Alteração genética por dieta vegetariana aumenta riscos de câncer

RIO — Populações com dieta vegetariana de longo prazo podem sofrer mutações genéticas que aumentam a probabilidade de câncer e doenças cardíacas, aponta estudo publicado esta semana na revista científica “Molecular Biology and Evolution”. Os pesquisadores encontraram evidências de uma variação genética, chamada alelo, que evoluiu em regiões que historicamente favoreceram a alimentação baseada em vegetais, como Índia, África e partes do leste da Ásia.

Essa adaptação genética, evoluída ao longo de centenas de gerações, permite a esses povos processar de forma eficiente ácidos graxos ômega-3 e ômega-6 para convertê-los em compostos essenciais para o desenvolvimento inicial do cérebro. Contudo, se houver um desbalanceamento dessa dieta, essas populações se tornam mais suscetíveis a inflamações e, por associação, maior risco de doenças cardíacas e câncer de cólon.

Uma versão modificada de adaptação genética também foi detectada entre os Inuítes, na Groenlândia, para uma dieta baseada em frutos do mar, mas de forma oposta. Enquanto o “alelo vegetariano” tem uma inserção de 22 bases nos genes, esta inserção foi deletada no “alelo marinho”.

— Nosso estudo é o primeiro a conectar a inserção de um alelo em dietas vegetarianas e a supressão de um alelo em uma dieta marinha — disse Kaixiong Ye, pesquisador da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York, e colíder do estudo.

As enzimas FADS1 e FADS2 são essenciais para a conversão dos ácidos graxos em produtos necessários para o desenvolvimento do cérebro, e elas são reguladas pelo “alelo vegetariano”. Populações com dieta baseada em carne e frutos do mar têm menos necessidade dessas enzimas para obter a nutrição necessária. Entre os produtos resultantes está o ácido araquidônico, importante para o organismo, mas que, em excesso exacerba inflamações.

— Aqueles com ancestrais vegetarianos são mais propensos a carregar genes que metabolizam mais rapidamente ácidos graxos presentes em plantas — explicou Tom Brenna, professor de Cornell e coautor do estudo. — Em tais indivíduos, óleos vegetais serão convertidos em mais ácidos araquidônicos, aumentando o risco de inflamações crônicas ligadas ao desenvolvimento de doenças cardíacas e exacerbação do câncer.

ÓLEOS COM BAIXOS NÍVEIS DE ÔMEGA-6

O ácido araquidônico é derivado do ômega-6. Por isso, Brenna recomenda que vegetarianos mudem a dieta do ômega-6 para o ômega-3.

— A mensagem é simples: use óleos vegetais com baixos níveis de ômega-6, como o azeite de oliva — disse Brenna.

A equipe comparou a frequência do “alelo vegetariano” em 234 indianos com dieta primária em vegetais e 311 americanos, com alimentação baseada em derivados animais, e encontrou a expressão genética em 68% dos indianos e apenas 18# dos americanos. Análises usando dados do 1.000 Genomes Project encontrou resultados semelhantes, com o alelo em 70% dos asiáticos do Sul, 53% dos africanos, 29% dos asiáticos do Leste e 17% dos europeus.

— Os europeus têm uma longa no consumo de leite e absorvem produtos finais da longa cadeia metabólica dos ácidos graxos diretamente dos derivados lácteos, então não precisam aumentar a capacidade de sintetizar esses ácidos graxos — explicou Ye. — Uma implicação do nosso estudo é que podemos usar essa informação para tentar moldar nossa dieta para o nosso genoma, o que é chamado de nutrição personalizada.

Os pesquisadores ainda não sabem quando a adaptação surgiu, já que análises nos genomas de chimpanzés e orangotangos não apontaram para a presença do “alelo vegetariano”. Entretanto, existem indícios que o alelo estava presente em neandertais e hominídeos de Denisova.

— É possível que na História da evolução humana, quando as pessoas migraram para diferentes ambientes, por vezes se deparavam com dietas baseadas em plantas e, em outras, em dietas baseadas em frutos do mar, e em diferentes períodos esses alelos se adaptaram — disse Ye, apontando que os alelos teriam a tendência a evoluir de acordo com pressões alimentares.

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