Demanda por etanol dá sinais de força em meio à crise

SÃO PAULO – A crise econômica pode estar beneficiando os produtores de etanol, um dos setores que mais sofreram nos últimos anos. Isso porque os motoristas têm preferido abastecer seus carros com etanol mesmo quando o desconto em relação à gasolina é menor do que o necessário para compensar o menor rendimento do combustível feito da cana-de-açúcar.

Normalmente, os motoristas escolhem o etanol quando seu preço equivale a, no máximo, 70% da gasolina – acima desse ponto, o preço da gasolina por quilômetro rodado passa a ser mais vantajoso para o consumidor. Desde novembro, essa relação tem se mantido acima dos 72%, chegando a 75% em janeiro, ante 66%, em média, um ano antes.

Mesmo assim, as vendas de etanol hidratado pelos distribuidores de combustíveis entre novembro e janeiro foram 10% maiores que no mesmo período do ano passado. No mesmo período, as vendas de gasolina encolheram 9,3%, de acordo com os últimos dados da Agência Nacional do Petróleo. Em janeiro, as vendas de etanol recuaram 3,2%, um resultado ainda expressivo diante da queda de 13,9% nas vendas de gasolina.

Analistas afirmam que, com a economia em recessão e uma inflação superior a 10%, os consumidores tem feito a opção pelo combustível que representa o menor gasto em termos absolutos, ainda que a gasolina ofereça uma melhor relação entre custo e benefício. No final das contas, o desconto de quase R$ 1 por litro faz a diferença.

— A ideia de que os consumidores migrariam de volta para a gasolina simplesmente não está se concretizando — disse Martinho Ono, CEO da corretora SCA Etanol do Brasil. — O consumidor está raciocinando como quem vai ao supermercado e escolhe o produto mais barato da gôndula. Em uma situação difícil como a atual, essa percepção de economia acaba predominando sobre a racionalidade econômica.

Nos últimos 12 meses, as vendas de etanol cresceram 36%, atingindo o recorde de 17,8 bilhões de litros. O aumento dos impostos sobre a gasolina e os reajustes aplicados pela Petrobras tornaram o etanol atraente durante boa parte do ano. O preço do biocombustível caiu a 60% do da gasolina durante o pico de produção, em agosto, um movimento que impulsionou a demanda e ajudou a esgotar os estoques herdados do ano anterior.

Plínio Nastari, presidente da consultoria Datagro, estima que os estoques de etanol hidratado no fim da safra 2015/16 (que se encerra em março) devem somar não mais do que 300 milhões de litros, ante 1,2 bilhão de litros um ano antes, em meio a um consumo “surpreendentemente resiliente”.

A demanda recorde vem ajudando as usinas a se recuperar dos anos de vacas magras. Com um aumento de 85% na receita com as vendas de etanol, a Biosev, segunda maior produtora do Brasil, reportou lucro líquido no trimestre em dezembro, o primeiro após oito prejuízos trimestrais consecutivos. A concorrente São Martinho mais do que dobrou o faturamento com etanol no mesmo período, registrando um lucro recorde para o período.

Em meio à melhora das perspectivas para o setor, as ações da São Martinho subiram 36% nos últimos 12 meses, ante uma queda de 16% do Ibovespa. Os analistas consultados pela Bloomberg esperam que o lucro líquido ajustado da companhia tenha um crescimento de 48% no próximo ano fiscal, que se inicia em abril, após um aumento de 13% no atual. A Biosev acumula valorização de 16% em 12 meses, e os analistas estimam que a companhia vai reportar seu primeiro lucro anual desde 2011 no ano fiscal de 2016/17.

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