Queda do dólar para R$ 3,77 provoca corrida em bancos e corretoras

A forte queda dos preços do dólar na quinta e na sexta-feira da semana passada fez disparar a procura pela moeda americana nas agências dos bancos e nas corretoras.

Diretores de instituições estimam que a procura no mínimo dobrou em relação aos dias normais e, em alguns casos, triplicou. Na Mirae Wealth Asset Management, a venda quase triplicou, explica Pablo Stipanicic Spyer, diretor de operações.

“Foi um movimento pontual, mas dobrou na quinta e na sexta-feira”, diz. No Banco Ourinvest, que além da clientela própria também fornece moeda para outras instituições, o aumento da procura foi de mais de 120% comparado a um dia normal entre quinta e sexta-feira.

Também no Banco Paulista, a procura por dólar pelos clientes no varejo mais que dobrou na sexta-feira e continua forte hoje, mas um pouco menor.

O dólar comercial, que vinha sendo negociado a R$ 4,00 ao longo deste ano, caiu de R$ 3,94 na terça-feira para R$ 3,71 na sexta-feira.

Já o turismo, das viagens e cartões, caiu de R$ 4,09 para R$ 3,87. Hoje, as cotações estão em R$ 3,78 e R$ 3,87, respectivamente.

A moeda iniciou a semana em queda, mas recuou com força na quinta-feira, após o vazamento da suposta delação premiada do ex-líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral, e mais ainda na sexta-feira, com o depoimento força do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os eventos aumentaram a especulação em torno de uma saída da presidente Dilma Rousseff do cargo.

Na assessoria de câmbio FB Capital, a procura mais que dobrou na quinta e na sexta-feira, tanto em valores quanto em número de operações e de consultas de clientes, explica seu diretor, Fernando Bergallo.

”O pessoal ficou louco, foi uma enxurrada, não demos conta de atender tanta gente nos procurando para comprar dólar”, diz. 

“Fiquei até 17h30 de sexta-feira atendendo clientes desesperados para comprar e buscando cobertura para vender moeda, tamanha foi procura de pessoas querendo aproveitar essa barrigada dos preços”, conta.

”Muita gente nem entendia muito bem o que estava acontecendo, mas correu comprar.”

Segundo Bergallo, muitos investidores haviam adiado a compra de dólares quando a moeda superou os R$ 4,00.

“Muita gente deixou até de pagar compromissos no exterior, o que criou também uma demanda reprimida, que veio toda de uma vez para o mercado”, explica.

Junto vieram clientes procurando antecipar a compra de moeda de compromissos futuros para aproveitar os preços.

“Teve clientes que venderam ações para comprar dólar ou resgataram antes aplicações que iam ficar livres de imposto para aproveitar os preços”, diz. E são valores razoáveis, de US$ 100 mil a US$ 300 mil.

“Nós não trabalhamos com o dólar de varejão, mas mesmo assim, a procura foi muito grande”, diz.

Hoje, porém, o volume continua elevado, mas mais perto do normal, diz Bergallo.

“Tivemos já quatro clientes nos procurando para enviar recursos para fora, mas já há uma redução em relação a quinta e sexta-feira, até porque as pessoas querem ver agora para onde vão os preços”, explica.

Para ele, os próximos dias serão importantes para definir a procura pela moeda. A expectativa é que, se houver um movimento forte para cima ou para baixo, a procura caia.

“Se houve ruma variação forte, o comprador vai esperar para ver qual a nova banda de flutuação da moeda”, diz.

Bergallo lembra que muita gente assumiu compromissos em dólar, como a compra de imóveis no exterior, quando a moeda estava em torno de R$ 2,00 a R$ 2,50, entre 2013 e 2014, a agora está sofrendo para pagar os compromissos com a moeda acima de R$ 4,00.

Por isso a grande procura quando a moeda recuou para perto de R$ 3,70.

“Recomendamos aos clientes para comprar, pois entendemos que uma queda dessas, de 8% em poucos dias, vai ter uma correção, uma realização, e as pessoas físicas costumam perder essas oportunidades”, explica.

O especialista considera o movimento da moeda e dos mercados na semana passada exagerado. “O cenário externo ajudou a derrubar a moeda, mas não vejo nenhuma correlação entre o Lula ser preso e a economia melhorar”, afirma.

“Ou mesmo de o governo Dilma cair e tudo melhorar, é um chute muito longo, pois nem sabemos quem vai assumir no lugar dela ou qual o rumo que a economia vai tomar”, avalia. “Foi um movimento muito mais especulativo do que com base em fundamentos”.

Angelo Pavini, da Arena do Pavini

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