Novas fronteiras na Europa custam caro para os negócios

FREILASSING (Alemanha) – O tráfego ao longo de uma das mais movimentadas rodovias da Europa, que costumava fluir sem obstáculos, agora fica parado por quilômetros em um novo posto de controle, onde um grupo de policiais vistoria caminhões e carros em busca de migrantes escondidos.

Como resultado, os austríacos que trabalham na Alemanha estão tendo problemas para chegar a seus empregos. Muitas empresas na Alemanha precisam esperar mais para receber alimentos, peças de máquinas e outros bens. Clientes que antes faziam visitas rápidas de fim de semana para comprar nas lojas de Freilassing agora quase não vêm mais.

— Está muito ruim — afirma Karl Pichler, dono de uma grande loja de jardinagem em Freilassing, cujas vendas de tulipas, arbustos e outras plantas despencou porque seus clientes austríacos não aparecem mais.

Mais de duas décadas depois que grande parte da Europa começou a abolir controles de fronteira sob o chamado Acordo de Schengen, o movimento livre de pessoas e produtos entre os países ajudou a transformar a União Europeia na maior economia do mundo.

Mas como o bloco agora precisa lidar com a maior crise migratória desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o renascimento dos postos de controle em algumas das mais importantes rotas de transporte da região está prejudicando o comércio e ameaçando custar bilhões de euros em negócios perdidos, exatamente no momento em que a Europa se recupera de seis anos de crise econômica.

Sem um fim à vista para a crise de migração, alguns governos estão pressionando para aumentar o número de postos de controle na Europa e estender seu uso para até dois anos. A mudança não está ameaçando apenas a coesão política e social da região, mas também o princípio do pós-guerra de alcançar a paz por meio da prosperidade.

Apesar de o pedido de alguns para que se suspenda Schengen possa ser encarado como postura política, os críticos se preocupam com a possibilidade de os controles de fronteira se tornarem comuns novamente.

— Fechamos as fronteiras uma após a outra e assim que estiverem fechadas, veremos que os custos econômicos são imensos — avisou Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, ao Parlamento Europeu em janeiro.

Dos 28 países da União Europeia, 22 têm acordos de passaporte livre, sendo a Inglaterra uma das exceções notáveis. Mas as linhas estão rapidamente sendo redesenhadas por toda a Europa.

Desde o fim do ano passado, a Áustria, a Dinamarca, a França, a Noruega e a Suécia se uniram à Alemanha para impor e estender checagens temporárias nas fronteiras. Cercas foram construídas em várias outras divisas incluindo as de Hungria, Sérvia, Croácia, e entre a Eslovênia e a Áustria.

Os governos europeus e os institutos de pesquisa já começaram a contabilizar os danos em potencial.

Com 57 milhões de veículos por ano e 1,7 milhão de trabalhadores por dia cruzando as fronteiras da Europa, a União Europeia pode perder até € 18 bilhões (US$19,6 bilhões) anuais por causa de negócios não concretizados, custos mais altos de fretes e de transporte regional, interrupções nas cadeias de fornecimento e gastos dos governos para o aumento do policiamento das fronteiras, de acordo com um relatório recente da Comissão Europeia, o braço administrativo do bloco.

Para Doruk Tumer, motorista de caminhão de uma empresa de entregas turca, a viagem para a Alemanha se tornou uma odisseia repleta de barreiras.

Antes, sua rota da Turquia e da Grécia pelo Oeste dos Bálcãs — um caminho parecido com o que foi usado por quase um milhão de migrantes no ano passado — levava cerca de cinco dias. Agora, segundo Tumer, pode demorar até 12 dias, enquanto a antiga viagem de duas horas cortando a Áustria algumas vezes demora mais de um dia.

— Tempo é dinheiro — diz ele, explicando que os custos cresceram 30% por causa da demora das entregas, aumento dos custos de refrigeração para bens perecíveis e o uso ocasional de um segundo motorista para superar os atrasos.

Ainda não está claro se a União Europeia pretende engavetar o Schengen. Os oficiais estão procurando maneiras de deixar as fronteiras externas da Europa mais seguras para que os países dentro do bloco não precisem selar as suas.

Os oficiais europeus estão pressionando a Grécia em particular, que constitui a fronteira mais ao Sul, para aumentar a força do seu controle de refugiados até meados de maio. Se a Grécia não conseguir, postos de controle de fronteira como o de Freilassing podem ser impostos até 2018 ou mais além.

Para grandes empresas que operam pela Europa, o efeito tem sido administrável até agora.

O grupo sueco de móveis Ikea disse que os controles de fronteira ainda não atrapalharam seu comércio na Europa, porque vem trabalhando junto às empresas de transporte para garantir as entregas.

A Amazon, que possui 29 centros na União Europeia, está pronta para garantir que suas operações continuem “independentemente de fatores externos”, afirma Roy Perticucci, vice-presidente dos negócios europeus da empresa.

Mas, em muitos cantos da Europa, as checagens já estão tendo um resultado custoso. Na ponte Oresund, de quase 13 quilômetros, por onde passam caminhões, carros e trens entre a Suécia e a Dinamarca, mais de 15 mil pessoas agora precisam se submeter a dois controles de identificação todos os dias, porque os dois países estão exigindo inspeções nas fronteiras.

Os atrasos estão custando à Danish Rail, conhecida como DSB, € 1,2 milhão por mês em perdas de negócios porque os trens estão sendo cancelados já que as pessoas preferem ir de carro, explica Tony Bispeskov, porta-voz da empresa.

Na Alemanha, na fronteira perto de Freilassing, a polícia diz que está trabalhando no limite do dano.

— Não temos interesse em causar imensos atrasos — afirma Rainer Scharf, porta-voz da polícia.

No posto de controle de linha única, os oficiais deixam passar caminhões que possuem adesivos de inspeção da Áustria, mas param os veículos que contém “pessoas que parecem árabes”, avisa Scharf.

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