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Voto que definiu genocídio de armênios afasta Berlim de Ancara

Da redação | 03/06/2016 05:20

BERLIM – Depois da votação da resolução que classifica a matança de armênios pela Turquia, há 101 anos, de genocídio, as relações entre Ancara e Berlim ameaçam congelar. O primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, classificou o projeto de “lobby racista armênio”, e o presidente Recep Tayyip Erdogan disse que a medida iria impactar seriamente as relações entre os dois países. O governo não demorou a reagir e chamou seu embaixador em Berlim para consultas. A Comissão de Relações Internacionais do Parlamento turco, por sua vez, acusou os alemães de deturparem fatos históricos sobre os acontecimentos de 1915. A classificação do massacre de genocídio, reconhecido por 20 países, recebeu recentemente o apoio do Papa Francisco. A Turquia, até hoje, nega veementemente a classificação da morte de até 1,5 milhão de armênios em massacres e marchas ao deserto ordenadas pelo Império Otomano, sobretudo entre 1915 e 1917, como uma limpeza étnica.

A decisão do Bundestag (o Parlamento alemão), que teve apenas um voto contrário, põe ainda em risco o acordo sobre refugiados entre a Turquia e a União Europeia (UE). Analistas turcos veem o risco de um grave retrocesso.

— O ano de 2016 foi até agora um dos piores para as relações entre Berlim e Ancara — afirmou Gökay Sofuoglu, da Comunidade Turca na Alemanha, ao comentar a crise exatamente em um dos momentos mais delicados das relações.

‘Erdogan late mais do que morde’

Se, por um lado, o projeto de negociações para o ingresso na UE é, do ponto de vista turco, a coroação de um esforço de 40 anos, por outro, o acordo sobre refugiados resultou numa suspensão do fluxo — de mais de um milhão de pessoas só no ano passado — para a Europa, principalmente a Alemanha. E ainda salvou o governo da chanceler federal Angela Merkel, que havia perdido muito em popularidade em consequência da crise.

A cientista política e jornalista Dilek Zaptcioglu admite que a moção chamada de “lembrança e recordação do genocídio dos armênios e outras minorias cristãs há 101 anos” ajudou a esfriar a relação entre os dois países. Mas, segundo ela, Erdogan “late mais do que morde” e não vai pôr em risco as negociações para o ingresso do país na UE.

— Erdogan anunciou duras consequências, começando com a chamada de volta do embaixador turco em Berlim, Hüseyin Avni Karshoglu, mas não vai romper o acordo sobre os refugiados, porque isso teria o efeito ainda mais grave de estancar as negociações para o ingresso da Turquia na UE — aposta Zaptcioglu.

Para a analista, o massacre dos armênios, tema visto com indiferença pelos turcos jovens, é ainda um tabu para os conservadores e nacionalistas.

— Comentários sobre o genocídio são vistos como uma afronta nacional.

Muitos dos turcos participantes de uma manifestação realizada ontem no centro de Berlim receiam um retrocesso nas negociações para isenção da obrigatoriedade de visto para turcos na UE, o que era previsto para breve. Sofuoglu, da Comunidade Turca na Alemanha, adiantou:

— A Turquia vai reagir!

Cem Özdemir, presidente do Partido Verde, considera a sensibilidade turca em aceitar a acusação de ser responsável pelo massacre de 1915 um problema mais grave do que a simples recusa de reconhecimento.

— “Armênio” é, na Turquia, uma expressão de ofensa — disse Özdemir, filho de imigrantes turcos, lembrando, porém, que, tanto no caso do Holocausto dos judeus, praticado pelos nazistas, como no massacre pelo então Império Otomano, “as pessoas de hoje não carregam culpa”.

Segundo a deputada Azize Tank, do partido A Esquerda, a votação na Câmara Baixa alemã não é uma discussão completa sobre a matança da minoria porque não aponta em detalhes como a economia alemã lucrou com o trabalho escravo de armênios. Segundo ela, o debate trouxe ainda mais clareza sobre como a Alemanha e a UE abriram mão de princípios de direitos humanos “para se livrar do problema dos fugitivos”.

— Este foi o primeiro genocídio do século XX que teve participação ativa da Alemanha — disse, apontando empresas como a construtora Philipp Holzmann, que lucraram com o apoio do então Império Alemão ao Otomano, hoje a Turquia.

Merkel não participou da sessão

O tremor nas relações Berlim-Ancara começou em janeiro com o atentado na Mesquita Azul, em Istambul, onde morreram 11 alemães — até hoje o Ministério do Interior alemão tem dúvidas sobre a versão oficial de autoria do Estado Islâmico. Em seguida, veio uma série de prisões de jornalistas e fechamento de redações, o que inspirou o comediante Jan Böhmermann a fazer um controverso poema sobre Erdogan chamando-o de “um califa capaz até de sexo com animais”.

Erdogan interveio junto a Merkel para que o comediante fosse processado. A chanceler, que na última turbulência tomou partido a favor de Erdogan, defendendo o processo penal contra Böhmermann, resolveu desta vez ficar ausente. Ontem, o assento de Merkel e do seu vice, Sigmar Gabriel, presidente do Partido Social Democrata (SPD), que faz parte da coalizão com a CDU, estavam vazios.

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