, foi quando aconteceu a greve de quase 70 dias. Por conta da greve houve muita perseguição das chefias em cima das pessoas que participaram do movimento grevista”, afirmou Sally.

Evitável

 

No mundo, ocorrem cerca de um milhão de suicídios por ano, maior do que o número de mortes em guerras. “Mais de 90% deles seriam evitáveis. É um problema de saúde pública que pode ser evitado com os devidos cuidados relativos aquela emergência. Se tem alguém do lado percebendo as mudanças de comportamento e começa a conversar, aquele processo que é o suicídio pode ser evitado”, Robert  Gullert, presidente do CVV (Centro de Valorização da Vida).

A conversa, segundo Guellert, é fundamental no processo para se evitar um suicídio. “Nunca é um ato isolado, é um processo que vai corroendo, corroendo até chegar numa falta de alternativa. A saúde mental e a saúde emocional tem a ver com escolhas. Saber que tem saída. Por outro lado, a pessoa muito desesperada não enxerga a saída sozinha. Falar sobre o assunto é uma maneira de tirar o estigma”, disse.

Há dois anos, o CVV trouxe para o Brasil o “Setembro Amarelo”, mês escolhido para os debates e orientações sobre o combate ao suicídio. “É uma questão fundamental de saúde, 17% da população mundial vai pensar em se matar alguma vez na vida. É um quinto da população. Não é uma anormalidade. Na vida, às vezes, a gente pensa em desistir, mas se você não tem com quem falar, não tem ninguém do lado, não procura ajuda, acaba se matando mesmo. O caminho então é falar, é procurar ajuda para evitar a tragédia”, disse.

Meios à mão

Outra hipótese que pode explicar o alto índice de suicídios entre os policiais e o acesso à armas de fogo. “Assim como a classe médica que também tem acesso aos remédios que podem levar à morte, os policiais, de um modo geral, estão próximos às armas de fogo”, disse.

Desde 2014, está em vigor uma norma na Polícia Federal que recolhe a arma do agente em casos de afastamento do trabalho por conta de alguma doença da categoria F, do CID (Código Internacional de Doenças), que inclui as patologias por doenças mentais. 

“No passado, foram apresentados outros projetos de prevenção ao suicídio, mas que não saíram do papel. O atual superintendente da PF está muito disposto em implantar o programa biopsicosocial dentro da PF, criado em 2009. Vamos colaborar para implantá-lo este ano”, disse Sally.

Nesta sexta-feira, 24, a partir das 9h, acontece a segunda rodada do encontro de prevenção ao suicídio no auditório da sede da Policia Federal, no bairro da Lapa, na zona Oeste da capital, com palestras do Robert  Gullert, presidente do CVV; da psicóloga Ruth Lasas Long, da Polícia Federal e do psiquiatra Marco Franco Ribeiro, da Polícia Federal. O evento é gratuito. 

 
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