Mulheres acusam deputado de negação de paternidade, agressão e indução ao aborto

A publicação feita por uma jovem mulher em seu perfil no Facebook, cobrando o reconhecimento da paternidade de seu filho desencadeou uma história digna dos enredos mais sombrios e intricados de Hollywood. A partir do seu relato, que foi apagado depois de ela entrar em acordo com o pai da criança, surgiram outras histórias de pelo menos nove mulheres que engravidaram do mesmo homem. Algumas acusando o pai dos seus filhos de tentar induzi-las, sob a oferta de dinheiro, a fazer aborto. Outros relatos falam de supostas agressões, ameaças, tentativas de intimidação, violência psicológica e vazamento de imagens íntimas na internet. O personagem principal de toda essa história é o deputado estadual Francisco Adjafre de Souza Neto (o Chico Mozart), que nega todas as acusações. Acompanhe a matéria abaixo.

Matéria do Portal BNC – Era o dia 22 de fevereiro deste ano, quando uma publicitária de 25 anos resolveu se dirigir à Delegacia da Mulher em Boa Vista para denunciar que teve fotos e vídeos íntimos vazados em redes sociais. No boletim de ocorrência, como autor do suposto crime, foi registrado o nome do deputado estadual Francisco Adjafre de Souza Neto, conhecido como Chico Mozart (PRP), com quem a denunciante diz ter mantido um relacionamento amoroso e, como resultado deste, um filho. A moça disse que o parlamentar lhe fez ameaças por meio de ligações telefônicas.

O que parecia ser um caso isolado acabou ganhado contornes de uma história na verdade muito mais intrincada. Surgiram mais casos. Outras mulheres tomaram coragem e relataram terem passado por situação semelhante. As narrações colhidas pelo BNC Roraima envolvem agressões, ameaças, pagamentos para aborto, divulgação de fotos íntimas em redes sociais, processos por pensão alimentícia e tentativas de intimidação das vítimas.

A postagem feita no Facebook por uma das mulheres que afirmam ter engravidado do deputado Chico Mozart fez com que outras supostas vítimas tenham quebrado do silêncio e passada a compartilhar entre si, suas histórias de dor, humilhação e busca pelo reconhecimento da paternidade dos filhos.

De acordo com os relatos, o parlamentar teria engravidado pelo menos nove mulheres diferentes – três delas em apenas um ano e duas ainda adolescentes à época -, mas o número de mulheres que podem ter engravidado dele e que brigam para comprovar a paternidade pode ser ainda maior, conforme o relato do áudio abaixo. Alguns dos relacionamentos ocorreram antes de Chico Mozart de ele se eleger deputado.

 

Segundo uma das jovens que denuncia Chico Mozart, o parlamentar vazou mídias (fotos e vídeos) com imagens íntimas suas, após ela publicar no próprio perfil do Facebook um comentário afirmando que o político era pai do seu filho e que ele se negava a reconhecer a paternidade do recém-nascido. De acordo com a denunciante, Mozart prometeu ajudá-la, mas, em troca, exigiu que ela não registrasse o bebê como ele sendo pai.

Um dos áudios gravados, de uma conversa telefônica, o político diz à jovem para retirar a postagem do Facebook. Ao ouvir a negação, ele afirma que montará um perfil falso no Facebook com vídeos e fotos da publicitária.  Agravante é que o deputado Chico Mozart descumpriu medida protetiva e foi até a casa da mãe da denunciante para fazer chantagem, conforme demonstra o áudio abaixo.

“A gente vai para guerra. Vou mandar fazer um Facebook teu, publicar todas as tuas fotos e vídeos, e adicionar um monte de gente”, avisa o político.

 

“Ele iria pagar faculdade, me dar um carro, pagar pensão de R$ 500. Não aceitei. Isso foi ano passado, e as desavenças começaram porque ele não queria registrar meu filho no nome dele. Relatei isso no Facebook, ele soube, ficou revoltado e espalhou fotos e vídeos no Whatsapp feitos à época que ficávamos juntos e me ameaçou”, diz.

Em outra conversa, o parlamentar admite que postou as imagens nas redes sociais e deixa clara a chantagem com as imagens para evitar que a jovem apague a postagem no Facebook.

A discussão continua: “Se quisesse acabar com tua vida, colocaria fotos do teu rosto, mas não postei nenhuma. Você está ridicularizando eu e minha namorada. Só mandei [fotos] para duas pessoas e você viu o que deu”, comenta o deputado em outro trecho do áudio.

“A pessoa pública é você. Você cometeu crime”, rebate a publicitária. Em outra gravação, o deputado promete que não irá espalhar as fotos e vídeos, entretanto, as ameaças de vazamento continuam.

A publicitária narra ainda que, ao contar ao político sobre a gravidez, ele alegou ter feito vasectomia. Passado algum tempo, contradizendo o que havia dito sobre a vasectomia, propôs que ela fizesse um aborto. Muitas pessoas se manifestaram na postagem feita pela publicitária no Facebook, prestando-lhe apoio.

Documentos colhidos pela reportagem do BNC Roraima apontam brigas judiciais para reconhecimento de paternidade e pensão alimentícia. Há também registros de boletins de ocorrência, caso de condenação por lesão corporal, além de declarações de mulheres que tiveram filhos com o deputado. Algumas engravidaram ainda quando eram adolescentes, de acordo com certidões de nascimento apresentadas à reportagem.

Uma enfermeira de 26 anos, que tem um filho de oito anos com o deputado, relata acontecimentos envolvendo registro policial de ameaça e agressão.

 

“Eu tinha 14 anos quando o conheci. Trocamos mensagens e começamos a sair. Depois de dois anos juntos, engravidei. Ele estava em Manaus quando eu o avisei. Disse que não era dele porque tinha feito vasectomia. Mas eu não tinha outro homem. Quando estava com quatro meses, me ofereceu R$ 10 mil para eu abortar”, À época o político tinha 26 anos.

Ela não fez aborto e, conforme detalha, após o filho nascer, entrou em acordo verbal com o deputado, embora ele tenha feito uma proposta surreal, oferecendo-lhe R$ 1 mil, para que ela desse o filho a um casal de amigos. A enfermeira ainda confirma ter feito quatro boletins de ocorrência contra Chico Mozart devido às constantes ameaças.

 

“Ele falava que se me encontrasse, iria passar com o carro em cima de mim, por isso o denunciei. Uma das vezes, me agrediu ainda menor” diz.

“Para registrar o meu filho foi um problema. Marcava para fazer o DNA e não ia. Mas acabou reconhecendo a paternidade sem o exame, em 2016. Inicialmente, pagava R$ 200 e mal. Dava R$ 100 e depois a outra metade. Procurei um advogado. A Justiça determinou ser descontado um salário mínimo do contracheque do deputado, em 2015”, destaca.

Uma vendedora de 42 anos cobra na Justiça o direito de pensão alimentícia do filho de nove anos que também teve com o deputado. De acordo com ela, a sua situação não muda nada em relação às outras mães.

“Ele começou a pagar pensão em 2015, quando assumiu como deputado. Recebia R$ 2 mil. Era debitado no contracheque dele. Depois baixou para um salário mínimo, em agosto do ano passado, porque ele ia pagar escola e livros do meu filho. Mas foi o juiz que determinou. Chorei muito. Depois de muito tempo, na quarta tentativa, ele fez o DNA em janeiro e deu positivo”, expõe.

 

Ela disse que foram são seis anos de luta na Justiça buscando direitos, envolvendo dois boletins de ocorrência sobre intimidação. “Ele me ameaçou de ‘sumir’ comigo. Além disso, exigiu que doasse meu filho com um pouco mais de um ano de idade, em troca iria me dar uma quantia em dinheiro. Achei absurdo”, declara. Ela disse que reclama na Justiça os pagamentos retroativos da pensão.

Priscila Vinagre, de 29 anos, disse ter conhecido Chico Mozart em 2005 em Natal (RN). Após um ano, começaram a namorar o parlamentar, mesmo ela estando morando em Natal.

“O relacionamento durou menos de um ano. Mas, nesse tempo, resolvemos ter um filho, que hoje tem dez anos. Antes de ele nascer, resolveu terminar comigo. Quando tive o bebê, ele estava em uma festa. Ele só registrou o filho após muitas ligações e por meio de procuração. Depois de dois anos, contribuía esporadicamente com R$ 100, R$ 200 e R$ 300. Ainda chegou a atrasar”, declara Priscila, única mãe que permitiu ser identificada na matéria.

Devido à falta de comprometimento em pagar pensão alimentícia, segundo Priscila, ela foi à Justiça, mas teve dificuldades em fazer o processo de cobrança seguir. Ela conta que também teve suas imagens íntimas divulgadas pelo deputado Chico Mozart.

 

“Moro em Natal e a ação corre por carta precatória. Ele nunca era achado. Ameaçou de publicar fotos íntimas minhas e exigiu que eu parasse com o processo. Depois, me ofereceu R$ 10 mil para sumir da vida dele com nosso filho. Porém, até hoje espero uma decisão do Judiciário”, afirma.

Em 2015, recebeu uma ‘proposta indecente’, como classifica Priscila. Ela procurou Chico Mozart, que já era deputado.

“Fui tentar falar com ele com o intuito de pararmos com a briga pelo nosso filho. A proposta era eu abrir mão da pensão alimentícia para que ele voltasse a dar atenção ao filho. Se eu não aceitasse, ia dizer que eu tinha ido atrás dele para minha família ex-marido. Foi o que fez, causando transtorno na minha vida”, diz.

Outra mãe disse que conheceu o deputado quando ele estudava em Manaus. Relacionamento breve. Soube que estava grávida avisou ao político.

“Quando falei da gravidez, me ameaçou no trabalho. E foi a minha casa oferecer R$ 2 mil para fazer um aborto, disse que eu fiquei gestante propositalmente. Ameaçou passar por carro em cima de mim. Fiquei com muito medo. E enquanto estive grávida, não tive ajuda. Depois de um tempo ele foi morar em Boa Vista”, relata.

Segundo ela, a filha foi registrada sem o sobrenome do político. Ela buscou a Justiça para ter direito à pensão alimentícia e ter a filha reconhecida pelo pai.  “Me ameaçou diversas vezes. Disse que ia postar fotos minha na internet em razão do processo. Fiz boletim de ocorrência contra ele em Manaus”, declara.

Documento de cobrança de reconhecimento de paternidade na justiça de uma das mães que relataram a história para o BNC Roraima

“Minha ação foi por carta precatória. Ele [o deputado Chico Mozart] nunca era localizado pela Justiça, mas um dia acharam ele, e foi obrigado a ir para Manaus porque era a terceira audiência para fazer o exame de DNA. Na hora alegou que não podia ser furado porque iria viajar para China e, no país, podiam achar que estava injetando heroína”, conta.

Ainda de acordo com a mãe, o exame de sangue era mais barato e ia ser pago por ela. Ao ser recusar a fazer exame, Chico Mozart deixou como opção o exame de saliva.

“Esse exame era mais caro. Ele sabia que eu não tinha dinheiro. Porém, meu advogado viu o propósito dele e pagou”, diz, comentando que à época a filha tinha 3 anos. Um mês depois o resultado do exame deu positivo.

“Mas para pagar uma pensão irrisória, ele apresentou ao juiz um contracheque de vendedor de motos no valor e R$ 1,2 mil. Por anos, ele pagou R$ 300. Entrei de novo na Justiça, cobrando pensão retroativa e os gastos que tive com minha filha quando ele não estava presente. Depois de um tempo me propôs um acordo de um salário mínimo, mas paralisei o processo”, acentua.

Uma das mulheres, exatamente a que fez a publicação da cobrança de reconhecimento de paternidade que deflagrou o movimento que acabou juntando todas as mães, diz ter retirado a ação que movia contra o parlamentar depois que ele, sentindo-se pressionado com a repercussão do caso no Facebook, resolveu reconhecer que o filho era seu.

 

Parlamentar alega ser vítima de armação de ‘amor mal resolvido’

De acordo com o parlamentar, o namoro com Priscila Vinagre acabou há alguns anos, quando ele descobriu por meio de um site da Internet que ela era garota de programa. “Meu mundo desabou quando eu descobri isso, pois eu tinha a intenção que constituir uma família com ela”, afirmou. Priscila nega que seja garota de programa, como alegado pelo deputado. “Não sou nem nunca fui”, afirmou.

O deputado estadual Chico Mozart nega todas as afirmações feitas pelas mulheres de que tentou agredi-las ou induzi-las a fazer aborto. Diz ter reconhecido os filhos

Na sua opinião, o fato de nunca ter digerido o final do relacionamento teria levado Priscila a persegui-lo de forma doentia. “Ela gravou conversas de WhatsApp das outras moças para usar contra mim. E tudo isso só com o objetivo de me prejudicar. Eu me dou bem com as mães dos meus filhos. Nunca tive nenhum problema com elas”, disse o deputado. Mozart também afirmou ter sofrido ameaças que teriam partido do marido de Priscila, que numa mensagem de WhatsApp teria dito que se ele fosse a Nata, no Rio Grande do Norte, daria “sumiço nele”.

Para o parlamentar, o fato de ele ter filhos com várias mulheres não é nada incomum, pois está arcando com suas responsabilidades, como pagamento de pensão e reconhecimento de paternidade de cada um dos filhos. “Eu tenho pensão sendo descontado em meu contracheque aqui da Assembleia Legislativa”. Chico Mozart negou que tenha ameaçado, agredido ou coagido qualquer uma das suas ex-namoradas ou obrigado as mães dos seus filhos a fazer aborto. “Isso é mentira. Eu nunca fiz isso”, garantiu.

Ao ser procurado pela reportagem do BNC Roraima pela primeira vez, na segunda-feira (3), o deputado Chico Mozart se negou a gravar entrevista. Chegou a ligar para uma das mulheres para que ela disse que não concordava em ter sua história relatada pela reportagem. “Eu já me acertei com ela. Nos damos super bem. Não temos nenhum problema de convivência”, disse ele.

Em dado momento da conversa, o parlamentar tentou cooptar o repórter, dizendo-lhe que queria contrata-lo como assessor de comunicação. Diante da negativa do profissional, que desconversou dizendo estar bastante ocupado com seus afazeres jornalísticos, o parlamentar insinuou que o profissional tivesse recebido dinheiro da denunciado para fazer a matéria. “Quem me garante que ela não te pagou para fazer isso?”.

Ao ver todos os seus argumentos cair por terra, passou a dramatizar, dizendo ser uma pessoa de bem, repetindo que estava sendo alvo de uma armação e pedindo para que o material não fosse publicado. “Não publica isso, não. Você vai me prejudicar. Eu sou um cara do bem. Isso é uma história que só diz respeito à minha intimidade”, alegou.

Confira a entrevista feita com o deputado Chico Mozart, concedida na terça-feira (4) em que ele nega as acusações e atribui uma suposta perseguição a sua ex-namorada, Priscila Vinagre, com quem tem um filho de oito anos.

 

 

Fac-símile de um dos boletins de ocorrência registrados ccontra o deputado Chico Mozart relatando agressão

Com reportagem e edição de Luiz Valério e equipe do BNC Roraima

Link da matéria o BNC  http://roraima.bncamazonia.com.br/poder/mulheres-acusam-deputado-de-negacao-de-paternidade-agressao-e-inducao-ao-aborto/

 
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