Otimismo de empresas depende de ações concretas de Temer

BRASÍLIA – A lua de mel entre o governo Michel Temer e a iniciativa privada não deve durar muito mais do que a tradicional viagem dos recém-casados. Os empresários que atuam no país esperam que em até um mês o presidente interino apresente medidas práticas e promova um choque de expectativas no mercado. Como São Tomé, passada a impressão inicial, o setor de infraestrutura quer ver para crer em uma mudança firme de ambiente de negócios para acreditar e, então, investir seu capital em concessões e privatizações.

Para José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), mais do que ajustar marcos regulatórios, o governo Temer precisa rapidamente melhorar o cenário macroeconômico, como forma de retomar o apetite por investimentos, nacionais ou estrangeiros. Isso implica um arranjo de medidas que aponte o rumo dos principais indicadores da economia, como inflação, juros e câmbio.

Antes mesmo da posse, a Cbic entregou a Temer propostas do setor para o período até 2018: “O desafio é apresentar uma resposta imediata para a grave crise que o país vive em conjunto com uma agenda de médio e longo prazos, que crie as condições para um desenvolvimento sustentável”, pontuou a entidade.

Além da previsão formal de energia e transportes, o documento aponta o apetite privado por concessões em áreas onde o governo federal nunca cogitou ou abandonou, como saneamento básico, resíduos sólidos, iluminação pública, hospitais e presídios.

— Temer tem todo o nosso apoio para as mudanças — disse Martins.

DE OLHO NO CÂMBIO

Para Venilton Tadini, presidente-executivo da Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), no melhor cenário, o governo poderá articular uma composição de forças capaz de implementar o que foi diagnosticado e o que tem sido indicado pelo núcleo de Temer. Segundo ele, porém, antes de colocar o capital, o empresariado vai olhar para fatores práticos, como para onde vai a cotação do dólar e como será feito o ajuste fiscal, para retomar a confiança na economia.

— A situação externa hoje é relativamente confortável, de preços também, no entanto, se tem uma aversão ao risco por conta da instabilidade política. O que vimos e ouvimos até agora nos agrada, mas precisamos ver acontecer — disse Tadini.

Ele lembrou que, no primeiro dia de seu governo, o ex-presidente Fernando Collor publicou 22 medidas provisórias para promover esse choque de expectativas. O decorrer do governo, porém, foi repleto de oscilações até o impeachment. Como indicação firme, por exemplo, Tadini espera que o governo apresente inicialmente suas prioridades para a infraestrutura, em termos de projeto.

O diretor de desenvolvimento industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Carlos Abijaodi, é mais otimista. Para ele, é possível retomar a curto prazo a credibilidade de investidores que já vinham trazendo delegações para encontrar oportunidades de negócios no Brasil.

— Haverá investimentos com clareza na política econômica, porque nossos ativos estão baratos para os estrangeiros — disse Abijaodi, referindo-se a leilões de infraestrutura e o grande volume de ativos à venda aqui.

TEMOR SOBRE GOVERNABILIDADE

Entre os empresários, porém, há temor de que esses potenciais investidores externos tenham uma percepção de que a transição do governo não tenha sido democrática. Quando houver essa interpretação, alguns países e empresas estrangeiras — que são fundamentais para a retomada rápida do investimento em infraestrutura no país após a Lava-Jato — podem fazer uma reavaliação de seus projetos e pisar no freio.

Com a mudança de governo, o empresariado também teme que o Congresso possa aprovar e ver sancionados novos projetos que alterem o seu ambiente de negócios, como a Lei dos Caminhoneiros de 2015, que levou todas as concessionárias de rodovias a pedir revisão do equilíbrio econômico-financeiro de seus contratos. Propostos e defendidos por apoiadores de Temer, há textos que já tramitam no Congresso que criam incentivos a minorias ou transformam o licenciamento ambiental de obras, por exemplo.

As entidades de classe destacam que o governo Dilma Rousseff não tinha um perfil tão amigável ao investimento privado, principalmente em concessões, por isso a percepção inicial positiva com Temer. Apenas como exemplos, o último leilão de áreas em portos no Pará teve de ser remarcado por falta de interessados e não se conseguiu fazer uma concessão de ferrovia no período. A ação do governo do PT para alçar o setor naval, que gerou grande expectativa, mas entrou em colapso com a crise nacional e da Petrobras, é uma experiência recente que suscita ressentimentos, assim como a tentativa de se fazer o trem-bala.

— Com o novo governo, há ao menos um discurso de se trazer mais segurança jurídica para os investimentos, mas temos que ver para crer — disse Carlos Duprat, diretor-presidente do Sinditelebrasil.

Outro temor do empresariado se refere à governabilidade que Temer terá, entre outros elementos, com a administração de potenciais conflitos entre perfis distintos em seu ministério, como Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, e José Serra, das Relações Exteriores, que cuidará da promoção comercial e de investimentos externos.

Flavio Freitas, da Associação Brasileira das Concessionárias de Rodovias (ABCR), aponta que os embates políticos recentes paralisaram decisões importantes no segmento, e que agora pode haver uma retomada rápida de projetos e decisões do governo, com maior geração de empregos.

— Há dificuldades para se obter financiamento, por conta do cenário, mas estamos otimistas — disse Freitas.

Segundo Carlos Pastoriza, presidente do conselho da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), uma janela de esperança vai surgir em um primeiro momento, mas ela poderá ser rapidamente fechada, se o novo governo não mostrar depressa a que veio.

ver mais notícias