Após comprar parte da Vale, Thyssenkrupp planeja vender CSA

RIO – Após acertar a compra da fatia da Vale na Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), a alemã Thyssenkrupp quer retomar o processo de venda da unidade. Segundo o presidente da Thyssenkrupp América do Sul, Michael Hollermann, um dos objetivos da transação com a Vale foi limpar pontos chaves do acordo de acionistas para facilitar a venda total ou parcial da usina. O executivo afirmou que a relação entre Thyssen e Vale era “complexa” e que foi um “obstáculo adicional” para a venda da CSA há pouco mais de dois anos, quando a alemã tentou se desfazer da siderúrgica pela primeira vez.

A Thyssen considera ainda fazer uma parceria para integrar a CSA a outra siderúrgica, a exemplo do que foi feito com a belgo-indiana Arcelor Mittal e a japonesa Nippon Steel, que compraram uma unidade de laminação da Thyssen no Alabama (EUA), em 2013. A CSA tem contrato de fornecimento de 2 milhões de placas de aço por ano para essa unidade, o que representa 40% da capacidade produtiva da usina. O contrato vai até 2019 e está assegurando a sobrevivência da empresa nesse momento de crise na siderurgia no Brasil e no mundo.

— A Thyssen tinha uma relação contratual complexa (com a Vale). Fizemos uma limpeza geral, limpamos pontos chave (do acordo de acionistas). A Vale é uma empresas fantástica de mineração no Brasil. (No entanto), os contratos que tínhamos com a Vale dificultaram a venda da CSA há dois anos. Não foi o ponto determinante para o insucesso da venda, mas representaram um obstáculo adicional — afirmou Hollermann. — A CSA continua a ser um ativo não-estratégico para a Thyssen.

O acordo entre Thyssen e Vale previa, entre outros pontos, direito de a mineradora opinar sobre o uso das instalações da CSA, como o terminal portuário. Com a compra dos 26,87% da Vale, todos os contratos entre as duas empresas serão extintos, com exceção do contrato de exclusividade no fornecimento de minério de ferro, que será mantido até 2029. A CSA, que opera com 80% de sua capacidade, processa em média 700 mil toneladas de minério de ferro por mês. No ano, são 8,4 milhões de toneladas ou 2,4% do que a Vale produziu em 2015. A Vale não comentou a declaração de Hollerman.

A mineradora vendeu sua fatia na usina por um “valor simbólico”, pois há previsão de que a empresa receba parte do valor de uma eventual venda futura da CSA. De acordo com Hollerman, se o controle da CSA for integralmente vendido nos próximos dez anos, a Vale tem direito a um percentual sobre o valor da venda, a partir de um preço mínimo definido entre os ex-sócios.

Por isso, argumenta Hollerman, o “preço simbólico” pelo qual a transação foi fechada “não é relevante”. Segundo fontes de mercado, a operação teria sido acertada por US$ 1. A Thyssen também vai assumir a dívida da CSA, de € 2,6 bilhões. Ontem, as ações da Thyssenkrupp caíram 4,65% na Bolsa de Frankfurt, para € 18,16.

ESPAÇO PARA FUSÃO COM OUTRA EMPRESA

Hollerman frisou ainda que uma possível parceria para integrar a CSA a outra siderúrgica seria interessante porque a CSA produz placas de aço, produto de pouco valor e que não é vendido ao consumidor final. No Brasil, CSN e Usiminas, que têm laminadores, compram placas da CSA. No exterior, destino de 90% da produção da siderúrgica, a unidade americana no Alabama é o principal cliente.

Na avaliação do Credit Suisse, há espaço para a empresa alemã fundir a CSA com outros ativos no Brasil e criar uma usina siderúrgica integrada, facilitando a venda. A CSA dá prejuízo desde que foi inaugurada, em 2010. Para Lenon Borges, analista da Ativa Investimentos, porém, haveria pouca chance de uma fusão ou aquisição por empresas brasileiras:

— A situação tá feia aqui. Usiminas e CSN, que poderiam ter algum interesse na CSA, estão muito endividadas. Acredito que, se vier algum comprador, será de fora, pois a desvalorização do real deixa os ativos brasileiros baratos para os estrangeiros.

O Brasil passa por uma reorganização do setor siderúrgico, com a troca de comando em algumas usinas. Além da CSA, a Usiminas deve ter mudanças no controle, uma vez que os sócios Nippon e a ítalo-argentina Ternium avaliam dividir a empresa. Em âmbito internacional, a sobreoferta de aço — há sobra de cerca de 700 milhões de toneladas — e a consequente queda de preços deve levar ao fechamento de usinas e, possivelmente, à intensificação do processo de consolidação do setor.

— Não vejo razões para acreditar que o processo de consolidação deixe de ser importante. Contudo, diante da gravidade, várias usinas serão desativadas, parcial ou mesmo totalmente. Acho que nenhuma indústria siderúrgica, de qualquer país, está conseguindo, nem conseguirá, passar incólume à invasão chinesa — disse o professor titular do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Germano Mendes de Paula.

A China, maior produtor global, vem desacelerando sua economia e irrigando o mercado com aço barato. No Reino Unido, por exemplo, o governo está negociando com a firma de investimento Liberty House para que ela assuma parte das operações britânicas da indiana Tata Steel, evitando o fechamento de fábricas no país. A Tata, como as demais siderúrgicas na Europa, vem sofrendo com o preço baixo do aço e as importações chinesas.

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