Exportações para regiões apontadas como prioritárias pelo ministro José Serra caíram até 28% em 2015

BRASÍLIA E BUENOS AIRES – Ao assumir o cargo de ministro das Relações Exteriores há pouco menos de um mês, José Serra anunciou que dará início a um acelerado processo de negociações comerciais, para abrir mercados para as exportações e gerar empregos para os brasileiros, que hoje sofrem com os níveis elevados de desemprego. Avisou que a ação diplomática de curto prazo seria com a Argentina, primeiro país que reconheceu oficialmente o governo Temer. Além do mercado argentino, ele citou como países prioritários os da Aliança do Pacífico (Colômbia, Peru, Chile e México) e da União Europeia, os Estados Unidos, a China, o Japão, a Índia, a África e o Mundo Árabe.

Um levantamento preliminar feito pelo GLOBO mostra que, com pouquíssimas exceções, como as nações sul-africanas, que apresentaram uma pequena alta de 8,6%, houve queda nas vendas brasileiras, entre 2014 e 2015, para todos os mercados citados pelo novo ministro. Nos embarques para a China e os Estados Unidos, principais parceiros comerciais do Brasil, houve reduções de 12,3% e 11% em 2015, em relação ao ano anterior. Para a Índia — país que tem um acordo de livre comércio com o Mercosul para cerca de mil itens — foi registrada uma queda de 24%.

A lista de mercados não é nova. Serra vai trabalhar com os países já mapeados pelo governo anterior. Segundo uma fonte diplomática, “é uma questão matemática. Não dá para fugir da realidade”. Além dos mercados citados pelo chanceler em seu discurso de posse, a área diplomática também tem em seu radar mercados que ou já firmaram ou estão em vias de firmar acordos com o Mercosul, entre os quais Israel, Palestina, Marrocos, Conselho de Cooperação do Golfo, Canadá, Paquistão, Jordânia, Turquia, Rússia, Austrália, Nova Zelândia, Cingapura e República da Coreia.

OPORTUNIDADE NA ARGENTINA

Sobre a África, Serra afirmou que a relação não poderá mais se restringir “a laços fraternos do passado e às correspondências culturais, mas, sobretudo, forjar parcerias concretas no presente e para o futuro”. Ele levou essa mensagem às autoridades de Cabo Verde, em sua segunda visita oficial.

— É claro que queremos vender mais para os africanos. A região está em desenvolvimento — disse um graduado embaixador brasileiro.

Em países como Argentina, Colômbia e Chile, economistas locais acreditam que existe espaço nos respectivos mercados para ampliar a presença de produtos brasileiros. No entanto, nos três casos, os analistas consultados pelo GLOBO alertaram que, para intensificar o comércio entre o Brasil e seus países, é necessário que todos reativem suas economias e saiam da etapa de desaceleração e, no caso da Argentina, recessão em que estão mergulhados.

Em sua recente visita a Buenos Aires, Serra conversou com autoridades locais sobre a necessidade, para ambos os países, de interromper a tendência decrescente do comércio bilateral. Brasil e Argentina atravessam uma delicada crise econômica e, enquanto isso não for superado, opinou o economista Dante Sica, diretor da empresa de consultoria argentina Abeceb, será difícil devolver o vigor perdido ao comércio entre os dois países.

Em 2011, de acordo com dados da Abeceb, o intercâmbio comercial entre os dois principais sócios do Mercosul atingiu US$ 39,6 bilhões. No ano passado, o montante caiu para US$ 23,083 bilhões, uma retração de 42%. A Argentina continua sendo um importante sócio comercial para o Brasil, mas a relação entre ambos passa por um momento difícil em termos comerciais.

— O Brasil quer a mesma coisa que nós queremos, fortalecer nossas exportações. Mas para isso, ambos precisam crescer — disse Sica.

O economista acredita que a mudança de governo na Argentina favorecerá o comércio entre os países da região.

— O governo Macri promove uma maior abertura da economia e aplica uma política comercial compatível com as normas da Organização Mundial de Comércio (OMC) — apontou Sica.

RECESSÃO É BARREIRA

Já os governos Kirchner, lembrou o economista, “não priorizou negociações comerciais e sim interesses políticos”.

— O que preocupa atualmente os empresários argentinos é a dificuldade de acesso ao mercado brasileiro — assegurou Sica.

No caso da Colômbia, o comércio bilateral é bem menor. Hoje o Brasil representa apenas 4,5% das importações que entram anualmente ao mercado colombiano, percentual que, na visão do economista Ricardo Avila, diretor do jornal Portafolio, principal diário econômico do país, “poderia crescer, principalmente no setor automobilístico”.

— Existe a intenção entre os dois países de que a Colômbia importe até 20 mil automóveis por ano do Brasil, isso já foi conversado, mas ainda não saiu do papel — comentou Avila.

Para ele, o problema até agora era o custo dos produtos brasileiros, muito alto:

— Hoje vejo como isso poderia melhorar. Nossos principais sócios na região são México, Equador e Chile. O potencial no caso do Brasil é enorme, principalmente para a compra de manufaturas e automóveis.

Ele destacou, como Sica, a desaceleração da economia como principal obstáculo para que o governo interino de Michel Temer consiga ampliar a presença do Brasil no mercado local:

— Somente nos primeiros meses deste ano, as importações recuaram 25% .

A participação das importações brasileiras no Chile é atualmente de 7,8%, um pouco acima do percentual colombiano. A grande maioria (em torno de 70%) é de produtos energéticos (petróleo e outros combustíveis).

— Poderia existir espaço para aumentar as compras de bens industriais como veículos e maquinaria, nos quais o Brasil tem uma vantagem comparativa em termos de produção. No entanto, para isso, será necessário que o crescimento e os investimentos se recuperem no Chile, o que poderia demorar algum tempo — afirmou Miguel Ricaurte, economista chefe do Itaú CorpBanca.

*Correspondente

ver mais notícias