Como economizar com bichos de estimação

RIO — Há menos de um mês, a publicitária Marcella Aguiar abriga Teo, um spitz alemão de seis meses que a satisfez o sonho antigo da companhia de um animal de estimação. Sem o conhecimento dos pais, ela agora estuda estratégias para não estourar o orçamento com os cuidados ao cachorro — um mercado que considera “absurdo”, bem mais caro que imaginava, do qual ainda não “pegou a manha”. No momento, ela e o pai pesquisam no comércio como equilibrar custo e benefício, uma das principais dicas que O GLOBO apurou para economizar com os bichinhos: a boa e velha caça aos preços, sempre de olho nas ofertas.

Uma das extravagâncias que Marcella já pensa em substituir é o tapete descartável para as necessidades fisiológicas de Teo. Um pacote de 14 unidades, que dura duas semanas, custou à recém-formada R$ 30. Para economizar, vai passar a estender jornal e sair mais para passear com o cachorro — se possível, três vezes ao dia —, para estimulá-lo a se aliviar na rua.

Quanto mais atividade fora, concorda a estudante Anna Prates, dona de três shih tzu, menos sujeira em casa. Já em relação ao banho, a lógica é inversa: o esfregão no próprio banheiro ou em uma área externa de casa é um dos trunfos de quem quer diminuir a fatura do cartão em pet shops.

— Como são três, fica difícil ter economia boa. Mas eu tento reduzir as idas a pet shop ao máximo. Cada mês levamos um para tosar. Só com esse revezamento, economizo uns R$ 150. Em caso de muita necessidade, quando está muito calor, por exemplo, busco uma tosa de metade do preço. No clima frio, só tenho levado o Thor, porque os outros dois não gostam de usar roupinha e precisam do pelo grande para se aquecer — afirma Anna, que ainda mora com a papagaia Malu.

No caso dos gatos, segundo o presidente do Clube Brasileiro do Gato, Gerson Alves, é inclusive “muito melhor” para o bicho. O arquiteto conta que seus 12 felinos têm o nível de estresse reduzido ao se banhar em um ambiente conhecido, em que se sentem seguros. O veterinário Paulo Daniel Leal, da CTI Veterinária, considera a prática válida desde que o proprietário do animal “saiba fazer”:

— É preciso, por exemplo, respeitar os orifícios do bicho, evitar o secador nos olhos, que pode ressecar ou causar lesões de córnea, e usar produtos indicados para animais, não de humanos. O excesso de banho também faz mal. O ideal é a cada 14 dias, em dias secos, de temperatura agradável. Se está frio, não dê banho, faça escovação a seco, passe lenços umedecidos. O animal gosta e fica com a pele limpa — orienta.

Ao aparar as unhas dos animais, é possível ainda economizar na renovação de estofado e no conserto e móveis e cortinas. Mas, para conciliar os cuidados com a golden retriever Nalu e o equilíbrio da economia doméstica, Marília Padovan investe em sacos grandes de ração, cuja manutenção da qualidade exige um local seco e fresco de armazenamento. A ideia é economizar no quilo. Na ponta do lápis, ela explica, vale mais a pena comprar o saco de 15kg de comida a pouco mais de R$ 110 do que gastar quase R$ 50 em um pacote de 3kg de sua marca preferida do ramo superpremium.

A estudante calcula economizar, em média, R$ 50 com a estratégia do alimento, que dura cerca de um mês e meio com duas refeições diárias da cadela. Se o animal de estimação tiver o hábito de comer menos e não valer a pena em termos de validade ou armazenamento, a dica é contatar amigos e vizinhos para rachar os custos de uma compra maior com o benefício da economia. Alves atenta para a possibilidade de trocar a comida empacotada pela cozinha caseira, desde que o dono saiba dosar os nutrientes e balancear a refeição do bicho.

— Há 20 anos, não havia fabricantes de ração como temos hoje, e fazíamos em casa. Para o gato, dávamos sardinha, peixe, que é rico no que ele precisa para a saúde. Não adianta dar macarronada e carne moída para o animal. É preciso estudar a necessidade nutricional dele. A alimentação caseira tem inclusive, no caso dos gatos, a vantagem da presença de água, que ajuda no problema renal crônico deles. Mesmo nos alimentos industrializados, é importante adicionar elementos de umidade — aconselha Alves, que ressalva “o trabalho e o tempo perdido” com a prática.

Leal reitera que a alimentação caseira deve contar com acompanhamento médico-veterinário para garantir o suprimento das demandas do organismo do animal. Uma alimentação equivocada, que inclua temperos e açúcares, por exemplo, pode desenvolver doenças crônicas no pet.

SAÚDE E LAZER

E a melhor forma de economizar com a saúde do bicho, explica Leal, é investir na profilaxia, no tratamento preventivo. O veterinário indica reduzir os produtos de limpeza, o perfume e o tabagismo em contato com o animal para evitar o desenrolar “irreparável” de doenças respiratórias por inalação passiva. Remédios caseiros, ele diz, “nem pensar”: sensíveis a componentes que os humanos não são, cães e gatos podem desenvolver úlcera gástrica e falência renal.

— Infelizmente, apenas produtos de marca patenteada têm eficiência comprovada. Se precisar de remédio, procure um médico. É preciso ficar atento ao controle dos ectoparasitas, como carrapatos e pulgas. A missão é também evitar que o animal seja picado por mosquitos transmissores de doenças. Pode vedar as janelas, comprar coleiras com repelente também. Se a pessoa quis ter um animal, um bem de luxo, é responsabilidade dela arcar com isso. Você não pode ter filhos e não colocar em uma boa escola — compara o profissional.

Visitas de rotina ao veterinário evitam, em geral, gastos mais robustos com doenças já desenvolvidas no organismo do bicho. A frequência aconselhada varia com a idade do animal. Ao passar dos 3 anos, o ideal é fazer o check-up duas vezes ao ano para tratar fatores de risco e possíveis epidemias regionais. Alves considera a saúde um gasto do cotidiano que se reflete na qualidade de vida dos pets. Se inicialmente parece um investimento maior, a longo prazo, ele explica, evita os custos de procedimentos drásticos.

Anna tenta economizar sem prejuízo à tarefa prioritária de vacinar Thor, Bella e Shoyu: planeja as doses de maneira que não caiam no mesmo mês, para não pesar no orçamento mensal. Quando o assunto é lazer, a família economiza ao estimular a atividade em grupo: já que os três gostam de brincar juntos, basta investir em um único brinquedo. Marília, da mesma forma, coloca na balança a personalidade de Nalu na hora de comprar os mimos.

— Adoro agradar a Nalu, então compro sempre. Como é caro, pesquiso bastante nas lojas. Às vezes, consigo encontrar brinquedos legais em lojas de R$ 1,99, até porque sei que ela fica feliz com tudo. Nas lojas especializadas para animais, não compro qualquer coisa, porque ela destrói. Compro o que sei que vai durar, de material mais resistente — ressalta a estudante.

(*Estagiária, sob supervisão de Ana Perrone)

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