Um muçulmano para todos os londrinos

LONDRES — Os dois parlamentares que dominarão a cena política britânica nas próximas semanas não poderiam ter trajetórias mais opostas. Sadiq Khan, do Partido Trabalhista, é filho de imigrantes paquistaneses e foi criado numa habitação popular de um subúrbio no Sul de Londres. Seu adversário, Zac Goldsmith, do Partido Conservador, é filho de um empresário bilionário, e cresceu em Richmond, área nobre à beira do Tâmisa. Khan estudou em escola pública. Goldsmith foi aluno de Eton, instituição famosa por educar a aristocracia, e da Universidade de Cambridge. Khan é advogado, especializado em Direitos Humanos. Goldsmith editou uma revista sobre ecologia que pertence à família. No próximo dia 5, os dois disputam a prefeitura da capital. Se as pesquisas se confirmarem, Khan será eleito o primeiro prefeito muçulmano da história de Londres.

A FAVOR DO CASAMENTO GAY

Com 44% das intenções de voto contra 37% do principal concorrente, o trabalhista promete ser “um prefeito para todos os londrinos”, independentemente de classe social, raça e religião. Mas sua história pessoal — a de uma família de imigrantes que venceu — tem um peso grande na campanha num momento em que a Europa debate a dramática crise dos refugiados.

Pai de duas meninas, ex-pugilista, Khan, de 42 anos, é mesmo bom de briga. Cresceu numa casa com sete irmãos — todos formados, com exceção de um, que preferiu ganhar a vida como mecânico (“É o mais bem-sucedido de todos”, conta o candidato). Seu pai, falecido, era motorista de ônibus. A mãe, costureira. As aulas de boxe ajudaram Khan a revidar agressões racistas na Londres dos anos 80. Sua visão do Islã é liberal. Como parlamentar, votou a favor do casamento gay e enfrentou ameaças de morte por parte de radicais islâmicos.

— O extremismo é um câncer que corrói nossa sociedade. Serei o prefeito britânico muçulmano que combaterá os extremistas — prometeu no discurso de lançamento da campanha.

Mesmo assim, Goldsmith acusou o rival de dar voz a radicais. Para os defensores do candidato, as acusações são infundadas. Khan condena o extremismo abertamente e demitiu um assessor que fez declarações homofóbicas no Twitter.

A advogada e escritora paquistanesa Ayesha Khan, que vive em Londres, acredita que a cidade dará um exemplo ao mundo se eleger Khan.

— Londres é uma cidade diversificada e cosmopolita e, apesar de imperfeita, é talvez uma das mais tolerantes do mundo. Eleger Khan evidenciaria esse aspecto de Londres. O fato de ele ser muçulmano num momento em que a islamofobia cresce no Ocidente aumentaria as credenciais da cidade e empoderaria a comunidade muçulmana. Acho que a eleição de Khan facilitaria a integração e a compreensão entre maiorias e minorias — diz Ayesha, lembrando que, desde os ataques terroristas em Paris, os casos de islamofobia aumentaram 300% em Londres.

Religião, no entanto, não é o principal tema da campanha. A maior preocupação da população é o preço da moradia, cada vez mais inviável. Khan promete aumentar em 50% o número de novas construções com valores acessíveis. Além disso, diz que congelará o preço dos transportes públicos até 2020. Ele tem ainda outro desafio pela conquista dos 8,6 milhões de habitantes da capital: afastar-se da ala mais à esquerda do partido, representada pelo líder socialista Jeremy Corbyn. Khan opôs-se, por exemplo, à taxação de transações financeiras. Para ele, a imprensa britânica criou uma expressão: esquerda suave.

— A maioria dos londrinos é sensível à opinião da comunidade empresarial e do setor financeiro. Khan se distanciou de Corbyn para gerar um perfil mais de centro, pró negócios. Ele está determinado a não ser enquadrado pela campanha de Goldsmith — explica Charles Lees, professor de política da Universidade de Bath.

EX-MINISTRO DE TRANSPORTES

Em 2005, Khan foi eleito parlamentar e, em 2009, no governo do premier Gordon Brown, ocupou a pasta dos Transportes. Foi o primeiro muçulmano a integrar o Gabinete. Se vencer em maio, administrará o orçamento de £16 bilhões (R$ 79 bilhões) do maior centro financeiro do mundo. No último ranking, Londres desbancou Nova York.

Para Tom Quinn, especialista em política britânica da Universidade de Essex, Khan tem feito uma campanha correta:

— Distanciou-se de Corbyn para atrair eleitores moderados, mas não a ponto de dividir o partido. Concentrou-se em políticas. Sua campanha não tem sido espetacular, mas isso não é necessário.

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