IML sem material e superlotado, seis famílias aguardam liberação para velar corpos de entes queridos em Manaus.

17d7dd95-8a34-44f6-afea-74c261ea5c61

Há sete meses, seis famílias amargam a espera pela liberação dos restos mortais de seus entes queridos. Os corpos estão sendo impedidos de ser liberados porque falta material para a realização do exame de DNA na ossada das vítimas. Enquanto isso, o refrigerador do Instituto Médico Legal (IML) segue superlotado por conta da demora. O velório e o enterro, que podem ser considerados como um rito de passagem para os familiares dessas vítimas, estão sendo impedidos de acontecer e, segundo o prazo da Secretaria de Segurança Pública (SSP), essa demora deve continuar por, ao menos, 30 dias.

Para a família da menina Rayane Lopes, de apenas 3 anos, que morreu após ser jogada da escada em abril deste ano pela madrasta Ericka Benevides Lopes, 19, a espera é angustiante, porque além da dor de perder uma criança dessa forma brutal, não é possível dar a ela um enterro digno.

“Todas as vezes que vamos ao IML procurar saber a data em que será feita a liberação, eles pedem para a gente ter paciência, mas essa paciência não existe mais. Eles sempre falam que não tem material, que o governador não liberou o dinheiro para comprar, e dizem que precisamos esperar. Todos os meses vamos lá, gastamos o dinheiro que não temos para nos locomover e nada é resolvido”, afirma a tia de Rayane, a autônoma Jaqueline Lopes, 34.

Conforme ela, uma liminar que foi concedida por uma juíza ordenando que o corpo de Rayane fosse liberado em dez dias não foi cumprida. “Quem criava a Rayane era eu desde recém-nascida. Sinto-me culpada por ter deixado ela ir para a casa da madrasta e acabar morrendo nas mãos dessa mulher. Além da dor de perder uma filha, que era como eu a considerava, essa impossibilidade de dar um enterro para ela machuca. É muito triste passar por isso. Eu fiquei com depressão, a minha mãe, avó da Rayane, também ficou muito doente e queria até morrer. Ela era uma menina doce e inteligente e nada vai fazer ela voltar, mas queria poder enterrar minha menina”, lamenta Jaqueline.

Fim da agonia para alguns

Após esperarem dois meses para enterrar a autônoma Solanilda Soares de Souza, agredida e enterrada pelo próprio marido em agosto deste ano, os familiares da vítima conseguiram, na última terça-feira (22), liberar o corpo dela e realizar um funeral digno.

“A nossa mãe faz aniversário hoje (terça), justamente no dia em que liberaram o corpo da Solanilda. Antes de acontecer isso, o que mais a nossa mãe queria era essa liberação. Ela chegou a pedir isso como presente de aniversário. Minha irmã não vai mais voltar, mas agora podemos fazer um sepultamento digno para ela e ficar de luto. É um sentimento muito ruim saber que seu familiar morreu e não poder enterrar”, revela a irmã da autônoma, a comerciante Solange Marques, 47.

Diretor culpa burocracia

Conforme o diretor do Departamento de Polícia Técnico Científico (DPTC), Jefferson Holanda, como esses corpos estão em estado cadavérico, é necessário realizar um exame de DNA para comprovar se os restos mortais realmente pertencem àquela pessoa. Devido a problemas de licitação com a empresa, ocorreu uma demora na solicitação do material que é importado dos Estados Unidos ou da Alemanha.

“Esse material é dividido em quatro partes. Duas partes já chegaram aqui e falta mais duas que vão chegar na próxima semana. Essa parte chegando, eu consigo realizar os exames e liberar todos os corpos. Os peritos estão se empenhando para que esse processo seja feito com mais rapidez”, informa Holanda.
O diretor conta ainda que essa remessa de material para realizar os exames custou R$ 600 mil e servirá para mais de duas mil análises cadavéricas. “O da menina Rayane é a nossa prioridade, pois é o corpo que está há mais tempo no instituto, mas os outros corpos serão liberados em seguida do dela”, garante o diretor.

Em nota, a SSP informa que apenas 2% dos corpos ou menos que dão entrada no IML precisam de exame de DNA para identificação técnica e científica do corpo, quando não é possível a realização da identificação mediante os exames de impressão digital e análise da arcada dentária.

Neste ano, houve um atraso na aquisição dos insumos para o exame de DNA, por conta do processo licitatório para escolher a empresa fornecedora do material, que só é possível encontrar fora do Brasil. Os insumos são específicos do equipamento utilizado pelo Laboratório de DNA.

A licitação, que é realizada pela Comissão Geral de Licitação do Estado, e não pela SSP, demorou mais que o previsto devido à raridade do produto necessário, mas já foi concluída. A previsão é que dentro de 30 dias a empresa vencedora da licitação entregue todos os insumos contratados.

Fonte e matéria Ana Sena do Jornal Agora

ver mais notícias