Risco-país sinaliza que mercado mantém aposta em impeachment

SÃO PAULO – As manifestações deste domingo reforçaram a expectativa de mudança de governo no Brasil. Os dois principais indicadores de risco do país, os Emerging Markets Bond Index Brazil (Embi+ Br) e os Credit Default Swaps (CDS), se mantiveram no mesmo patamar do fechamento de sexta-feira. O Embi encerrou em 436 pontos, frente aos 430, enquanto o CDS terminou a 390,5 ante 391. Ambos se mantiveram no menor patamar desde fevereiro, quando o mercado começou a antecipar a possibilidade de uma troca no Planalto.

– Em 12 de fevereiro, o Embi chegou a bater nos 555 pontos, a maior alta do ano, sinalizando que os agentes financeiros esperavam que o atual governo fosse se salvar. Mas o avanço da operação Lava-Jato fez os indicadores de risco-país recuarem, mostrando que o mercado voltou a apostar numa troca no Planalto – explica o economista da consultoria Tendências, Silvio Campos Neto, que diz que o recuo do dólar e a subida da Bolsa na última semana também sinalizaram que os investidores acreditam numa troca no comando do país.

Para o economista do banco Mizuho no Brasil, Luciano Rostagno, a chance de um impeachmente da presidente Dilma Rousseff aumento na avaliação do mercado depois que as investigações da Lava-Jato trouxeram fatos novos chegando mais próxima da cúpla do governo.

– A prisão do marqueteiro do PT João Santana, as revelações de um executivo da construtora Andrade Gutierrez, em delação premiada, de que a empresa fez doações ilegais de campanha e as afirmações do senador Dulcídio do Amaral de que a corrupção na Petrobras era conhecida no Planalto aumentaram a chance de impeachment, já que reforçam a base jurídica para o pedido – disse Rostagno, observando que o mercado tem a expectativa de que assuma um governo mais forte, que sairia da coalizão entre PMDB e PSDB.

O analista Rafael Figueiredo, da corretora Clear, diz que essa estabilidade dos indicadores de risco é a antecipação pelo mercado de uma ruptura política e da perspectiva de uma nova política econômica para o país, que já vinha desde fevereiro.

O Embi mostra a diferença entre os juros pagos pelos títulos americanos e brasileiros. Quanto mais alto o indicador, pior a percepção de risco do país, já que o Embi mostra a desconfiança que os investidores têm da capacidade do governo de pagar suas dívidas. Os Estados Unidos são considerados risco zero de calote. Em 2002, o indicador chegou perto de 2.500 pontos com o nervosismo causado pela então provável eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República. Mas, nos útimos anos, perdeu importância, com o bom desempenho da economia brasileira.

Já os Credit Default Swaps (CDS) são uma espécie de seguro contra calote contratado por investidores. Quanto mais alto, também maior a desconfiança. Embora tenha descido a 390 pontos, o patamar ainda é considerado elevado. Vizinhos como o Chile tem CDS de 99 pontos, Peru 160 pontos e México 164 pontos. A Argentina não tem classificação de CDS porque tecnicamente é considerado um país em situação de calote. E a Venezuela tem um CDS de 5.000 pontos.

Nesta segunda, a consultoria de risco político Eurasia Group divulgou relatório com a expectativa de que a presidente Dilma Rousseff deverá sair do cargo em maio, sendo afastada pela votação do impeachment pela Câmara dos Deputados. A Eurasia afirma que os protestos realizados no país ontem reforçaram o cenário de que Dilma não terminará o mandato, com a sua queda ocorrendo mais rápido do que antecipado anteriormente. Na sexta-feira, a Eurasia já havia elevado de 55% para 65% a probabilidade de que a presidente não fique no cargo até 2018.

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