Guinada argentina traz alento para empresariado brasileiro

BUENOS AIRES e BRASÍLIA – A Argentina se tornou “a queridinha” da vez. País que até recentemente estava com a economia em frangalhos e sem acesso ao crédito internacional, agora ressurge como possível tábua de salvação para as vendas brasileiras de manufaturados. Com indicadores econômicos começando a melhorar, a expectativa é de aumento do consumo, o que pode beneficiar as exportações brasileiras. De olho nesse mercado, empresários paulistas já programam uma visita ao país vizinho no segundo semestre.

– Nossa expectativa é que a Argentina tenha um crescimento econômico que se transforme em importações. O mundo todo hoje passou a ver os vizinhos como um grande mercado – afirma José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Para Dante Sica, economista e ex-secretário da Indústria, diretor da consultoria Abeceb, se o momento da relação bilateral entre brasileiros e argentinos fosse um filme, o título seria “Redescobrindo a Argentina”. Sica viaja ao menos cinco vezes por ano ao Brasil onde se reúne com empresários:

– Em minha última viagem, em março, me senti o cara mais invejado do planeta. Em reuniões onde antes iam cinco empresários encontrei 60. Para o empresário brasileiro, nada é mais importante que seu próprio mercado. Mas esse mercado está em crise e, nesse contexto, ele voltou a descobrir a Argentina. Não seremos a tábua de salvação de ninguém, mas com certeza este ano a tendência de queda do comércio vai se reverter, junto com a de retração de nossa economia.

A reativação do vínculo bilateral, na visão dos argentinos, significará, também, a chegada de investimentos brasileiros ao país. A equação é simples: o Brasil quer aumentar suas exportações para o mercado argentino e a Argentina quer mais investimentos brasileiros.

Macri está, gradualmente, abrindo a economia argentina, eliminando barreiras a importações, retornando aos mercados internacionais. No Fórum Econômico Mundial de Davos, em fevereiro, o presidente argentino foi um dos destaques, junto com o premier do Canadá, Justin Trudeau. Desde a eleição, Macri já recebeu o premier da Itália, Matteo Renzi, o presidente da França, François Hollande, e, na semana passada, o presidente dos EUA, Barack Obama. Na ocasião, Obama chegou a declarar que Macri deve ser um exemplo para a região.

O contraste com o Brasil é gritante: governo novo, mudança de perfil político, acordo com os “fundos abutres” e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Enquanto isso, o Brasil amarga uma profunda crise político-econômica.

Para Carlos Abijaodi, diretor de Desenvolvimento Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), ainda há muito a fazer para que a Argentina se recupere. Mas há um ambiente novo para o setor empresarial, trazido por uma equipe de governo que, a seu ver, busca o diálogo com o setor privado.

– Isso pode ajudar o Brasil, que precisa de parceiros fortes para conseguir se recuperar neste período em que a indústria está debilitada e com poucas perspectivas.

Rubens Barbosa, presidente do Instituto de Relações Internacionais e de Comércio Exterior (Irice), esteve semana passada em Buenos Aires. Conversou com representantes do governo e dos empresários e percebeu que o clima é positivo. Contudo, avalia que a recuperação deve demorar um pouco:

– Apesar das dificuldades, o que aconteceu na Argentina foi a volta da confiança. As palavras-chave são confiança no novo governo e credibilidade das políticas que forem implementadas.

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