Dólar fecha em queda, a R$ 3,23, com expectativa de estímulo monetário após Brexit

RIO – A expectativa de que o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) levará a uma nova onda de estímulos monetários no mundo e a percepção de que o Banco Central brasileiro não baixará os juros tão cedo empurra o dólar comercial para abaixo dos R$ 3,30 pela primeira vez em mais de 11 meses nesta quarta-feira. A divisa americana caiu 2,05%, cotada a R$ 3,238 para venda. Foi a menor cotação de fechamento desde 22 de julho (R$ 3,226). Na mínima da sessão de hoje, chegou a valer R$ 3,230. No mercado acionário, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) subiu 1,99%, aos 51.966 pontos.

Foi a segunda queda seguida do dólar, que recuou ontem 2,62%, acompanhando a tendência global e reagindo à fala do novo presidente do Banco Central (BC) se comprometendo a trazer a inflação para o centro da meta em 2017. Depois de a onda de pessimismo com o Brexit ter levado as Bolsas do mundo todo a perderem de US$ 3,64 trilhões em dois pregões, ontem e hoje os mercados operam em correção de preços.

— Até dez dias antes do Brexit, o investidor estrangeiro vinha aumentando sem parar sua posição comprada em dólar na BM&F, chegando a mais de US$ 22 bilhões. Isso justamente por causa do temer de que o Reino Unido decidisse deixar a UE. Assim, os estrangeiros fizeram apostas contra moedas emergentes em escala global, protegendo seus investimentos. Só que o real se comportou muito bem depois que o Brexit se confirmou, até pela agenda positiva da nova equipe econômica do Brasil. E agora, o Brexit está sendo digerido pelo próprio mercado externo. Assim, os estrangeiros está desmontando sua posição em dólar. Ontem mesmo, eles venderam mais de US$ 2 bilhões. Esse movimento, que pode continuar nos próximos dias, joga o dólar para baixo — explicou Leonardo Monoli, sócio da Jive Asset Management.

Mesmo com a queda do dólar abaixo dos R$ 3,30, o BC não tem anunciado intervenções para impedir a valorização acentuada do real, como vinha fazendo por meio de leilões de derivativos (swap cambial reverso) que equivalem à compra de dólares no mercado futuro. Segundo Monoli, a nova equipe da autarquia está mais interessada em extrair os benefícios que o dólar mais fraco proporcionam no combate à inflação do que manter a divisa americana valorizada para ajudar empresas exportadoras:

— Hoje, para o BC, é mais importante que o dólar caia para ajudar na redução da inflação e, consequentemente, permitir que se reduzam os juros.

Em escala global, o dólar caiu 0,46% contra uma cesta de dez moedas. Mas o dólar cai frente às 31 principais divisas do mundo, sobretudo moedas de países emergentes. As que mais se valorizaram foram o rand sul-africano (2,45%) e o peso colombiano (2,25%). O real foi a terceira que mais se fortalece hoje. O índice de moedas emergentes do MSCI subiu 0,66%.

As Bolsas europeias fecharam em forte alta. O índice de referência das ações do continente, o Euro Stoxx 50, avançou 2,66%, enquanto a Bolsa de Londres subiu 3,58%. A Bolsa de Paris valorizou-se em 2,60%, e a de Frankfurt, 1,75%. Em Wall Street, o Dow Jones subiu 1,64%, enquanto o S&P 500 registrou valorização de 1,70%. A Nasdaq subiu 1,86%.

Entre as ações brasileiras, o Itaú Unibanco PN subiu 2,24%, enquanto o Bradesco PN teve alta de 2,41% e o Banco do Brasil ON, de 2,86%. A Ambev teve valorização de 1,44%, enquanto a BRF subiu 3,69%. A Petrobras PN saltou 3,26%, e a ON ganhou 2,84%. A Vale PNA teve alta de 2,46%.

A Estácio subiu 5,43%, e a Ser Educacional avançou 2,86%. A Ser elevou hoje sua proposta para se unir à Estácio de R$ 590 milhões para R$ 1 bilhão.

Um dos destaques negativos da Bolsa foram as ações preferenciais (sem direito a voto) da Gol, que despencaram 7,33% na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), a R$ 3,41. Na mínima do pregão, chegou a recuar 15,49%, atingindo R$ 3,11. A companhia aérea aprofundou a queda depois de o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, dizer que o governo fechou o acordo de vetar o artigo da MP da aviação que eleva o percentual de participação das empresas estrangeiras no setor aéreo para 100% e avisou que o debate será retomado posteriormente, dentro do novo Código Brasileiro de Aeronáutica, em debate no Legislativo. Padilha admitiu que o governo queria aprovar os 100% e, nesse sentido, sai derrotado nessa disputa política.

— O mercado tomou um verdadeiro susto com essa notícia, já que a companhia subiu demais nas últimas semanas com os investidores esperando que ela recebesse um aporte estrangeiro — afirmou Raphael Figueredo, analista da Clear Corretora.

À ESPERA DO SUPORTE

Depois do pessimismo com o Brexit, os investidores passaram a apostar cada vez mais na postergação da alta de juros dos EUA. Como juros mais altos restringem o crédito e, logo, a economia, o Federal Reserve (Fed, BC dos EUA) seguraria as taxas no patamar atual para estimular a atividade nesse momento de incerteza. Também nessa direção, o governo da Coreia do Sul anunciou planos de ampliação dos gastos. Ontem, o Banco da Inglaterra já havia injetou 3,1 bilhões de libras no sistema bancário do Reino Unido, enquanto o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, disse a líderes da UE que os BCs em todo o mundo deveriam alinhar suas políticas monetárias para ajudar a impedir “contágios desestabilizadores” entre economias que crescem a diferentes ritmos.

Por aqui, por sua vez, o discurso de ontem do novo presidente do BC, Ilan Goldfajn — que disse que fará o que for preciso para trazer a inflação ao centro da meta de 4,5% no ano que vem —, fez com que os economistas passassem a esperar que o corte da taxa básica de juros, a Selic, ficará apenas para o ano que vem.

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