Bolsa fecha em alta de 0,5% com política; dólar sobe a R$ 3,68

RIO – Enquanto o dólar fechou em alta contra o real acompanhando o desempenho externo da moeda, o mercado de ações brasileiro se descolou das Bolsas globais e encerrou com valorização. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que chegou a cair mais de 1% pela manhã, avançou 0,56%, aos 49.053 pontos. Segundo analistas, as ações subiram reagindo ao noticiário político mais favorável ao impeachment. Impulsionaram o pregão sobretudo os papéis de Petrobras e Vale.

O dólar comercial avançou 1,76%, cotado a R$ 3,678 para compra e a R$ 3,680 para venda, uma reação à preocupação global com o crescimento após divulgação de dados decepcionantes sobre a economia alemã e à fala cautelosa da chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O dólar subiu hoje 0,25% contra uma cesta de dez moedas, segundo o índice Dollar Spot. O movimento é mais intenso contra divisas de países emergentes: o dólar avança contra 19 de um grupo de 24.

Com o temor de que a oposição não consiga votos suficientes para o impedimento da presidente ou que o julgamento do processo leve mais tempo que o esperado, a Bovespa havia caído 3,52% ontem, aos 48.779 pontos. Já o dólar comercial avançou 1,51%, a R$ 3,615. Hoje, porém, algumas notícias favoreceram o lado contrário.

— A Bovespa abriu acompanhando o mercado lá fora, dominado hoje pelo mau humor. Mas à medida que o pregão foi passando, voltou a ganhar força a expectativa mais favorável ao impeachment — comentou Raphael Figueredo, analista da Clear Corretora. — Isso foi desencadeado pela saída do vice Michel Temer da presidência do PMDB, o que reforça a estratégia do partido para conseguir votos para o impeachment.

O vice-presidente Michel Temer vai se licenciar da presidência do PMDB e dará lugar ao senador Romero Jucá (PMDB-RR), vice-presidente do partido, que assumirá o comando por tempo indeterminado. A decisão foi tomada pelos peemedebistas após a escalada de ataques contra Temer desferidos pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com o afastamento do vice, a cúpula partidária busca resguardá-lo, já que o PMDB avalia que é necessário subir o tom no contra-ataque ao ex-presidente.

Também hoje, o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), abra processo de impeachment contra o vice-presidente, Michel Temer e, em seguida, envie o caso a uma Comissão Especial para análise dos deputados. A decisão foi tomada em caráter liminar (provisório) e ainda pode ser modificada pelo plenário da Corte. Não há previsão de quando o colegiado analisará a questão. Cunha, porém, avisou que a Câmara vai recorrer da decisão do ministro.

Segundo analisou Rogério Freitas, sócio na Teórica Investimentos, o saldo do dia é “na margem, favorável para o impeachment”, e pode ter ajudado a Bolsa. Mas ele acrescentou que não há, por enquanto, qualquer definição sobre o resultado do processo de impeachment.

— O mercado no Brasil opera em função do dia 18, quando termina o prazo para a Câmara votar o impeachment. Daqui até lá, o mercado vai ser sempre de nervosismo e ansiedade. Não há nenhum evento previsto daqui até lá que solidifique qualquer um dos dois cenários possíveis, a votação está muito apertada. Hoje, pode ser que, na margem, o noticiário tenha favorecido os partidários do impeachment. Mas há muito ruído — explicou.

PETROBRAS SE RECUPERA

Depois de terem despencado mais de 9% na segunda com a notícia de que estava prestes a anunciar corte no preço dos combustíveis, os papéis da Petrobras operam em alta. A Petrobras ON avançou 2,29% (R$ 9,82), enquanto a PN teve alta de 3,30% (R$ 7,83).

Ontem, após forte reação dos membros do Conselho de Administração da estatal, a direção da Petrobras voltou atrás e decidiu que não vai mais reduzir os preços da gasolina e do diesel no curto prazo. Os conselheiros haviam classificado a queda nos preços dos combustíveis como “barbaridade”.

A Vale ON subiu 3,38% (R$ 15,29), enquanto a PN avançou 3,27% (R$ 11,68). Ontem, a mineradora acertou a venda dos 26,87% que detinha da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) para a sócia alemã Thyssenkrupp. A venda faz parte da estratégia da brasileira de se desfazer de ativos não-estratégicos e reforçar o caixa, em um momento em que o preço do minério de ferro está em queda. O valor da operação não foi divulgado, mas fontes de mercado disseram que a transação teria sido fechada por US$ 1. Na avaliação do banco Credit Suisse, a decisão não tem impactos relevantes no caixa da Vale.

Na Bolsa de Frankfurt, porém, o desempenho da ThyssenKrupp foi o oposto, caindo 4,65% hoje.

— A Petrobras, que puxou a queda na segunda, hoje é o ponto positivo, porque a companhia disse que não tem previsão para cortar preço dos combustíveis. A Vale também melhora com seus pares no exterior e ainda é um pouco ajudada pela valorização global do dólar, que favorece exportadoras — disse Luiz Roberto Monteiro, operador da corretora Renascença.

Entre os bancos, o Banco do Brasil ON recuou 1,61% (R$ 18,35), enquanto o Bradesco subiu 0,56% (R$ 26,72). O Itaú Unibanco teve alta de 0,20% (R$ 30,37). O Santander valorizou-se em 1,07% (R$ 17,00).

LAGARDE, DO FMI: ‘ESTAMOS EM ALARME’

Na Europa, as ações tiveram a maior baixa em seis semanas impactadas, sobretudo, por dados negativos sobre a economia alemã. O índice de referência Euro Stoxx 50 caiu 2,43%, enquanto a Bolsa de Londres teve baixa de 1,19%. Em Paris, a Bolsa desvalorizou-se 2,18%, e em Frankfurt, 2,63%.

Em Wall Street, os pregões seguiram a tendência. O índice Dow Jones caiu 0,75%, enquanto o S&P 500 recuou 1,01% e o Nasdaq, 0,98%.

As encomendas à indústria alemão caíram de forma inesperada em fevereiro, um sinal de que a lentidão econômica global está pesando sobre a maior potência europeia. A demanda, ajustada pela inflação, recuou 1,2% na comparação com o mês anterior, informou nesta terça-feira o ministério da Economia alemão. Os economistas ouvidos pela Bloomberg esperavam uma alta de 0,3%.

A diretora-gerente o Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, acrescentou ansiedade nos pregões ao afirmar que as perspectivas já modestas para a economia global vão piorar ainda mais a não ser que as autoridades tomem ações mais fortes para impulsionar o crescimento. O FMI vai cortar suas projeções na próxima semana.

— Deixem-me ser clara: estamos em alerta, não alarme. Tem havido uma perda de ritmo do crescimento — disse em discurso na Universidade Goethe, em Frankfurt.

Segundo ela, a recuperação da crise financeira global “continua muito lenta, muito frágil, e os riscos à sua durabilidade estão aumentando”.

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