Dólar fecha em R$ 3,30, menor valor em 11 meses; Bolsa sobe 1,5% e volta aos 50 mil pontos

RIO – Depois de a onda de pessimismo com o Brexit ter levado as Bolsas do mundo todo a perderem de US$ 3,64 trilhões em dois pregões, os mercados tiveram nesta terça-feira um dia de correção de preços e expectativa sobre possível ação conjunta de bancos centrais para fortalecer o sistema financeiro. Na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), o índice de referência Ibovespa avançou 1,55%, aos 50.006 pontos. No câmbio, o dólar comercial fechou em queda de 2,62% contra o real, a R$ 3,306 para a venda, acompanhando a tendência global e reagindo à fala do novo presidente do Banco Central (BC) se comprometendo a trazer a inflação para o centro da meta em 2017. Foi o menor valor para fechamento desde 23 de julho de 2015. Na mínima da sessão, atingiu R$ 3,302.

Na Europa, onde alguns índices acumularam desvalorização superior a 10% desde sexta-feira, quando o Reino Unido decidiu abandonar a União Europeia (UE), as Bolsas subiram todas mais de 2%. O índice de referência do continente, o Euro Stoxx 50, teve valorização de 2,27%, enquanto a Bolsa de Londres avançou 2,64%. Em Paris, a alta foi de 2,61%, e em Frankfurt, de 1,93%. Em Wall Street, o Dow Jones subiu 1,57%, e o S&P 500 registrou alta de 1,78%. O Nasdaq ganhou 2,12%.

— O mercado está acompanhando a tendência global, que tem pregão de recuperação. Existe uma expectativa de que haja injeção de liquidez por parte dos bancos centrais, mas o movimento de hoje parece ser mesmo de correção de preços. Enquanto o mercado não entender melhor as implicações do Brexit, vamos vivenciar um período de grande volatilidade — afirmou Ricardo Zeno, sócio-diretor da AZ Investimentos.

Durante o dia, bancos centrais emitiram sinais de que estão dispostos a dar apoio à economia. O Banco da Inglaterra injetou 3,1 bilhões de libras no sistema bancário do Reino Unido. Três leilões especiais, nos quais os BC inglês disponibilizou fundos extras para os bancos, estavam programados para datas próximas do referendo para escorar o sistema financeiro. O montante liberado desta terça representa o último dos leilões extras anunciados pela instituição em março deste ano. Já o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, disse a líderes da UE que os BCs em todo o mundo deveriam alinhar suas políticas monetárias para ajudar a impedir “contágios desestabilizadores” entre economias que crescem a diferentes ritmos.

ILAN DERRUBA DÓLAR

Com o clima de correção de preços, o dólar caiu 0,52% contra uma cesta de dez moedas. Contra o real, porém, a divisa americana aprofundou a baixa depois da fala do novo presidente do BC, Ilan Goldfajn, que disse que o BC fará o que for preciso para alcançar o centro da meta no ano que vem. Ele classificou a meta de de “ambiciosa e crível ao mesmo tempo”.

— Temos condições de atingir o centro da meta em 2017. Muito se falou em metas ajustadas. Já nao parece ser esse caso o momento — observou Goldfajn.

O real foi a segunda moeda que mais se valorizou no mundo hoje, contra o real, atrás apenas do peso argentino. Mas praticamente todas as moedas de países emergentes tiveram comportamento semelhante. Para Paulo Gomes, economista-chefe da Azimut, a postura de Goldfajn é uma sinalização positiva para o fluxo de investimento para o Brasil no futuro, e por isso o dólar cai.

— Ele sinalizou que o objetivo de trazer a inflação para o centro da meta em 2017 é crível, deixando em aberto a possibilidade de os juros ficarem mais altos por mais tempo. Isso significa mais fluxo de investimento para Brasil, já que nosso diferencial de juros na comparação com outros mercados permanecerá alto. Sobretudo depois de o Brexit, que deve fazer com que os EUA posterguem a elevação dos seus juros — explicou.

No mercado de juros, os investidores já repercutiam pela manhã o Relatório Trimestral de Inflação (RTI), divulgado nesta terça-feira pelo BC. A interpretação dos analistas é que, ao afirmar que “decisões futuras de política monetária serão tomadas, com vistas a assegurar a convergência da inflação para a meta de 4,5%” no fim do ano que vem, o BC indicou que está longe de reduzir a taxa básica de juros, a Selic, hoje em 14,25% ao ano.

O contrato DI com vencimento em janeiro de 2017 sobe de 13,65% para 13,78% — o número reflete a expectativa dos investidores sobre o nível da Selic naquele período. Se o BC vai manter os juros mais apertados por mais tempo, os investidores acreditam que, no longo prazo, há mais espaço para a taxa cair. Por isso o DI que vencerá em janeiro de 2023 cai de 12,41% para 12,38%.

“No geral, o RTI foi mais ‘hawkish’ (no jorgão do mercado, posicionamento mais austero com relação aos juros) do que se esperava tanto por causa a trajetória da inflação projetada não foi particularmente amigável (…) e também porque o BC ainda está determinado a levar a inflação para o centro da meta no fim de 2017″, escreveu Alberto Ramos , economista-chefe para mercados emergentes no banco Goldman Sachs. “Assim, a probabilidade de haver corte de juros na reunião de julho é virtualmente zero, e grande parte da probabilidade de corte em agosto mudou agora para agosto ou depois.”

COMMODITIES E BANCOS PUXAM BOVESPA

No mercado acionário, puxou a alta do Ibovespa o desempenho das empresas ligadas a commodities, favorecidas pela recuperação do preço dos produtos básicos no mercado internacional, que se corrigem depois do tombo com o Brexit. A Petrobras PN avançou 4,78% (R$ 9,20), enquanto a ON teve alta de 4,17% (R$ 11,25), com o ganho de 3,03% no barril do tipo Brent, a US$ 48,59. A Vale ON avançou 4,46%, a R$ 15,46, e a PNA valorizou-se em 4,75%, valendo R$ 12,56, depois de o minério de ferro ter saltado 6,42% na segunda-feira, a US$ 53,86 a tonelada.

Entre os bancos, o Itaú Unibanco PN subiu 3,50% (R$ 28,96), e o Bradesco PN teve alta de 2,47%, por R$ 24,26. O Banco do Brasil ON subiu 2,49%, a R$ 16,03.

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