Hotel Santa Teresa ganha sócio e novo sotaque francês

RIO – O grupo francês AccorHotels, um dos maiores do mundo, é um dos novos donos do Hotel Santa Teresa, famoso por ter hospedado a cantora britânica Amy Winehouse em sua única passagem pelo Brasil. Assim, o espaço — com 44 quartos e diárias a partir de R$ 1,8 mil —, que era administrado pela também francesa Relais & Château, vai receber a bandeira de luxo MGallery by Sofitel. E o investimento não para aí: a 100 metros dali, a Accor vai inaugurar um segundo hotel no boêmio bairro carioca, com outra marca de luxo de seu portfólio. O Mama Shelter, com 60 quartos, terá diárias a partir de US$ 120 (em torno de R$ 450).

Somente nessas duas unidades, a AccorHotels projeta investimentos de R$ 100 milhões. O agora MGallery Santa Teresa vai receber R$ 30 milhões em um projeto de revitalização. O restante, R$ 70 milhões, será destinado à construção do primeiro Mama Shelter da América do Sul, projetado pelo designer Philippe Starck — o mesmo do Hotel Fasano, em Ipanema, no Rio. O Mama Shelter, considerado um dos mais hipsters de Paris, vai ocupar um espaço que abrigava antigos casarões e deverá ser inaugurado já em maio, a tempo de hospedar quem vem para os Jogos Olímpicos do Rio, em agosto.

— Queríamos muito trazer essas duas marcas para o Brasil e encontramos em Santa Teresa a oportunidade ideal. O estilo do bairro se assemelha bastante a Montmartre, em Paris, devido ao grande número de artistas que possuem ateliê e residem no local — disse ao GLOBO Patrick Mendes, presidente da AccorHotels na América do Sul, destacando que o Rio foi a cidade que mais recebeu investimentos do grupo em 2015. — E, em 2016, o Rio também recebe o maior investimento a nível mundial.

Para especialistas do setor, o investimento da Accor no Rio no segmento de hotéis cinco estrelas ocorre de olho nas Olimpíadas e promete acirrar a concorrência no segmento sofisticado, sobretudo com os hotéis Copacabana Palace e Fasano, cujas diárias também começam em R$ 1,8 mil. François Delort, sócio e fundador do Hotel Santa Teresa, explica que o grupo Accor entrou como sócio do fundo de investimento Luminar Participação, dono de 100% do hotel. Ele conta que as negociações começaram no ano passado e ressalta que o Brasil vai abrigar o primeiro MGallery do Brasil e o segundo da América do Sul. A bandeira já está presente em Buenos Aires.

— O grupo Accor entra como sócio para dar uma nova amplitude ao projeto e tocar a gestão do hotel com uma nova bandeira. Serão feitas reformas e o desenvolvimento de novas parcerias. Essa parceria vai dar mais infraestrutura ao projeto — destacou François.

Apesar da nova bandeira, o hotel não vai perder o Térèze, restaurante comandado pelo chef argentino Pablo Ferreyra, nem o lounge bar dos Descasados. O Mama Shelter também contará com restaurante e bar, mas os detalhes estão guardados a sete chaves. Ao todo, o empreendimento deve gerar 85 empregos diretos.

Segundo Alexandre Sampaio, presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA), o investimento mostra que o Rio, apesar da atual crise econômica, é capaz de atrair investimentos internacionais e que o setor hoteleiro não se resume à Barra da Tijuca. O bairro, na Zona Oeste do Rio, recebeu uma série de novos investimentos nos últimos anos, com a chegada de bandeiras dos grupos americanos Global Hyatt Corporation e Hilton.

— O foco do grupo francês em Santa Teresa é o estilo de vida do local. Há toda uma proposta cultural. Os problemas de segurança e transporte envolvendo o bairro acabam se refletindo nos preços baixos dos terrenos. Mas, ao mesmo tempo, esses empreendimentos mostram que o grupo acredita na recuperação dos investimentos em segurança na cidade a médio prazo — destacou Sampaio.

INVESTIMENTO DE R$ 800 MILHÕES ATÉ 2020 NO RIO

Mas o investimento da Accor em Santa Teresa não é isolado. Após abrir 27 hotéis em 2015 no Brasil, dos quais seis no Rio, o grupo pretende inaugurar até seis espaços na cidade este ano. Com 234 hotéis em operação no Brasil — 27 no Rio —, a rede pretende abrir mais 20 unidades no Estado do Rio até 2020, o que deve gerar um investimento (o que inclui aporte da AccorHotels e de seus investidores e parceiros) de cerca de R$ 800 milhões.

— Com isso, vamos chegar a 50 hotéis no Estado do Rio. Já estão previstas unidades em Niterói, Petrópolis, Volta Redonda, Macaé, entre outras. O foco são hotéis em cidades com mais de 100 mil habitantes. Nossa estratégia é desenvolver todas as marcas do grupo no Rio. Mas sabemos que vamos ter de dois a três anos de superoferta, como na Barra da Tijuca. Os próximos dois anos serão complicados. A demanda é preocupante. Mas estamos habituados a isso. O desafio é promover o Rio como destino depois das Olimpíadas — disse Mendes.

Apesar dos investimentos, o grupo apresentou no ano passado uma retração de 5,8% no volume de negócios no Brasil, queda superior à registrada na América do Sul, de 2,9%. Mendes, porém, ressalta que o número foi melhor que a retração entre 15% e 20% registrada pelo mercado brasileiro como um todo. Ele atribuiu o resultado à estratégia de reforçar o time de vendedores — são mais de 200 — para aumentar o número de acordos comerciais com agências de viagens e empresas:

— Apesar do difícil cenário político e econômico em que o Brasil se encontra, temos resistido e buscado soluções para assegurar o crescimento. O ano de 2016 será de muitos desafios.

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