Concentração na distribuição de combustível precisa ser fiscalizada

SÃO PAULO — A compra da rede de postos Ale pela gigante Ipiranga, do Grupo Ultra, vai aumentar a concentração no mercado de distribuição de combustíveis no país, o que exigirá uma atuação mais firme das agências reguladoras do setor. A opinião é de especialistas, que argumentam que essa é a forma de consumidor não ser prejudicado.

Adriano Pires, presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie) cita a importância da “participação próxima” do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) neste primeiro momento de aprovação do negócio e, depois, a Agência Nacional de Petróleo (ANP) para fiscalizar a atuação das empresas.

De acordo com dados da ANP, em março, a participação da Ipiranga na venda nacional de combustíveis foi de 14,6%, e a da Ale chegou a 3,1%. Logo, as duas companhias terão 17,7% do mercado brasileiro; ainda atrás dos 19,7% da BR Distribuidora, da Petrobras.

— Neste mercado, como existe muitos pequenos e médios, mesmo com a concentração maior sempre haverá redes fortes regionalmente — disse Pires, citando o da Equatorial, que atua fortemente na região Norte.

Ricardo Pinto, diretor da Gas Energy, completa que “qualquer aumento de concentração não é bom ao consumidor” e, portanto, é preciso que haja o acompanhamento mais próximo da ANP no setor.

O próximo movimento de consolidação do segmento de distribuição pode ocorrer com a venda da BR pela Petrobras, opção já levantada pela estatal. Sobre esse negócio, lembra que este não é o único ativo da Petrobras que deve ser ofertado no mercado — tem a Liquigaz, de GLP, algumas refinarias, unidades de fertilizantes e termelétricas.

— A empresa precisa de caixa, e essas vendas têm mais um viés econômico financeiro, e menos estratégico. São ativos com bom valor para investidores e que podem ajudar a Petrobras a encontrar o equilíbrio para então focar os investimentos em exploração de petróleo — disse Pinto.

Para Adriano Pires, a venda da BR abre uma oportunidade para estrangeiras voltarem à distribuição de combustíveis. Segundo ele, a francesa Total seria uma possível interessa.

— Tudo depende de como o ativo será vendido. Porque a Petrobras pode também vender 49% da empresa para um fundo de investimentos, por exemplo, e continuar no controle da companhia.

Rating

A S&P Global Ratings informou ontem que os ratings da Ultrapar (BB+/Negativa/–, brAA+/Negativa/–), dona da Ipiranga, não foram afetados pelo anúncio da compra da Ale, por R$ 2,1 bilhões.

“Acreditamos que, se aprovada pelo Cade, a aquisição poderá aumentar a participação de mercado da empresa, particularmente melhorando sua diversificação geográfica, ao expandir sua presença na região nordeste. Esperamos ainda que a Ultrapar seja capaz de capturar sinergias e melhore a eficiência operacional da Ale para níveis similares aos da Ipiranga até o fim de 2019. Esses fatores devem ajudar a fortalecer a posição de negócios da empresa, que, no entanto, deve permanecer satisfatória”, disse a S&P em relatório.

A agência de classificação de risco disse ainda esperar que a aquisição seja concluída em 2017.

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