IBGE vai calcular consumo de água cada atividade, produto e pessoa

RIO – O Brasil concentra 13% de toda a água doce do planeta. A nossa reserva soma 1,248 trilhão de metros cúbicos de água em reservatórios superficiais e aquíferos subterrâneos. A partir do segundo semestre, vamos saber quanto cada atividade econômica, cada produto, cada pessoa consome desse estoque de água, no mais ambicioso projeto que o IBGE desenvolve, ao completar 80 anos — marco alcançado hoje. As chamadas contas ambientais, que envolvem ainda fazer o mesmo cálculo para energia, florestas e uso da terra, são os próximos passos desse projeto.

— Vamos dizer quanto se usa de água para cada tonelada de aço produzida, para cada bovino criado, o consumo humano. Este ano estamos trabalhando para ter esse fluxo físico. O próximo passo é dar valor a esse consumo e criar uma conta satélite e depois integrá-la ao PIB — anunciou Wasmália Bivar, presidente do IBGE.

No país que viveu sua pior crise hídrica das últimas oito décadas, que secou as torneiras em São Paulo e fez a conta de luz aumentar cerca de 50% em um ano, essa informação é valiosa para conseguir estabelecer um ranking dos maiores consumidores e racionalizar o uso do recurso. Ao contabilizarmos o custo dessa água na nossa produção, nosso Produto Interno Bruto (PIB) vai ser maior? David Montero, coordenador de Recursos Naturais do IBGE, diz que não é possível saber ainda:

— Não se pode afirmar que uma redução nos estoques de recursos naturais acarrete necessariamente uma queda no nível do PIB. Mas pode-se dizer que um determinado nível do PIB pode ser alcançado com maior ou menor uso de recursos naturais, remetendo-se, assim, a um conceito de eficiência ambiental da economia.

Segundo Montero, as Nações Unidas estabeleceram em 2012 a forma de calcular as contas ambientais. Há quatro anos, IBGE e Agência Nacional de Águas (ANA) trabalham para saber o quanto vale a água, e quanto cada setor e produto usa do recurso natural:

— Estamos na vanguarda. Austrália, Colômbia, Canadá também estão avançando, mas são poucos os países que estão no mesmo estágio do Brasil. Essas contas vão ensejar uma série de estudos sobre o uso e custo da água. A sociedade poderá encarar a sustentabilidade como um todo, dar um valor. Quanto custou o acidente na barragem de Mariana? Quanto custou aquela perda? É uma nova ótica de enxergar a atividade econômica.

TECNOLOGIA E ESTATÍSTICA

O IBGE também se depara com o desafio de incluir o avanço rápido das inovações tecnológicas nas estatísticas, que tradicionalmente caminham muito lentamente. Uber, Airbnb, carros compartilhados, trabalho remoto. Como calcular o peso desses serviços no PIB? E de que maneira? A discussão é em nível mundial, de acordo com Roberto Olinto, diretor de Pesquisas do instituto, quem coordenou o cálculo do PIB por nove anos.

— O Uber é um serviço, um aluguel? Como vamos classificar esse aplicativo? A produção desses serviços entra no agregado das Contas Nacionais, mas não conseguimos detalhar. O que é importante para saber que peso tem na economia e ver a sua tendência.

Segundo Wasmália, a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), que detalha o consumo das famílias e suas finanças, pode começar a mapear os novos serviços. A pesquisa vai a campo este ano e no próximo. Todo consumo de produto e serviço e as contas das famílias são acompanhadas nesse levantamento que atualiza os índices de inflação:

— É uma questão do mundo inteiro. Na POF, tudo o que a família paga, registramos. Perguntamos o que consumiu e onde.

Pedro Luis do Nascimento Silva, primeiro brasileiro a presidir o Instituto Internacional de Estatística, afirmou que “esse é o tema da moda da comunidade internacional de estatísticas oficiais”. A quantidade de informações armazenadas na internet, o chamado Big Data, permite obter um volume muito grande de dados, monitoramento em tempo real e acesso inédito a vários temas:

— Essas fontes novas de informação têm nos desafiado a pensar em como podemos tirar proveito desses dados para fazer melhor o que fazemos.

Os países escandinavos já começam a usar algumas ferramentas para monitorar as migrações. Pelo celular, conseguem identificar o movimento de ida e volta ao trabalho e de turismo nas fronteiras, segundo Lima:

— Mas ninguém conseguiu ainda exemplos seguros de abandono de suas fontes tradicionais por fontes novas. Há o uso combinado.

AS CRISES DO INSTITUTO

Há outros obstáculos, como sigilo estatístico, regularidade e gratuidade das informações. Lima dá um exemplo. A Google liberou informações sobre preços nas transações virtuais para montar um índice:

— Mas, para fazer isso, não se pode considerar somente o ambiente virtual. É necessário combinar essas fontes com as convencionais.

Um contrato de longo prazo é necessário para que os dados possam ser usados, estabelecendo que a fonte continuará disponível.

— Não podemos abandonar as fontes convencionais para passar a usar as oferecidas pelos grandes bancos de dados sem um contrato de prazo longo. E se, mais adiante, a Google resolve cobrar pelas informações. Temos de preservar a qualidade e a permanência das fontes, o acesso, a privacidade, os protocolos. Há um aparato de procedimentos para proteger o sigilo das informações. Mas está havendo uma atividade intensa de pesquisa para incorporar esses bancos de dados e novas tecnologias — explicou Lima.

O instituto é presidido há 13 anos por funcionários de carreira, mas sem conseguir autonomia. Ainda é uma repartição vinculada ao Ministério do Planejamento. O IBGE viveu crises agudas nos últimos anos. Greves em 2014 e 2015 prejudicaram a divulgação de indicadores de emprego. O corpo de coordenadores ameaçou se demitir quando Wasmália suspendeu divulgações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, em pleno ano eleitoral, para dar conta do pleito de senadores. A presidente voltou atrás na decisão. Outra crise se instalou quando um erro na base da Pnad, o principal levantamento socioeconômico do país, comprometeu todos os resultados. Mas a comunidade acadêmica saiu em defesa do instituto.

— Errar, todo mundo erra. Certas ou erradas, as decisões que nós tomamos ficaram marcadas como decisões estritamente de caráter técnico. Acho que o IBGE saiu fortalecido desses episódios — afirmou Wasmália.

ver mais notícias