Novo jornal britânico aposta tudo nas vendas em bancas

LONDRES – O “New Day”, a mais nova start-up de mídia britânica, traz algo de novo para todo mundo: um resumo das principais notícias do dia, matérias de interesse humano, cobertura de cultura popular, esportes, saúde e viagem, e até mesmo colunistas que dão conselhos. O que a empresa não tem é um site. Nem um aplicativo. Além de praticamente nenhuma presença na web.

Em um momento em que a maioria dos editores do mundo entrou na conversa de que o futuro é digital, essa aposta exclusiva no papel deixou vários analistas do setor com a pulga atrás da orelha. A medida surge em um momento em que canais de mídia como o “Huffington Post”, o “Politico” e o “Business Insider” fazem força para entrar mais fundo no mercado europeu, ao mesmo tempo em que alguns dos principais nomes da região começam a diminuir o volume de material impresso. O “Independent”, um dos jornais mais respeitados do Reino Unido, tornou-se exclusivamente digital no dia 26 de março, e o “El País”, o maior jornal diário da Espanha, avisou sua equipe que está considerando tomar um rumo similar.

Porém, com o objetivo de atrair um milhão de leitores pagos por semana, a editora do “New Day”, a Trinity Mirror, uma das maiores empresas de mídia da Inglaterra, está convencida de que a estratégia de publicar apenas jornais impressos pode atrair um público nas bancas de jornal do Reino Unido, onde a concorrência é grande. Douglas McCabe da Enders Analysis, um grupo de pesquisa em mídia com sede em Londres, afirmou:

— Essa é uma decisão arrojada. Em um momento em que a circulação de jornais e revistas impressos está despencando a cada ano, lançar um produto exclusivo para as bancas é muito corajoso. Você precisa ter muita confiança no fato de realmente estar preenchendo um nicho no mercado.

Com suas atividades iniciadas há pouco mais de um mês, as edições de 40 páginas do “New Day” podem ser encontradas 5 dias por semana em 40 mil bancas de jornal de todo o Reino Unido, onde é vendido por 50 pence, ou cerca de US$ 0,70. Não é possível assinar o jornal e, a não ser por uma promoção nas duas primeiras semanas, ele não planeja distribuir seu conteúdo gratuitamente.

— Não queremos ir por esse caminho — afirmou a editora do “New Day”, Alison Phillips. — Ainda existe muita gente que tem o hábito (de pagar por conteúdo impresso).

Alison reconhece que o grande volume de conteúdo gratuito na internet e a conveniência de ler em smartphones e outros aparelhos móveis são fatores que ajudaram a afastar as pessoas das mídias impressas. Mas com o “New Day”, a Trinity Mirror está apostando na possibilidade de que o número de leitores de mídias impressas esteja diminuindo por outra razão: muitos britânicos simplesmente não gostam das opções disponíveis na banca de jornais.

LEITORES SEM TEMPO

Diários de qualidade como o “Guardian”, o “Times” e o “Telegraph” são densos demais para algumas pessoas, afirmou Phillips, ao passo que outros leitores são afastados pelo tom agressivo e claramente partidário dos tablóides como o “The Sun”, que pertence a Rupert Murdoch, e o “Daily Mirror”, que também pertence à Trinity Mirror.

— Nossos leitores não têm muito tempo e não gostam que digam como devem pensar — afirmou Alison a respeito do público alvo do novo jornal.

Ainda assim, os analistas afirmam que convencer os consumidores a voltarem a comprar jornais impressos na banca é um desafio e tanto.

— Esses leitores já se foram. Mesmo que sua hipótese esteja correta, a realidade é que a maioria das pessoas consome notícias em aparelhos móveis. Isso exige uma mudança de hábitos tremenda — afirmou McCabe, da Enders Analysis.

Levando em conta as vendas iniciais do “New Day”, é possível ver que esses hábitos digitais vieram para ficar.

Embora o jornal tenha vendido até 150 mil cópias por dia ao preço promocional de 25 pence no início de março, as vendas caíram vertiginosamente desde então, de acordo com relatórios de mídia britânicos, chegando a menos de 90 mil cópias. A Trinity Mirror se negou a falar sobre esses números, citando planos de publicar dados auditados no fim do trimestre.

A empresa também afirmou que espera começar a dar lucro até o fim do ano e, embora venda alguns anúncios, seu modelo de negócios depende principalmente da circulação. Phillips afirmou ter consciência de que as vendas caíram desde a campanha de marketing inicial, mas que isso não chegava a surpreender.

— Não é nada fácil lançar um novo jornal impresso — afirmou.

MÍDIAS SOCIAIS

O “New Day” recorreu às mídias sociais como ferramenta promocional, divulgando a primeira página do jornal, além de informações sobre alguns artigos. Mas até o momento, sua presença nas redes sociais — 47 mil curtidas no Facebook, e 12 mil seguidores no Twitter — é uma fração do que jornais com conteúdo compartilhável conseguem atrair.

Ainda assim, nem todos os analistas acreditam que o “New Day” é um experimento fadado ao fracasso.

De acordo com McCabe, ao evitar o ambiente digital, o New Day não é obrigado a dedicar os escassos recursos da redação em diversas plataformas.

— As publicações de hoje estão sempre tentando equilibrar as estratégias digitais e impressas, como se tudo isso pude ser a mesma coisa. É como se todo mundo estivesse abrindo mão de algo — afirmou McCabe.

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