Diagnóstico preciso para tratamento caro: biópsia líquida chega ao país

RIO – Começa a chegar ao Brasil um tipo de exame que promete melhorar o tratamento do câncer. Acena com mais eficácia e menos sofrimento. A chamada biópsia líquida é simples e indolor. Basta uma coleta de sangue convencional. Diferente é a análise molecular sofisticada, capaz de identificar fragmentos de DNA de tumores na corrente sanguínea e indicar sua presença antes mesmo destes se tornarem visíveis em análises convencionais, numa fase em que podem ser bloqueados.

A novidade livra pacientes de procedimentos mais caros e invasivos, as biópsias tradicionais, que demandam internação, participação de vários profissionais e têm riscos. Porém, a biópsia líquida é indicadora de terapias caras, inacessíveis para a esmagadora maioria das pessoas com câncer. O exame informa ao médico que droga pode combater determinada mutação genética ligada ao câncer do paciente. São drogas chamadas de terapias-alvo. Têm menos efeitos colaterais justamente porque são específicas.

A biópsia líquida não substitui a biópsia convencional para o diagnóstico inicial do câncer, explica o geneticista Mariano Zalis, diretor técnico da Progenética e pioneiro na técnica no Brasil. Sua aplicação hoje é no acompanhamento do tratamento e no controle do tumor.

Nas palavras do oncologista clínico Carlos Gil, a biópsia líquida é uma potencial revolução tecnológica, com desdobramentos da terapia quase inexplorados.

— Muda a perspectiva de melhora e sobrevida do paciente. E estamos só no início. Todavia, também é uma caixa de Pandora. O custo do exame em si nem é o ponto principal. A grande questão é que, ao revelar mutações, leva o médico à indicação de drogas específicas, muitas ainda experimentais. Esses remédios são impossíveis de pagar — comenta Gil, coordenador do grupo Neotórax e diretor institucional da Oncologia D’Or. — O Brasil, como os outros países, terá que entrar na discussão. Buscar saídas. Ou teremos um sistema de castas na saúde, em que o câncer será tratável somente para os ricos. Só quem tiver muito dinheiro viverá mais e melhor. Condição financeira não pode ser critério de sobrevida. É um cenário assustador que precisa ser debatido agora.

O médico já viu alguns de seus pacientes se defrontarem com essa situação. Gil é um dos maiores especialistas do país em câncer de pulmão, justamente o único tipo de tumor para o qual a biópsia líquida está disponível no Brasil (existe a expectativa de chegar, em breve, o mesmo exame para outros tumores, como melanoma e cólon).

Drogas custam milhares de reais

Um desses pacientes é uma profissional liberal de 42 anos, mãe de filhos pequenos. Ela respondeu bem ao tratamento inicial. Porém, após alguns meses, o tumor começou a apresentar resistência e voltou a crescer. Por a mulher nunca ter fumado, o médico supôs que ela poderia ter uma forma de câncer associada a uma mutação chamada T79M. Essa mutação é agressiva, mas responde bem ao tratamento com uma droga nova, uma terapia-alvo.

Inicialmente, Gil a encaminhou para uma biópsia convencional. A mulher se submeteu à internação e à anestesia para a retirada de mais uma amostra do tumor. O exame, no entanto, não encontrou alterações.

— A paciente ficou desesperada. Ela já havia se submetido a um processo sofrido de biópsia, teve complicações e estava com medo da quimioterapia. Porém, na mesma época a biópsia líquida chegou ao Brasil. E esse exame identificou e analisou fragmentos realmente ínfimos de DNA do tumor. Tivemos sorte, o resultado foi positivo — conta o médico. — Esse caso foi particularmente feliz porque houve tempo de incluir a paciente num programa de doação do medicamento pelo laboratório. E só isso viabilizou o tratamento, pois ela não teria condições de pagar. Essas drogas custam milhares de reais por mês e muitas vezes nem chegam ao Brasil.

Outro paciente, um homem de meia-idade, também se beneficiou do mesmo exame. E do tratamento.

— Mas esse caso é diferente. Além de não haver tanto tempo para esperar, se trata de uma família com condições de pagar R$ 75 mil por mês por caixa de remédio. Por tempo indeterminado. Quase ninguém, ninguém mesmo, tem condições de fazer isso. Para mim, como médico, é muito difícil. Por um lado, tenho recursos novos e promissores. Mas corro o risco de dizer a uma pessoa com câncer que o caso dela teria remédio, mas não há dinheiro para pagar porque custa uma fortuna — destaca o médico.

Ele frisa que está mais do que na hora de pensar em meios de democratizar e viabilizar o uso não apenas dessa classe de drogas, mas de outros tratamentos que surgem no horizonte, como as imunoterapias, também extremamente caras.

— Acho que há excessos nos preços, mas não é só isso. Há sempre uma nova droga. Então, é preciso não apenas da negociação de casos isolados, mas de uma política de saúde que reduza os custos e viabilize o acesso. A China tem experiências interessantes nesse sentido. Só recorrer à Justiça para obrigar o SUS ou os planos a pagarem não funciona, porque resolve casos isolados, mas não o problema. Precisamos buscar nosso caminho — afirma Gil.

Fusão de várias técnicas

A biópsia líquida é resultado de décadas de pesquisa sobre a genética do câncer. Ela é uma fusão de técnicas que identificam pedaços muito pequenos de DNA em circulação no sangue. A elas se soma o conhecimento de um número progressivamente maior de mutações associadas a tumores.

— Cada pessoa tem uma forma própria de câncer. Nenhum tumor é igual. A biópsia líquida é capaz de perscrutar essas especificidades. Ela é o avanço mais recente da chamada medicina personalizada. Estudos nos EUA já identificaram mais de 50 tipos de tumores que podem ser analisados dessa forma — explica Mariano Zalis.

A técnica começou a ser usada nos EUA há cerca de um ano e na Europa há seis meses. Hoje, o exame custa, no Rio, cerca de R$ 900 — uma biópsia convencional de pulmão pode chegar a R$ 15 mil, mas tem cobertura. A líquida não é ainda coberta por planos de saúde.

— Essa biópsia é um avanço muito importante, era um sonho antigo dos médicos, um instrumento valioso de acompanhamento. Mas e agora? A tecnologia continua a avançar, mas não as políticas de saúde. O abismo entre a medicina de ponta e o acesso da população a esta aumenta em escala logarítmica. O SUS hoje está cerca de dez anos atrasado em relação ao que existe de moderno no tratamento do câncer. Se nada for feito, esse atraso só vai piorar — alerta Carlos Gil.

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