Médicos reconhecem influência das atitudes positivas no tratamento de doenças

Aos 14 anos André Sant’anna percebeu um caroço no pescoço. Primeiro foi levado a um ortopedista, tomou alguns remédios, mas nenhum surtiu efeito. Meses depois, em um exame no Instituto Nacional do Câncer (Inca), ele confirmou que estava no estágio mais avançado do linfoma de Hodgkin, um tipo específico de câncer que compromete os linfócitos, importantes agentes do sistema imunológico. A quimioterapia, que deveria durar seis meses, se arrastou por mais de dois anos. O primeiro transplante de medula foi mal sucedido, e a família precisou recorrer à Justiça para conseguir um medicamento cuja comercialização ainda não era permitida no Brasil. Aconselhado pelos médicos, André chegou a se despedir dos amigos. Mas o jovem — agora curado, aos 19 anos, após um segundo transplante — sabia que esta medida não seria necessária. Nos cinco anos em que conviveu com a doença, encarou tranquilamente o tratamento, e, durante a maior parte do tempo, até frequentou festas. Entre todas as queixas possíveis, a única que ele realmente fazia era quando tinha que raspar o cabelo. André é um exemplo de como a felicidade e o afeto são importantes para o sucesso de terapias.

— Lidei com a doença como se não tivesse problema de saúde — lembra o jovem. — O jeito era enfrentar, não adiantava baixar a cabeça, e tive ajuda da família e dos amigos de escola. Mesmo quando me deram como caso perdido, eu tinha certeza de que não era a minha vez. Precisei deixar o colégio, fiz um curso intensivo e aos poucos estou voltando a pegar o ritmo.

A influência da felicidade e do humor na saúde foi o tema do primeiro debate do ano nos Encontros O GLOBO Saúde e Bem-Estar, na última quarta-feira. O evento entra em seu quinto ano sob a coordenação do médico Cláudio Domênico e contou com a presença do oncologista Carlos José de Andrade e do escritor Zuenir Ventura, além da mediação do jornalista William Helal Filho, editor de Sociedade do GLOBO.

Domênico lembrou que a felicidade tem um componente genético, mas pode ser influenciada pelo meio ambiente, fortalecendo a nossa capacidade de enfrentar as adversidades. A vinculação entre este estado de espírito e a saúde é tema de um estudo que vem dendo realizado há 75 anos na Universidade Harvard.

— Os 724 jovens recrutados no início da pesquisa precisavam responder o que era mais importante para ser feliz. Uns disseram que era ter dinheiro; outros, reconhecimento — lembra. — Agora, 75 anos depois, são estudados dois mil filhos desses primeiros pesquisados, além dos 60 voluntários que ainda estão vivos. Diante da mesma pergunta, muitos mudaram de opinião. As pessoas que mantêm contato social vivem mais. A conclusão é que a solidão é tóxica e o isolamento mata.

A personalidade, segundo Domênico, repercute no tratamento de cada paciente, de diferentes formas:

— Alguns têm uma hipertensão pequenininha e chegam ao consultório sentindo um monte de coisa. Outros já foram operados, têm diabetes, hipertensão arterial. Pergunto por que estão ali e dizem que não sabem, que foi a chata da mulher que mandou — brinca. — Estas pessoas têm macrodoença e microssintomas.

Oncologista clínico do Inca e do Grupo COI, Carlos José de Andrade destaca a dificuldade sentida pela medicina em responder o que vem primeiro: somos felizes porque temos saúde ou temos saúde porque somos felizes?

— Já foram realizados estudos em vários ambientes tentando estabelecer uma relação entre a sensação de bem-estar das pessoas e a incidência de doenças cardiológicas — conta. — Os pesquisadores viram que as pessoas mais felizes têm um comportamento restaurativo e, assim, se recuperam melhor.

Outras pesquisas também mostram, segundo Andrade, como os sentimentos positivos são “cultiváveis”. Cientistas concluíram que 50% das chances de sermos pessoas felizes são determinadas geneticamente. Outros 10% viriam das circunstâncias. E 40% são um “espaço de manobra”, aquele instituído por cada um de nós.

Andrade e Domênico, no entanto, alertam que a atual crise política e econômica do país está elevando os níveis de estresse. Nos últimos dois anos, rankings elaborados por organizações internacionais sobre o índice de bem-estar da população mostram o Brasil nas primeiras colocações. Este cenário, no entanto, pode ser alterado nos próximos levantamentos.

— A Grécia, por exemplo, foi o país com maior queda na sensação de bem-estar, devido à diminuição da renda per capita e à crescente percepção de corrupção — lembra Andrade. — Não quero ser apocalíptico, mas podemos estar passando por uma situação semelhante.

ENVOLVIMENTO E SUPERAÇÃO

O oncologista Daniel Tabak pondera que não há evidências concretas de que adotar uma perspectiva positiva para combater o câncer pode auxiliar seu tratamento. No entanto, ele também considera que o estresse pode interferir negativamente nas alterações genéticas das células tumorais e em sua circulação no sistema imunológico.

Tabak, no entanto, reivindica que os médicos se envolvam mais no tratamento dos pacientes, dando-lhes inspiração para superar as limitações impostas pela doença. Para ele, a humanidade deve ser considerada como a essência da medicina.

— O médico, em vez de ser restrito a uma pessoa que cura doenças, também devem atuar como aliados — recomenda Tabak, que dirige o Centro de Tratamento Oncológico (Centron). — O paciente não deve ser visto só como um órgão a ser tratado. Precisamos entender o que é “pensar positivo”, ter esperança no futuro. Não há satisfação maior do que recuperar um paciente e de cumprir o nosso papel de cuidador. Quando ele percebe isso, como deve ter ocorrido com o André, então nosso trabalho foi coroado.

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