Prefeito Arthur Virgílio publica cartas abertas ao juiz Sérgio Moro após divulgação de planilhas da Odebrecht

Após o vazamento das planilhas da Odebrecht, na quarta-feira (23), citando pelo menos 316 políticos em 24 partidos, incluindo Arthur Virgílio, o prefeito usou sua página no facebook para publicar cartas abertas ao juiz Sérgio Moro.

Nas postagens, Arthur defende que recebeu doações da empresa baiana, mas que está tudo legalizado.

“A Odebrecht “colaborou” com R$ 80 mil, em minha tentativa de reeleição ao Senado, em 2010. Esse dinheiro consta, obviamente, da prestação de contas aprovada pelo TRE-AM. Adversária minha naquele pleito admite ter recebido, dessa mesma empresa baiana, cerca de R$ 4 milhões não contabilizados conforme determina a Lei Eleitoral.”, disse o prefeito em sua rede social.

Arthur ainda diz que a divulgação dessa lista pela Odebrecht tem a inteção de “melar” as investigações da operação lava jato, misturando nomes de “gente séria” com “propineiros” e pede respeito ao nome que construiu como político.

Veja na íntegra as duas postagens:

24 de março:

CARTA ABERTA AO JUIZ SÉRGIO MORO

Tenho acompanhado, como brasileiro esperançoso, sua atuação à frente da operação Lavajato.
Daí a admiração que, de longe, passei a nutrir por sua pessoa.

Veja bem, dr. Moro, admiro muitos dos seus gestos, mas obviamente não o idolatro. A idolatria não seria benéfica para ninguém, principalmente para o senhor mesmo. Atitudes e sentimentos exagerados acabam por deformar o alvo das homenagens. Acredite nisso.

Li, com muita surpresa, uma certa lista – ou planilha, para usar palavra tão em moda nestes tempos tristes – que mistura o legal com o ilegal, o verdadeiro com o falso. Trata-se de um rol de nomes que teriam sido beneficiados com doações, em dinheiro, da empresa Odebrecht. Mas é preciso separar o que são doações legais de campanha, documentadas oficialmente aos TREs, do que chamam de propinas. Ao juntar todos em uma única lista, surgem as distorções.

Vamos aos fatos: recebi, em 2010, R$ 80 mil, a título de colaboração para a minha campanha de reeleição ao Senado. Tal doação faz parte da declaração que apresentei ao TRE-AM, que prontamente aprovou minhas contas de campanha. Mais ainda: fui deputado federal por 12 anos, secretário-geral do PSDB por 3, senador por 8, prefeito de Manaus pela segunda vez. Fui líder do governo Fernando Henrique, por duas vezes, e Ministro-Chefe da Secretaria-Geral da Presidência, no primeiro mandato desse mesmo ilustre presidente. Pois entrei e saí de postos tão nevrálgicos sem ter sido questionado por quem quer que fosse. E nunca beneficiei a empresa Odebrecht, ou outra qualquer, muito orgulhoso que fico de nunca ter recebido solicitações de qualquer sorte ou de qualquer. Aliás, desprezo quem oferece propina e desprezo também quem é procurado para recebê-la. O propineiros sabem as árvores que podem dar bons frutos e, portanto, jamais cruzam os caminhos das pessoas de bem.

Uma pergunta se recusa ao silêncio: que obséquio poderia o líder oposicionista (mais vigoroso) ao consulado do presidente Lula da Silva? Teria a Odebrecht doado à formidável quantia de R$ 80 mil para um senador que pudesse obter recursos a serem investidos no Porto Mariel ou em qualquer desperdício na Venezuela, na Bolívia e afins? Mais uma indagação, se o senhor não se aborrece em analisa-la: por quê esse vazamento tão eivado de injustiças. Mais outra: o q tenho eu a ver com a Lavajato? O que tem minha campanha de 2010 a ver com descaminhos futuros e desastrosos dessa empresa baiana?

Por quê então, dr. Moro, meu nome, nessa lista tão esdrúxula? Em mim e em quem me conhece, causou uma estranheza enorme. E eu não poderia calar, diante desse imerecido constrangimento.
Dr. Moro, o senhor é um bom e corajoso juiz. Isso deveria bastar-lhe. Não deslegitimize a Lavajato com vazamentos desse tipo.

Aguardo providências suas. Com o nome que recebi dos meus maiores, ninguém brinca. O senhor, portanto, terá de respeita-lo como eu, até o presente, tenho respeitado o seu.

Muito cordialmente, Arthur Virgílio Neto

25 de Março:

CARTA ABERTA AO JUIZ SÉRGIO MORO II

Dr. Moro, 
Entendo como autocrítica sua decretação do sigilo sobre a tal “lista” da empresa Odebrecht. E isso não deixa de ser louvável, embora a tranca tenha sido posta, após o arrombamento da casa.

Essa “lista”, que me parece muito mais uma tentativa da empresa baiana de “melar” a Lavajato, mistura e embaralha propineiros com gente séria. Confunde; não explica. No fundo, nesse nivelamento por baixo, visaria a atrasar o processo investigativo, talvez até na intenção de salvar a pele de parceiros de negociatas, nesse conjunto de atitudes lesa-Brasil.

Pense nisso, Dr. Moro, com a acuidade que todos reconhecemos no senhor… e com a humildade que não pode faltar a alguém que resume tantas esperanças do povo brasileiro. Pense: o vazamento foi grave equívoco. O Brasil o quer apurando e, dentro da lei, punindo. O Brasil não deverá jamais querê-lo na espetaculosidade dos noticiários jornalísticos de cada minuto.

Meu nome veio nessa lista. E é em respeito a ele, meu nome, e a uma história limpa construída ao longo de trinta e oito anos de vida pública, que reajo a quem quer que tente desrespeitá-lo.

A Odebrecht “colaborou” com R$ 80 mil, em minha tentativa de reeleição ao Senado, em 2010. Esse dinheiro consta, obviamente, da prestação de contas aprovada pelo TRE-AM. Adversária minha naquele pleito admite ter recebido, dessa mesma empresa baiana, cerca de R$ 4 milhões não contabilizados conforme determina a Lei Eleitoral. Alegou não ter registrado o recurso porque o distribuiu às pessoas carentes, claro que em pleno período eleitoral!Convido-o a raciocinar comigo, Dr. Moro: a) deu para perceber quem a Odebrecht tinha interesse em eleger pelo Amazonas?; b) o senhor percebe o equívoco, a grosseria até, de ter meu nome nessa mixórdia?

Deposito confiança na sua bravura e integridade. Não troque isso por manchetes. Não se coloque acima do bom senso e do permanente e necessário senso de justiça.

Admiro o Dr. Sérgio Moro, sempre que ele se parece com o inesquecível Ministro Ribeiro da Costa: coragem, sobriedade e humildade. Entristecem-me os vazamentos ilegais, a preocupação com a notícia, a despreocupação com a reputação de pessoas honradas.

Apesar do ocorrido, vejo sua atuação como positiva para o país. 
Não permita que esse conceito se perca nos desvãos de detalhes menores, bem menores, que a bela missão que o senhor vem cumprindo à frente da Lavajato.

Justiça sim, a qualquer preço. Desvios, jamais. Nunca, em tempo algum. Eis como este brasileiro, que não tolera cometer injustiças e, mais ainda, odeia sofrê-las, enxerga a missão entregue às mãos de tão nobre magistrado.

Desejando-lhe felicidade pessoal, cumprimenta-o

Arthur Virgílio Neto

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