Das cinzas do Lehman, fundo brasileiro dá retorno de 115% ao ano

SÃO PAULO – Em 2014, a Jive Investments Holding — que comprou o portfólio brasileiro do Lehman — estava batendo nas portas dos hedge funds dos EUA tentando formar uma parceria para investir em ativos brasileiros distressed. Atualmente, a Jive é a maior compradora independente de ativos distressed no Brasil e aqueles mesmos fundos que ignoraram a chance de se unir a ela estão caçando oportunidades, disse Guilherme Ferreira, cofundador da Jive. Segundo ele, a empresa entregou retornos de mais de 115% a seus investidores em cada um dos últimos cinco anos.

— Eles não estavam interessados em vir para cá — afirmou Ferreira, de 37 anos. Simplesmente porque o mercado era pequeno demais.

Ferreira preferiu não identificar as empresas, mas disse que o motivo por trás da mudança de atitude é óbvio: a inadimplência está aumentando em meio à pior recessão do Brasil em um século, levando os bancos a se livrarem de empréstimos inadimplentes em troca de centavos de dólares.

— O Brasil todo está distressed — disse Ferreira. — Coisas que não pareciam estar com problemas de repente estão. Investimentos que antes eram considerados de grau de investimento passaram a ter yield alto.

A Bloomberg não conseguiu confirmar os 115% fe forma independente. Em agosto, a Jive fechou o tipo de acordo que vinha buscando durante todos aqueles anos passados, captando R$ 500 milhões (US$ 138 milhões) dos clientes de private-banking do Credit Suisse, segundo comunicados de ambas as empresas.

Fundos de ativos distressed como a Jive adquirem portfólios de crédito com descontos agressivos, normalmente de grandes bancos, e depois lucram recolhendo os empréstimos, renegociando com os mutuários ou reacondicionando a dívida e emitindo títulos.

A Jive comprou o portfólio brasileiro do Lehman — cujo valor nominal era de R$ 816 milhões — por apenas R$ 27 milhões em uma venda aprovada pela Justiça, em 2010, disse Ferreira. A empresa já coletou 16% do principal e está em busca de 30 %, ou cerca de R$ 244 milhões nos próximos cinco anos, disse ele.

Com a maioria dos economistas dizendo que o Brasil não está nem perto de deixar a recessão para trás, a Jive estima que os bancos poderiam manter R$ 400 bilhões em empréstimos inadimplentes. Em 2014, os compradores dessa dívida fecharam acordos com um valor nominal de R$ 15 bilhões, disse Ferreira. A Jive planeja ampliar sua folha de pagamento para 85 funcionários até o fim do ano, contra 67 atualmente, para atacar mais dívidas distressed e expandir para o ramo de private equity. A empresa também está negociando passivos dos estados e estudando o setor imobiliário.

A economia brasileira deverá encolher 3,5% em 2016, segundo uma pesquisa do Banco Central, após uma contração de 3,8% no ano passado. Enquanto isso, a inflação anual está acima dos 10% e a taxa de desemprego nas seis maiores áreas metropolitanas do Brasil aumentou para 7,6 %, contra 4,3% no início do ano passado, mostram dados compilados pela Bloomberg.

Tudo isso está dificultando a vida de consumidores e empresas na hora de pagar as contas. As taxas de inadimplência pessoal subiram para 6,2% em janeiro, contra 5,3% um ano antes, segundo o BC. E o número de empresas que pediram recuperação judicial nos dois primeiros meses do ano duplicou, segundo a Serasa Experian, empresa de classificação de crédito com sede em São Paulo.

Em fevereiro, a Jive adquiriu um portfólio avaliado em R$ 2,2 bilhões do Itaú Unibanco Holding, maior banco da América Latina em valor de mercado, segundo três pessoas familiarizadas com a transação que pediram anonimato porque não estão autorizadas a falar publicamente sobre o assunto.

— De um dia para o outro o Brasil se transformou em uma enorme oportunidade para os compradores de ativos distressed — disse Ferreira. “Bancos que nunca pensaram em vender portfólios de crédito agora estão vendendo”.

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