Alunos da Estácio contam não ter sido informados da venda e temem reajuste

RIO – Enquanto a diretoria da Estácio está mergulhada em negociações, à beira de selar a união com o maior grupo de ensino superior do país, os estudantes da universidade afirmam estar à margem do processo e sem receber informações sobre os rumos que a instituição irá tomar. Há pouco mais de 15 dias, Rogério Melzi renunciou à presidência da Estácio. Ele foi substituído por Chaim Zaher, segundo maior acionista da companhia, com 14% das ações.

— O Chaim tem uma relação agressiva com os estudantes. Ele se recusa a nos receber desde que assumiu (a presidência). E não apresentou o projeto dele para os estudantes em áreas como qualidade de ensino e sistema educacional. Não sabemos se vai haver aumento de mensalidade e outras mudanças — critica o advogado Victor Travancas, presidente da Federação Nacional dos Estudantes de Direito da Estácio.

Em paralelo, a entidade se reuniu com Rodrigo Galindo, presidente da Kroton, e também com Janguiê Diniz, presidente do Conselho de Administração da Ser Educacional.

— Os estudantes não são contra a venda da Estácio. Alunos e ex-alunos são mais favoráveis à união com a Kroton, por ter o capital pulverizado. Mas as duas proponentes garantiram que ofereceriam aos estudantes espaço para discutir reajustes de mensalidades e outras mudanças — diz Travancas.

PREOCUPAÇÃO COM MUDANÇAS

No mês passado, em entrevista ao GLOBO, Zaher afirmou que, no comando da Estácio, iria trabalhar “pelo retorno da credibilidade, da confiança dos investidores e levantar a moral dos colaboradores”, além de focar no reconhecimento da qualidade acadêmica.

Nas unidades da Estácio no Rio, contudo, o clima é de incerteza entre os estudantes.

A ideia de ver a universidade ser vendida não traz boas lembranças a Brian Wagner Vicente: ele estudava na Gama Filho quando esta fechou depois de uma crise financeira que também envolveu negociações de compra. Atualmente cursando o sexto período de Arquitetura, ele diz ter ouvido conversas sobre mudar de campus, mas não sobre venda do negócio.

— Na minha experiência, (a venda) só piora. Fiquei sabendo agora e nem conheço a empresa (Kroton). Os alunos e professores não comentavam sobre uma possível venda — diz Vicente, que gostaria de ver investimentos na infraestrutura dos cursos.

Já João Victor Nunes, que acaba de terminar o primeiro período de Cinema, ficou sabendo da negociação pela repórter do GLOBO. Ao comentar o assunto com o grupo da turma no WhatsApp, um dos participantes disse temer aumento de burocracia após a venda. Nunes, por sua vez, ficou em dúvida sobre o que acontecerá com as mensalidades:

— Muitos estão aqui porque têm descontos. Eu consegui um abatimento com um bom resultado no Sisu. A Estácio também costuma fazer provas de descontos. Tem de ver como vai ficar isso. Em outra universidade, eu não teria como pagar. Aqui, foi a minha melhor opção financeira e educacional. Não tenho do que reclamar.

O técnico do laboratório de Engenharia Mecânica Robson Souza conta que soube da negociação pela rede interna da Estácio. Há alguns dias, recebeu um e-mail do gestor que apontava a “especulação” e a ausência de acordo quanto à venda da universidade. A mensagem trazia ainda a promessa de avisar aos funcionários assim que uma decisão fosse tomada pelos superiores. Mas ele se diz confiante na transição:

— A expectativa é a melhor possível. Espero que mantenham esse bom sistema de ensino. Mas sempre tem o que melhorar, né? O prédio é antigo, por exemplo. A internet também poderia melhorar, até porque o sistema fica sobrecarregado, fica lento quando aplico provas aos alunos — afirma o técnico.

(*Estagiária, sob supervisão de Lucila de Beaurepaire)

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