Conselho da Petrobras reage à redução de preços

RIO – A informação de que a gestão da Petrobras iria anunciar hoje a redução no preço da gasolina e do diesel, revelada pelo colunista do GLOBO Lauro Jardim, caiu como uma bomba entre os membros do Conselho de Administração (CA) da estatal. De acordo com uma fonte que não quis ser identificada, houve forte reação entre os conselheiros, que não haviam sido informados previamente sobre a decisão. Por isso, passaram todo o domingo trocando mensagens sobre o assunto. O momento de maior tensão ocorreu quando o presidente do Conselho de Administração da Petrobras, Nelson Carvalho, enviou uma mensagem para Aldemir Bendine, presidente da estatal.

Na mensagem, disse essa fonte, Carvalho diz a Bendine que espera que a redução de fato não aconteça e que a queda no preço da gasolina e do diesel pode “macular o capital de credibilidade e de foco no interesse da companhia”. Em outro trecho, Carvalho é ainda mais duro e afirma que não tem “propensão a ser equiparado a presidentes do CA do passado que compactuaram com essa barbaridade”.

— A informação (da queda nos preços) era verdadeira. E o CA reagiu contra. A redução dos preços dos combustíveis está sub judice. A reação dos membros do Conselho de Administração foi violenta e rápida contra a redução. Foi unânime. Os membros não vão admitir isso. Se houver redução, haverá reação. O Conselho de Administração não foi consultado sobre essa decisão. Estão todos revoltados. A questão é que o CA não precisa aprovar, já que os reajustes são considerados atos de gestão — disse a fonte.

FUNDOS COBRAM EXPLICAÇÕES

De acordo com outra fonte, houve reação também de fundos de investimento e investidores institucionais da Petrobras, que cobraram explicações sobre o assunto. A razão é simples: a companhia vem sofrendo com a queda no preço do barril do petróleo no mercado internacional, que reduz a sua geração de caixa, e com o aumento do dólar, que onera seus investimentos e sua dívida. E, de acordo com especialistas, ainda não conseguiu repor todas as perdas dos últimos anos, quando, por decisão de governo, vendia gasolina e diesel no Brasil por um preço inferior ao que pagava pelos combustíveis no exterior. Tudo isso, dizem analistas, para conter a inflação no país — a gasolina, segundo o IBGE, tem peso de 4,1% no IPCA, e o diesel, de 0,15%. Um prejuízo, calcula Adriano Pires, do CBIE, que atingiu R$ 100 bilhões somente no primeiro mandato de Dilma Rousseff.

De acordo com outra fonte a par das negociações, o assunto da redução foi muito discutido na semana passada entre os diretores da estatal. Dentro da Petrobras, quem está liderando as conversas para a redução dos preços dos combustíveis é Jorge Celestino Ramos, diretor de Abastecimento da estatal, que ontem também teria sido procurado por alguns conselheiros.

— A redução deve ser anunciada devido à forte variação cambial, com a alta do dólar frente ao real, e à significativa queda nas vendas dos combustíveis. Enquanto no ano passado a venda dos combustíveis caiu 9%, nos primeiros meses deste ano o recuo já está entre 10% e 11% — ressaltou uma outra fonte.

Se a estatal reduzir os preços dos combustíveis, será a sexta vez que isso ocorre desde que os valores foram liberados, no início dos anos 2000.

Um executivo a par das negociações informou que, nos últimos meses, a gestão da Petrobras chegou a propor aos conselheiros a redução nos preços dos combustíveis, mas eles sempre se mostraram contra. A estatal não quis comentar a notícia sobre a queda nos preços. O GLOBO não conseguiu contato com Nelson Carvalho. Já o Ministério de Minas e Energia afirmou não ter sido informado do assunto e ressaltou que decisões sobre reajustes são da Petrobras.

Segundo Pires, do CBIE, se a redução nos preços dos combustíveis ocorrer, vai demonstrar que o governo continua usando a Petrobras como instrumento político, mesmo após todos os desdobramentos da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal. Para ele, a notícia de uma redução da gasolina parece fazer parte de um pacote de bondades do governo, que não se preocupa com a empresa e não respeita seus acionistas:

— Primeiro veio a bandeira verde nas contas de luz; e agora isso, para reduzir o impacto na inflação e tentar evitar o impeachment, com ações para agradar a população. Até a semana passada, a Petrobras estava vendendo gasolina no Brasil com preços 18% maiores em relação ao mercado internacional, e o diesel com preços 60% maiores. Por ano, essa diferença gera caixa de R$ 150 milhões a R$ 200 milhões, insuficiente para recompor as perdas dos últimos anos.

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