Santander e Itaú podem comprar setor de varejo do Citigroup, segundo analistas

SÃO PAULO e BRASÍLIA – Menos de um ano depois de comemorar o centenário de sua presença no Brasil, o Citigroup anunciou ontem que vai sair do varejo bancário brasileiro, mantendo no país apenas o atendimento aos clientes corporativos (empresas) e àqueles com grandes fortunas (o segmento private). Esse movimento não ocorre apenas no Brasil: o banco americano fará o mesmo na Argentina e na Colômbia. Especialistas veem Santander e Itaú Unibanco como possíveis interessados nas operações brasileiras do Citi. Na avaliação de integrantes do governo, essa venda não poderia ocorrer em um momento pior, de crise econômica severa e retração do crédito.

— Neste momento de crise aguda, quem se interessaria em comprar um banco? Ninguém quer pegar crédito — disse um técnico do governo.

CADE TERÁ DE APROVAR

Em comunicado, a matriz do Citi informou que, tão logo conclua um reordenamento interno, colocará a venda sua rede de 71 agências bancárias — das quais 52 distribuídas entre Rio e São Paulo — e todos os seus negócios de cartões de crédito. Ou seja, num primeiro momento, nada muda para seus 450 mil clientes no país. Segundo técnicos do governo, o Banco Central (BC) ainda não foi comunicado oficialmente da intenção do Citi de vender seu braço brasileiro. O BC não comenta casos de instituições específicas.

Especialistas do setor bancário apontam o espanhol Santander como “candidato natural” e “franco favorito” a comprar os ativos de varejo do Citi no Brasil. Para eles, a oferta feita pelos espanhóis na disputa pelo HSBC Brasil, no ano passado, mostra a disposição de crescer no mercado brasileiro. Além disso, o Santander ficaria sendo o único banco global a atuar no varejo brasileiro, oferecendo aos correntistas serviços como saques em moeda estrangeira no exterior e remessa de divisas.

— O Santander surge como candidato natural porque conhece o varejo brasileiro e fortaleceria sua operação, especialmente no Rio e em São Paulo. Além disso, o banco espanhol fez uma oferta pelo HSBC, o que mostra interesse em crescer no mercado brasileiro — diz João Augusto Sales, da consultoria Lopes Filho & Associados, para quem o Santander poderia fazer uma captação lá fora para viabilizar a operação.

Mas Sales também não descarta uma investida do Itaú Unibanco, lembrando que as duas instituições financeiras já tiveram negócios em conjunto no país, como a Credicard, criada por Citi, Itaú e Unibanco há mais de 40 anos. Ele ressalta, no entanto, que no momento o banco está mais focado em consolidar suas operações na América do Sul.

Caso um banco nacional compre o Citi, a operação terá de ser avaliada não apenas pelo BC, mas pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O órgão já analisa a compra do HSBC pelo Bradesco e, no início do mês, determinou que novos estudos sejam feitos sobre os possíveis impactos na concorrência bancária. Segundo fontes ouvidas pelo GLOBO, a operação deve ser autorizada.

— Isso deve se desenrolar em breve. É comum levar tempo mesmo, mas deve ter um desfecho logo — previu uma alta fonte do governo.

O analista Luís Miguel Santacreu, da Austin Ratings, lembra que quando o HSBC anunciou sua saída do varejo no Brasil, o Citi foi um dos que se colocou como alternativa de instituição global aos clientes do britânico, ao lado do Santander. Este, agora, torna-se a única opção de banco global no país.

— Uma das possibilidades é a venda ser feita para o banco espanhol num pacote incluindo Brasil, Argentina e Colômbia, países onde o Santander também já atua. Nesse caso, o pacote interessaria também ao Itaú, que está se expandindo na região — observou Santancreu.

ESTRATÉGIA GLOBAL

Para os analistas, dificilmente outro grupo estrangeiro, que não opere no Brasil hoje, faria uma oferta para entrar no país neste momento. Com a crise econômica e a queda da demanda por crédito, grandes grupos financeiros, como o HSBC e o próprio Citi, estão preferindo reduzir sua exposição ao Brasil e a outros mercados emergentes.

“Embora os nossos negócios de varejo no Brasil, na Argentina e na Colômbia sejam de alta qualidade, decidimos focar esforços nas oportunidades com os nossos clientes institucionais nesses países e em toda a região”, disse o presidente executivo do Citigroup, Michael Corbat, no comunicado ao mercado.

A estratégia é global. Bancos em todo o mundo têm recorrido a agressivas políticas de controle de custos, pois taxas de juros próximas de zero nos países ricos, queda no preço do barril de petróleo e o temor com a desaceleração da China afetaram o crescimento nas receitas.

Seis meses após assumir o cargo de diretor executivo, em 2014, Corbat listou 21 mercados de baixo retorno como candidatos a uma reestruturação. Em outubro daquele ano, o Citi anunciou sua saída de 11 mercados, incluindo seis na América Latina.

Embora tivesse apenas R$ 70,6 bilhões em ativos, segundo seu balanço de junho de 2015 — Itaú e Bradesco superavam R$ 1 trilhão — no segmento corporativo o Citi é líder em operações de câmbio e tem a custódia de 60% dos investimentos estrangeiros no Brasil. O Citi não divulgou ainda o balaço fechado de 2015 de sua operação no Brasil.

Na avaliação de Alcir Freitas, analista sênior de bancos da Moody’s, a venda, caso efetivada, vai reduzir a diversificação de receitas do Citi no Brasil. Ele ressaltou que o banco não tem escala para competir na área de varejo no mercado local. Em nota, ele citou “as condições de mercado cada vez mais desafiadoras no Brasil.”

CHINESES: SEM VANTAGEM

Sales, da Lopes Filho, observa ainda que, embora grupos financeiros da China tenham dinheiro em caixa para comprar os ativos brasileiros do Citi, eles estão mais interessados em investir em obras de infraestrutura aqui, não em entrar no segmento de bancos de varejo, que é bastante concentrado. Nos últimos anos, lembra ele, os chineses compraram três bancos no Brasil — Bic Banco, BBM e BES. Os dois primeiros atendem ao segmento de pequenas e médias empresas, e o BES, que se transformou em Haitong, é um banco de investimento.

— Não acho que os chineses tenham interesse em atuar no varejo — disse Sales.

Quanto à questão da concentração bancária no Brasil, os analistas não veem problema. Sales observa que Estados Unidos, Europa e Japão também têm forte concentração bancária, com três ou quatro grandes bancos privados dominando o varejo.

— A concentração de banco em si não é ruim. A questão é que esse ganhos de produtividade devem ser repassados ao consumidor em forma de tarifas e juros mais baixos, o que nem sempre acontece. Cabe ao Banco Central fiscalizar — disse Sales.

Procurados, Itaú, Bradesco e Santander informaram que não iriam se pronunciar sobre o anúncio do Citi.

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