Após Olimpíadas, 30 mil podem perder emprego no Rio

A falta de perspectiva de criação de novas vagas desenha um cenário sombrio para o mercado de trabalho carioca, que, apesar da crise da Petrobras e da recessão que afeta o país, até agora vem sendo poupado pelo colchão de empregos criado pela preparação para os Jogos Olímpicos. Em um ano até fevereiro, a taxa de desemprego da Região Metropolitana do Rio cresceu apenas 1 ponto percentual, para 5,2%, contra aumento de 2,4 pontos da média geral, que pulou para 8,2%. É a menor alta entre as seis capitais analisadas pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE. Trajetória que, dizem economistas, deve começar a mudar no segundo semestre, com o fim de obras ligadas ao evento e o desligamento dos temporários que trabalharão nos Jogos, quando as taxas do Rio vão crescer e se aproximar das demais metrópoles.

— Há várias obras de mobilidade urbana sendo feitas para as Olimpíadas que serão desmobilizadas até julho. Além disso, tem toda a parte de hotelaria e serviços empregando temporários para o evento. Haverá uma queda do nível de emprego nesses setores e, com a recessão, a taxa no Rio passará a crescer mais do que em outras capitais — diz o economista da PUC-Rio José Márcio Camargo.

O economista do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets) Manoel Thedim diz que a tendência é que a taxa de desemprego do Rio se aproxime do resto do Brasil a partir do segundo semestre. O agravante local, ressalta, é que a queda será abrupta:

— O fim das obras dos Jogos causará uma demissão em massa sem absorção, porque o estado está sem projetos de grande porte, que dependem do dinheiro público, cujas contas estão paralisadas.

O ajudante hidráulico Gilvan Ferreira da Silva, de 49 anos, sente na pele as dificuldades para se reinserir no mercado. Ele está desempregado há duas semanas, quando acabaram as obras no Porto do Rio. E diz que o pior é perder os benefícios da carteira assinada:

— Todo mundo reclama. Essa crise atingiu do mais rico ao mais pobre. Para mim, o pior é não ter mais clínica médica e tíquete-alimentação.

O eletricista Lenaldo Azevedo de Oliveira, de 30 anos, também ficou sem emprego após o fim das obras do Porto do Rio. Para garantir o sustento das famílias, ele e Gilvan vêm recorrendo a bicos e darão entrada no seguro-desemprego esta semana.

— Sou eletricista há dez anos e nunca vivi uma situação tão difícil. É caso de pedir força a Deus. Tenho mulher e dois filhos para sustentar e não posso ficar para trás — desabafa Lenaldo.

Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada Intermunicipal do Rio, Nilson Duarte, há 30 mil trabalhadores em obras cuja previsão de término é em 15 de julho. E, sem novas obras, não há perspectiva de absorver esses trabalhadores:

— Quando as obras começaram, em 2011, sabíamos que eram temporárias, mas não tínhamos ideia que uma crise dessas, junto com a Lava-Jato, ia paralisar o setor. Só no ano passado, fiz 8,6 mil homologações no sindicato em razão dos cortes no Comperj. Nos três primeiros meses deste ano, foram mais três mil, com a finalização do Porto Rio.

Pedro de Lamare, presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro, ressalta que o setor tem o desafio de criar um ambiente de eventos constantes e conquistar os turistas que vierem para os Jogos, para que retornem ao Rio.

Uma pesquisa da agência de empregos ManpowerGroup Brasil, que mede trimestralmente a intenção de empresas em contratar e demitir, aponta que o Rio é o estado onde os empregadores se mostram mais pessimistas para os próximos três meses entre São Paulo, Paraná e Minas Gerais. As perspectivas para contratações caíram 4 pontos percentuais em relação ao primeiro trimestre deste ano e 18 pontos frente ao mesmo período de 2015.

— Esse pessimismo no Estado do Rio tem relação direta com a baixa perspectiva de atividade na construção civil e no setor de petróleo, por conta da crise na Petrobras — diz o diretor presidente da empresa, Nilson Pereira.

Entre os setores pesquisados, o de construção é o que mais preocupa. Abrahão Roberto Kauffmann, presidente do Sindicato da Construção Civil no Rio, admite a falta de perspectiva de novas obras e conta que vai a Brasília esta semana discutir a possibilidade da liberação de recursos para fomentar o setor por meio de obras públicas e privadas. E diz que há um departamento de serviço social na entidade que tem oferecido a empregados de canteiros de obras curso de capacitação de 30 horas para que se tornem trabalhadores autônomos formais.

Procurado, o governo do estado informou não haver “nada concreto” em relação a novas obras para o segundo semestre. Já a prefeitura disse que 25 mil empregos na área da construção civil devem ser criados nos próximos meses, em obras de infraestrutura, logística, mobilidade e saneamento.

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